Eu
queria poder desenhar em palavras as coisas que eu penso. Acho tão
bonito esse pessoal que borda com esmero uma linha de raciocínio.
Meus versos ficariam alinhados como as roupas ficam no varal, bem
limpinhas e cheirosas. Ou seriam duras e imponentes, como um
veredito. As palavras escapam da minha cabeça antes de virarem uma
frase de efeito! As letras se desmancham como uma torre de baralhos.
Se eu soubesse escrever, eu faria música com minhas ideias, poemas
com minhas angústias, cartas para meus amados. Escreveria coisas
sobre o além, sobre o sobrenatural, sobre o universo, sobre o prazer
de sentir o vento nos cabelos. Eu escreveria minha própria história,
inventaria também mil personagens como os do sítio ou dos lustres
dos castelos. Se eu soubesse escrever, ao invés de ler mãos, eu
escreveria mãos, traçaria destinos, pintaria emoções das cores
que eu quisesse. Escreveria artigos científicos com as curas de
todas as doenças. Eu iria mandar uma carta desaforada para o pessoal
em Brasília. Ou escreveria novas leis para a humanidade. Iria mandar
uma carta dando parabéns ao Papa, dizer que ele é até legal, mas
que tomasse cuidado com os colegas. Às vezes eu sinto um nó na
garganta, mas se eu soubesse escrever talvez eu soubesse explicá-lo.
Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam [Clarice Lispector]. 1 A chaleira apitou, tirando Daniela de um devaneio. As mãos, vestidas em luvas de cozinha, ergueram um envelope de 114 x 162 mm. O vapor atingiu o fecho. Vinte segundos depois, com toda a cautela possível, uma pequena lâmina foi passada por baixo da aba do envelope, partindo o lacre amolecido. — Voilà ! — disse, retirando a carta. Salvador, Bahia, 5 de maio de 1993. Elsa, Será que jamais percebeu minha indiferença pelos seus sentimentos e aflições? Imagino que tenha contratado um detetive (que deve ter sido caro) para descobrir minha localização e enviar aquela carta patética. Nela você diz que ficou doente e só minha presença poderia te acalmar ou te salvar. Pelo amor de Deus, Elsa, és louca de fato ou está ensaiando para entrar num sanatório? Eu voltar? Acorde! Jamais gostei de você. Fiquei ao seu lado por simples interesse. Suas amigas bem que tentaram te avisar, mas voc...

De repente só falte ao personagem (que diz não saber escrever enquanto escreve pra caralho rs) um gole de cachaça goela abaixo. rss
ResponderExcluirAs palavras sendo sempre nossos entraves mais bonitos. Lindo Dani, lindo!
ResponderExcluirLindo desenho . ..fala muita coisa legal com poucas palavras e permite que o leitor dê continuidade aos temas abordados influenciados pelo enredo .
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