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A Paz dos Domingos #11


O jeito que você ajeita os seus cabelos, faz o meu estômago sorrir. E a maneira que você ri de si mesma, deixa o meu pâncreas quente. Mas é quando você sorri que eu saio de órbita! Fico sempre embabacado com as suas reações tão naturais, como o simples jeito que você caminha na minha frente. Leva consigo um ar infantil, acompanhado de uma maturidade sem fim.
Eu fico feliz porque você sempre lê a parte dos classificados toda. Não faz sentido nenhum ler essa parte do jornal, mas como é você, tudo bem.

Fecho os olhos calmamente e inspiro toda vez em que você vem só com aquela camisa amarela sobre sua pele. Você parece o sol que invade e dá calor ao meu coração. Consegue arrebatar todo o meu ser de uma só de vez. Aos domingos, você traz para casa sempre uma travessa de mousse de maracujá, e é o seu jeito de dormir pós o almoço que me comove. Você não se dá conta, mas a maneira que você está sentada de pernas cruzadas, olhando pro livro de Drummond que você lê, faz meu o coração tremer.

Eu tento evitar, mas não tem como. Todas as segundas eu me pergunto se mereço tanto. Mas o jeito que você descansa o seu corpo sobre minha cama, parece fazer sentido. Você está tão à vontade apenas com as meias sobre os pés. Também é o jeito que você acorda com a cara emburrada, de pouca conversa e goles cavalares do café que coamos juntos na cozinha que você planejou durante 4 meses. Me acostumei com as suas roupas espalhadas e com o copo de cerveja de sábados na varanda, com a bicicleta também amarela que você pôs nome. É a maneira que seus olhos se iluminam com filmes de Almodóvar.

Custo a acreditar que seu silêncio também é meu, por mais que não seja. Imaginar o que você pensa quando está deitada sobre meu colo sem falar, me instiga a te querer mais. Você é um copo de mistério que roubou o meu coração devagar, assustou a minha vida entediante. Até as suas conversas mais banais sobre o que vamos comer amanhã, me interessa. Não ouso mudar nada em ti porque você é o carinho, o pesadelo, a falta da paz que eu mais queria. Não ouso mudar os seus defeitos mais terríveis. Vai faltar a paz dos seus gritos porque eu simplesmente te deixei 10 minutos esperando.

Sobre seu criado mudo está uma foto dos seus pais, não a nossa. Mas compensa, toda vez que você me chama do quarto. Desaparecer nunca foi uma opção, até mesmo nas brigas mais intensas. Silenciosamente, eu acho muito bonito o jeito que você não me deixa falar, e aquilo me irrita apenas superficialmente. Todo seu corpo é seu e não meu. Toda sua vida é sua, não minha. E é por isso que fico. E caibo, e me encaixo. E durmo, e vou quando você me grita.

Porque nós sabemos o quanto somos perfeitos sozinhos. Muito mais que isso: somos felizes nas nossas solidões. Mas o negócio, Clara, é que você clareia mais a minha vida. Por isso, nós, morena, ficamos.

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