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A Paz dos Domingos #10


Você veio em dia atípico! Quando o amor era celebrado e atingido. Você veio, tirou a paz dos domingos, os sossegos dos sábados, e, quando eu escuto a sua voz, meu corpo arrebata e desconecta da minha alma, e eu me vejo tão perdida, que a única coisa que eu desejo é ficar em posição fetal e chorar. Você veio, fez meu coração parar de tanta alegria que sinto, você roubou minha pouca organização de rituais que não fazem o menor sentido. Você veio e é você. Com todo alarde, causando toda confusão possível, colocando essa coisa tão inexata sobre a mesa e eu nem sei mexer com isso. Você acaba comigo e me constrói! Isso é tão louco que eu quero apenas gritar. Todas as vezes que você me toca do seu jeito tão peculiar, minha alma fala baixo comigo, não se altera e eu me vejo me refazendo, diante de você, como lagarta vira borboleta! Você desperta o melhor e pior de mim, e eu não sei mesmo o que fazer com isso! Você mudou minha vida, em um tempo recorde, você não era daqui, mas é como se você estivesse voltando para casa. Templo de desorganizações desleais, dói pensar que talvez você não fique. Eu prefiro toda essa desorganização, se isto for com você. Eu não quero a paz, tampouco o sossego! Quero seus beijos, a sua ressaca, a sua risada, a sua voz semi entoada, as suas mãos e seus braços. Você veio em uma sexta e eu não pude evitar, e por isso imaculei todas as sextas, mas hoje, estou esperando tu voltar e eu não consigo respirar, com a falta que você faz. Você vem, alma tão linda? Vem me buscar? Ou a gente vai se perder? Você veio! Você vem? (pausa enorme para um choro contido, uma suspirada enorme). Você vem comigo, para de fato construirmos nossa história. Tão cheia de imperfeições, de tanta loucura e maluquez! Você vem, alma? Me dará as mãos, e eu sentirei sua tez tão gostosa sobre minha pele. Você vem, alma? Sorrateira, devagar ao ponto de tirar o fôlego a cada não presença sentida! Alma, diz que vem, não prometo felicidade, não prometo dias com louvor, prometo tanta confusão que você dirá que são tempos de guerra, mas a nossa guerra é tão peculiar e surreal que atingirá a alegria surpreendida, os cafés mais gostosos da sua vida, não serei a sua diva, seria eu sua imperfeição tão perfeita que juntos balançaríamos o mundo, esse mundo tão igual, tão cheio de regras que nós não queremos acompanhar! Você veio para ficar, mas os desencontros eventuais vão ocorrer; para isso, Alma, não desista, insista em ficar. Porque eu, eu já estou aqui só esperando você ficar, então fique de uma vez!

Comentários

  1. Um convite para um "amor com sabor de fruta mordida";
    Um "perigo é eu me esconder em você" também...
    E um boa sorte ao que vier.

    =)

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  2. Nossa!!! De tirar o fôlego!!! Parece aqueles romances arrebatadores cinematográficos... e as paixões sempre são! Independentemente da história, a bagunça é geral e garantida, foge sempre da lógica e do bom senso! Parabéns por essa explosão de hoje!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Lu, tive a sorte de ler o texto antes mesmo dele nascer aqui, no blog. Mas o baque e a falta de ar não se atenuaram, mesmo na segunda lida. Esse texto é lindo porque veio perfeitamente de dentro, genuinamente de dentro: ele é puro. É realidade e desassossego. É paixão bruta. Nunca deixe de Sentir, minha amiga!

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  5. "Não desista, insista em ficar". Eu insisto. Que texto, quanta representação em cada palavra escrita, maravilhoso em todos os aspectos possíveis, parabéns!

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