Pular para o conteúdo principal

Humor de Segunda #14: O Vendedor de Amendoim

Eu vendia amendoim, mas deveria ser jogador de futebol. Tinha essa consciência no auge e na plenitude dos meus 7 anos, de forma que sabia que estava desperdiçando meus talentos promissores enquanto carregava amendoins pelos ônibus, encarando pessoas que sequer olhavam para mim.

Certo dia, achei uma bola na rua. Foi como uma mensagem de Deus para mim, como se estivesse dizendo "Filho, siga o seu talento". Larguei o isopor de amendoim na mesma hora e segui a iluminação do meu sonho, o sinal divino de que, no futuro, nenhum Messi, nenhum Neymar e nenhum Cristiano Ronaldo seria capaz de se comparar a mim.

E lá estava eu, de frente para o gol, o público gritava e comemorava. O suor escorria pela minha testa num misto de nervoso e empolgação que fazia com que eu sentisse cada pequena parte do meu corpo vibrar no ritmo do público. O goleiro também mostrava grande nervosismo. Chutei a bola com uma precisão e potência tão certeira, que seria impossível o gol não sair.

Eis que, num berro astronômico, a minha mãe me grita. A platéia sumiu, o goleiro sumiu e eu nem tive tempo de olhar a beleza do gol ou até mesmo se este tinha chegado a acontecer. Tinha esquecido o isopor de amendoins em qualquer lugar da rua, perdi o dinheiro do dia e tomei uma surra indescritível.

Eu não era jogador de futebol, eu era vendedor de amendoins, e sempre seria. Já a bola, assim como meu talento para ser um grande jogador, nunca mais revi.

Comentários

  1. Parabéns pelo conto! Estampa a realidade que assistimos diariamente...

    ResponderExcluir
  2. Que texto maravilhoso. De verdade.
    Curto e certeiro, foi uma festa visual.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prosa de Quinta #2: Algumas Cartas Não Devem Ser Abertas

Ela acreditava em anjos e, porque  acreditava, eles existiam [Clarice Lispector]. 1 A chaleira apitou, tirando Daniela de um devaneio. As mãos, vestidas em luvas de cozinha, ergueram um envelope de 114 x 162 mm. O vapor atingiu o fecho. Vinte segundos depois, com toda a cautela possível, uma pequena lâmina foi passada por baixo da aba do envelope, partindo o lacre amolecido. — Voilà ! — disse, retirando a carta. Salvador, Bahia, 5 de maio de 1993. Elsa, Será que jamais percebeu minha indiferença pelos seus sentimentos e aflições? Imagino que tenha contratado um detetive (que deve ter sido caro) para descobrir minha localização e enviar aquela carta patética. Nela você diz que ficou doente e só minha presença poderia te acalmar ou te salvar. Pelo amor de Deus, Elsa, és louca de fato ou está ensaiando para entrar num sanatório? Eu voltar? Acorde! Jamais gostei de você. Fiquei ao seu lado por simples interesse. Suas amigas bem que tentaram te avisar, mas voc...

Prosa de Quinta #1: A Última Noite

Dizem por aí que o maior fardo que uma mulher  pode carregar é o conhecimento futuro da solidão. 1 Bartolomeu bateu na porta. Ele esperou mais alguns segundos e bateu outra vez. De repente, em sua mente, a ficha caiu. Foi tão estranho, tão perturbador perceber que depois daquela noite jamais bateria naquela porta novamente que, na terceira vez que bateu, fez isso com suavidade. — Bartô? — indagou uma voz familiar. Ela já deveria estar esperando por ele. Como sempre, ele tinha telefonado antes de ir e, naquela noite, aproveitou para antecipar o motivo do fim do relacionamento pelo telefone.  — Sou eu. A porta foi aberta bem devagar.  — Você está bem, Verônica? — Sim... Entre, Bartô. 2 Ele entrou. Verônica trajava uma camisola-lingerie preta de seda pura. O tecido parecia abraçar seu corpo de curvas suaves. Ela foi até um canto da sala de estar, abriu uma garrafa de vinho tinto e encheu uma taça. — Estou com sede, encha mais. — Vá com ...

Babado de Segunda #2: A mulher gorda

Era mais uma nostálgica tarde de domingo, não tinha amigos nem para onde sair. Deitada no sofá, movimentava o controle remoto em busca de alguma programação que lhe agradasse. Suada, impaciente, coberta de preguiça, levantava-se apenas para tomar água e pegar alguma coisa para comer. A casa simples, pequena, morava sozinha, a geladeira repleta de guloseimas, há anos prometia-se um regime e as segundas sempre começaria uma caminhada.  A programação dominical da TV aberta permitia-lhe apenas programas pejorativos, a grande maioria exibindo belas mulheres de corpos esculturais, mostrando lingeries sensuais e micro biquínis em praias. Aquilo era nauseante, torturante, precisava mudar de canal, não poderia maltratar-se tanto assim. Em um súbito ato de revolta, apertou o controle remoto com força o que fez com que mudasse de canal, decidiu então assistir aquele filme, envolver-se mergulhada na história de amor do jovem casal, desejou ser a mocinha a beijar o galã. No int...