Era uma noite de junho de 2007, o relógio marcava 20:17 e eu me sentia enclausurada dentro de um quarto de hotel, era a quarta vez que eu viajava em apenas um mês a trabalho. Resolvi, por alguma vontade, sair; quando me deparei, me encontrava em um táxi, estava no Rio de Janeiro. Aquele táxi amarelo me levava a algum lugar da cidade. Parei em um shopping conhecido, por sorte tinha vários teatros por ali.
Arrisquei-me e procurei por peças teatrais. Tinha dois monólogos, todos os dois falando de amor, um romance e um musical romântico. Logo sobre amor, que eu estava fugindo. Arrisquei um dos monólogos. Na fila, para entrar na sessão encontrei uma moça, que tinha os cabelos pretos e os olhos castanhos, falou-me sobre a desigualdade social, mas eu não estava prestando tanta atenção assim.
No teatro, apenas 17 pessoas estavam sentadas na plateia, em plena terça-feira, não sentei na primeira fila, sentei na fila 7, que, por sinal, só tinha um casal, era minha sina.
Seguiu um monólogo sobre o amor, mas esse era um pouco diferente. O ator ficava sentado em um banco no meio do palco, falando sobre sermos divisíveis.
Saí da sessão meio perplexa, atravessei o saguão meio atônita, acenei para o táxi para voltar pro clausuro do quarto do hotel. No outro dia, ainda meio tonta, escrevi um e-mail para alguém que morava longe, inspirei e expirei várias vezes.
Nada era convidativo o suficiente para sair daquele quarto, o sol adentrou fazendo um calor insuportável, tomei um banho de 7 minutos e enquanto me arrumava, me surpreendi com o espelho e, na frente dele, ri de mim mesmo, lembrei da peça da noite anterior e me deparei com tantos eus que me assustei. Deparo-me com eu tímido, violento e brusco, mas que ao mesmo tempo é social, carinhoso e reflexivo.
Visto a saia comprida e uma blusa básica que Dom me deu, só agora me lembro de Dom e o quanto de mim ele tem, o melhor e pior.
Quantos personagens tem aqui dentro? – me questiono.
É um monologo que vem de dentro, uma conversa diária que muitas vezes eu perco, ou ganho.
Isso sou eu, inclusive ninguém.

"Isso sou eu, inclusive ninguém." Singelo e lindo, adorei! Amei o final, me identifiquei
ResponderExcluirEntre Eus e Ninguéns, seguimos fragmentados e plenamente nossos.
ResponderExcluirEu tenho Ágata, Raul, Bocão, Pink, Dani, Joe, June, todos dentro de mim kkkkk
ResponderExcluirExcelente!!! "Isso sou eu, inclusive ninguém". - Meu coração parou com o final do texto. Que arremate! Na verdade, eu te digo: saber onde dar o ponto final é uma arte. Quanto ao texto: me identifiquei demais, demais. Coincidentemente, escrevi algo muito íntimo e de tema semelhante (que ainda vou criar coragem para postar, aqui). Também sou várias. Aliás, não somos todos?
ResponderExcluirAmei esse estilo seco, dúbio, introvertido. Você voou!