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Tela Plena #9: Prevejo, Logo Tenho Pressa


Intuir é como sentir o hálito do precipício antes de chegar ao topo. É saber da inevitabilidade. É burlar o ponto cego do olhar diante do futuro. É notar como poder ser grande uma ideia, enquanto uma parcela comum se habitua apenas a viver com os micro conceitos dela.

A intuição é a ciência dos poetas, dos bêbados, dos visionários, dos intensos e maltrapilhos. É a arte subestimada de muitos gênios. Foi a sentença de profetas e cavalheiros. A prece de exilados. A fé dos empiristas. Subestimá-la, então, é como viver sem seguro de vida: é andar nos trilhos do trem. Abraçá-la por completo é se entregar à loucura: é ver o que, por lei social, deve ser invisível aos sãos.

Nesse batalha intermitente, oscilo entre a insanidade e a imbecilidade do profundo ceticismo. Sigo intuindo, portanto, e não desejando. Há um cansaço de desejos. Há uma agonia por realizações. Me “terapeutizo” sim, mas ainda sofro. Sofro já não com a urgência dos meus quereres, mas com a força golpeante do que vejo a vida querer de mim. E do que receberei em troca. Prevejo! Anseio. Vomito. Toco(me) fogo. Vivo em brasas só de imaginar o que me aguarda. Penso, indiscriminadamente, quantas vezes mais será necessário dormir e acordar. Alimentar, suar, ler ou existir para enfim, isso tudo (ou isso tudo o que eu sou), indiscutivelmente, Ser.

Comentários

  1. Perfeito Bluma! O que seria do mundo se não fosse os inquietos, os poetas, escritores, pensadores. A vida acabaria se transformando uma grande linha de produção, em que todos têm que fazer as mesmas coisas, ao mesmo tempo e no mesmo ritmo, de modo a tornar todos iguais, sem qualquer peculiaridade que possa definir um indivíduo de outro.

    O pensamento é uma força criadora, é prever, materializar, no escuro fumê.
    Amei o texto!

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    1. Obrigada, amigo. É real: sem essa inquietude toda, quais seriam os nossos progressos?

      Que bom que gostou! Fico feliz pelo retorno. Por favor, venha sempre!

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  2. Nossa! O que eu senti lendo seu texto foi a beleza das metáforas a profundidade do conteúdo é o quanto ele nos guia a um ritmo de leitura que não pode ser rápido porque precisamos construir as imagens que você cria, mas que também é muito fluido. :)

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    1. Feliz pela sua leitura, Felipe! E pelo cuidado de se deixar embarcar e criar as imagens de cada palavra, de cada sentido.

      Volte! :)

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  3. Meu retorno: Em caos, criação. Pois ela vem sem o saber, sem o querer. O anseio dos criadores dá-se pelo seu real ser não caber na veste de vísceras, na pele viva e no sopro de um animal desperto. Todos os dias o poeta vê o astro-rei nascer pela janela do cárcere. Não esperando, acontece. Não prevendo, prevê. Não sendo, é.

    Lindo texto e ótimo discernimento, Dona Bluma dama da janela :)

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    1. Esse comentário é tão eu, que bem poderia ser parte do texto. Adorei o modo como você captou a mensagem, D. (Como você comentou com o S., fiquei em dúvida se queria revelar a identidade, rs). Mas, enfim. Obrigada! Fantástico retorno!

      Beijo, moço! :)

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  4. "...Caminho, e me pergunto na vertigem:
    'Quem sou? Para onde vou? Qual a minha origem?'
    E parece-me um sonho a realidade..."

    Augusto dos Anjos


    "Não sou nada,
    Nunca serei nada,
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim
    Todos os sonhos do mundo."

    Fernando Pessoa

    Sorry, Bloomy, eu não sei se saberia comentar de outra forma que não citando poemas que o seu texto me fez lembrar.
    A propósito, tem poesia demais nele. =)

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    1. Espero que a dose extra da poesia no texto, tenha causado "boa-embriguês"! Rs. Sim, me identifico também com os poemas - sobretudo com o do meu queridíssimo F. Pessoa. :)

      Valeu!

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  5. Eu chorei lendo seu texto! Lindo lindo lindo e lindo. Talvez te conte motivo das minhas lágrimas. Tão silenciadas. Eu gosto do seu jeito de escrever não tem jeito, inquietante eu diria Blumeuris, permita-me o apelido ! Você sempre inquieta, enlouquece e não deixa de lado um lugar que todas as almas precisam, a palavra. Através de textos assim! INCRÍVEIS!

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    1. Feliz demais por ter conseguido ir até a alma-da-Lua! Feliz mesmo.
      Coincidiu do seu acaso cruzar e sincronizar com a mensagem contida no texto - parece até providência, né? Ainda bem que a escrita existe!

      Obrigada por tudo, linda!

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