Há exatos 50 anos, uma baleia bateu em um catamarã no Brasil, e as pessoas ficaram sem entender o que houve. Não sabiam por que tinha acontecido, pensaram que era mero acidente. Não foi. Era a terra começando a responder aos ataques sofridos por nós, seus ilustríssimos inquilinos.
Começaram a surgir baleias enormes para "defender" os oceanos, da poluição, da pesca e do mero trânsito de pessoas entre suas posses. Uma observação para o motivo da palavra defender estar entre aspas: elas sempre foram de uma violência extrema.
Eu sempre julguei compreender esse comportamento "defensivo", nós tomamos o que era deles, comemos os peixes e transformamos a matança desses animais em mero esporte. Atacamos tanto o "planeta azul" que ele começou a se defender. Eu realmente entendia o que estava acontecendo.
Os grandes navios de transporte continuaram transitando, cobrando preços caríssimos e revestidos com metais pesados e pontudos, e mesmo assim, as vezes não era o suficiente. O peixe se tornou uma iguaria caríssima, levando em conta o perigo que era se aventurar no mar perigoso e enfrentar as baleias gigantes, apenas para saborear um peixe. E foi aí que eu entrei.
Veja bem, eu sempre julguei entender as baleias e a forma como elas agiam, defendendo o que era seu, nós sempre fomos os vilões da história. Sempre. Mas eu preciso de dinheiro, também, e o que a pesca paga hoje em dia é de se encher os olhos de qualquer um, da forma que encheu os meus. Não seria fácil, obviamente. Tive que deixar uma filha doente no hospital, aos cuidados de médicos que só o perigo da pesca poderia pagar.
Depois dessa revolução, apenas os ricos comem peixes. Eu não sou rico. Comer um peixe seria como abrir mão de várias das minhas necessidades básicas, visto a dificuldade que é conseguir pegar um peixe sem chamar atenção das protetoras. E olha que eu sempre tive talento, aprendi muito rápido a identificar uma gigantesca mancha preta no meio do mar, assim como alertar ao capitão para que fugíssemos imediatamente. Pode dizer, sim, que fugir não é lá um ato muito corajoso, mas a atividade da pesca em si, hoje em dia, já é um grande ato de coragem.
Coragem. Vou precisar disso agora, penso, ao avistar o meu barco afundando lentamente, aos pedaços, no meio do mar. E de nais coragem ainda, vou precisar, ao avistar três gigantescas manchas pretas vindo em minha direção. Eu já pesquei muito.
Fecho os olhos.
"A aninha será despejada do hospital", penso.

É incrível como quem constrói as coisas geralmente não usufrui dessas coisas. Seja o pedreiro de um grande edifício, os vendedores das lojas, os mineiros... Enfim, dá pra perceber algumas tiradas como boas metáforas para nossa sociedade consumista!
ResponderExcluirSeus textos trazem temas tão relevantes que as vezes não consigo lê logo,porque me inquieta bastante. Preciso conversar com você! É sempre muito bom, lê textos assim que coçam nossa alma por completo. Obrigada, mas uma vez Lua!
ResponderExcluir"Tá vendo aquele peixe, moço, eu ajudei a pescar..."
ResponderExcluirDos riscos distópicos que corremos por quem amamos.
Valeu pelo texto, Teles.