Toda vez que Francisco me olhava eu tremia, toda minha tez reclamava e eu me perdia em toda poesia que um dia talvez nós viamos a ser. Não foi somente uma vez, mas umas seis vezes, que ele deflagrava tapas sonoros na minha cara. Eu chorava sempre, um choro contido e agoniado. E apostava, comigo mesmo, uma corrida, mas a única coisa que fazia era ficar calada e parada. Quantas vezes Francisco apenas me olhava, e eu, apavorada, consentia meu silêncio no íntimo. Mas eu queria gritar, gritar comigo principalmente e me dizer coisas horríveis, mas muitas vezes eu quis acreditar que toda aquela situação ia mudar. Mas não ia. Conheci uma mulher dentro de mim, forte talvez. Então, naquela terça feira 9 de dezembro, coloquei o meu vestido preto, no caminho fumei três cigarros, antes de entrar bebi dois copos de café, suspirei, inspirei e expirei e entrei. Disse alto, tão alto que assustou o cara que escrevia o boletim de ocorrência. Ele me disse algo que me fez entender para mudar de ideia, mas não mudei. Disse alto mais uma vez! O cara, assustado, do outro lado não pestanejou e fez. Eu já estava debulhada em lágrimas, um pouco arrependida, mas toda vez que esse sentimento vinha, eu o mandava para uma casa bem longe. Fiz. Doeu não só uma vez, mas quando eu entrei naquela sala doeu outra vez, doeu sair daquele lugar, doeu quando eu não podia ligar, doeu não ouvir mais sua voz mas doía mais toda vez que eu pensava até onde eu fui. No dia que entrei naquela sala, eram sete mulheres, todas com a mesma história, umas piores, mas nunca melhores. A violência tá marcada, não há nada que se possa fazer. Apenas recomeçar, desde do dia que eu saí e denunciei Francisco, nunca mais o vi. Nem quereria, se o visse, que voltasse! Não sei onde está, nem por onde anda. Mas eu, eu sei! Estou no lugar que deveria estar, escrevendo em todo lugar. Invadida de mim, e amando cada parte que me tornei. Beauvoir é minha melhor amiga! Por isso, mulheres, vos digo que a liberdade de ser o que é, nos torna quem somos.
Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam [Clarice Lispector]. 1 A chaleira apitou, tirando Daniela de um devaneio. As mãos, vestidas em luvas de cozinha, ergueram um envelope de 114 x 162 mm. O vapor atingiu o fecho. Vinte segundos depois, com toda a cautela possível, uma pequena lâmina foi passada por baixo da aba do envelope, partindo o lacre amolecido. — Voilà ! — disse, retirando a carta. Salvador, Bahia, 5 de maio de 1993. Elsa, Será que jamais percebeu minha indiferença pelos seus sentimentos e aflições? Imagino que tenha contratado um detetive (que deve ter sido caro) para descobrir minha localização e enviar aquela carta patética. Nela você diz que ficou doente e só minha presença poderia te acalmar ou te salvar. Pelo amor de Deus, Elsa, és louca de fato ou está ensaiando para entrar num sanatório? Eu voltar? Acorde! Jamais gostei de você. Fiquei ao seu lado por simples interesse. Suas amigas bem que tentaram te avisar, mas voc...

Amei a forma como foi descrito, pude sentir cada angustia do momento, cada pensamento exposto, aberto como uma ferida, num texto que, com certeza, deixará cicatrizes em cada um que lê-lo. Maravilhoso
ResponderExcluir"Invadida de mim e amando cada parte que me tornei", fechou o texto com chave de ouro, amei essa frase!
ResponderExcluirNós, mulheres, vítimas de abuso físico e/ou psicológico, precisamos de textos como esse para termos força para irmos adiante! É difícil, mas juntas somos fortes! Obrigada!
ResponderExcluirSim, Luana! Gratidão por esse texto é a palavra! Angustiante, mas não menos inspirador. O momento catártico da personagem foi o instante em que ela entrou naquela sala e não se intimidou - insistiu. Por fim, veio a liberdade: o amar a si. Que esse texto dissemine e ampare!
ResponderExcluirEu também me visto toda de preto quando tomo alguma decisão extrema. Sempre. Preto é dignidade.
Uni-vos, meninas.
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