Cristóvão morreu. Demorou um pouco de aceitar que havia desencarnado, mas precisava se preparar para comparecer ao seu sepultamento. Aguardava na recepção do céu para preencher os protocolos de nova moradia, transporte à terra, identificação de almas penadas ou encostos, essas coisas. Após estar com seu crachá, foi com o seu grupo de almas ao cemitério onde todos seriam velados.
Era o enterro de Cristóvão. Seus entes mais próximos - que não eram muitos - estavam reunidos junto ao seu caixão. Seus pais já eram também falecidos, então sua tia, Helena, era a que cumprimentava todo mundo. Não tinha a menor intimidade com Cristóvão, mas assumiu o protagonismo da cena, contando de forma constrangedora detalhe por detalhe do acidente.
- Nunca imaginei que meu enterro fosse ter tia Helena falando desse jeito - pensou Cristóvão.
Seu colega de trabalho, José, vendo as atenções voltadas para a tia Helena, não resistiu ao impulso de roubar o anel que ele estava usando.
- Descarado - pensou Cristóvão.
Anabela, sua noiva, estava aos prantos.
- Cris, Cris, foste embora tão cedo!
- Eu nem sabia que ele tinha noiva - fofocou a prima.
- E eu não tinha mesmo! - pensou Cristóvão. - Essa doida não me deixava em paz, eu só a vi uma vez!
Lúcio, o dono do imóvel em que morava, também estava lá:
- Morreu devendo cinco meses de aluguel, hein? Só vim conferir se não era mais uma de suas artimanhas para não me pagar...
- Pelo menos desse aí eu me livrei - pensou Cristóvão.
Lúcio foi tirar satisfações com a tia Helena, sobre quem assumiria seu prejuízo. A discussão foi tão feia, que José, tentando sair, acabou tropeçando no caixão e derrubando o morto.
- Cris, meu amor! - dizia Anabela olhando de um lado ao outro sem saber o que fazer.
Tia Helena tratou de sair ligando para todos os outros parentes e conhecidos para contar o alvoroço, enquanto o corpo de Cristóvão continuava no chão. Quando percebeu, já estava à caminho do carro para ir embora. A prima aproveitou a carona e foi embora também. O dono do imóvel, sem esperança e irritado, foi embora. José se sentiu culpado e devolveu o anel antes de ir. Anabela foi a última, mas não muito depois que os demais. Os responsáveis pelo cemitério puseram Cristóvão de volta no lugar e deram o enterro por encerrado.
Aqui jaz Cristóvão Dias da Silva
23.06.1985
12.03.2015
23.06.1985
12.03.2015
O grupo de almas já o aguardava na saída.
- E aí, como foi lá no seu enterro? - perguntou o espírito ao seu lado.
- Eu acho que eu já não vivia antes mesmo de morrer.

Eu já tinha lido em primeira mão, lalala.
ResponderExcluirMe lembrou a música Construção/Chico Burque.
<3
Você é o fodástico dos comentários, é tipo "Witalo, semi deus"
ExcluirMuito interessante, parabéns!
ResponderExcluirMuito obrigada pela visita! Seja bem vinda!!!!!
ExcluirMuito bom, dani, adorei a ponta de ironia com que a morte foi retratada, assim como o funeral. No fundo, ninguém sabe a melhor forma de reagir nesses momentos, acabamos por tomar atitudes inesperadas e até mesmo cômicas, no sentido sombrio do coisa. Isso foi muito bem exposto no texto!
ResponderExcluirMuito obrigada, Lua! Adoro misturar comédia com um ar macabro!
ExcluirAmei, Dani! Lembra mesmo a música e Chico, Construção, acho que pela banalidade com que a coisa toda ocorre, pois "a morte é só a morte". E a ironia é realmente um negócio para poucos. Mas, confesso que fiquei morrendo de curiosidade de saber mais a respeito de todo esse processo interessante que você construiu, da pós-morte. A burocracia, enfim, o que acontece no Depois? Essa parte me prendeu...
ResponderExcluirMenina, lá é uma burocracia retada! Quando tem engarrafamento de nuvens então, nem se fala! Rsrsrs
ExcluirMuito bom!!!
ResponderExcluirObrigada! Volte sempre!!!
ExcluirVocê trata assuntos tão tabus de uma maneira suave e lúdica , logo mto você!!
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