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Tela Plena #7: Um Corpo Jogado na Cama


Falando assim, até parece um corpo que já morreu. Um corpo destituído de vida. Tenho pavor da palavra "corpo" quando está implícito que esse corpo não possui mais alma. Tenho pavor da morte.

Mas o corpo jogado na cama é o meu. É que às vezes falo sobre mim mesma na terceira pessoa do singular, como se precisasse narrar a minha própria vida. Por isso, quando levanto o meu corpo da cama para apagar a luz do quarto, falo que Ela se levanta da cama para apagar a luz do quarto - por conta da sua absoluta falta de coragem em permanecer acordada durante toda a madrugada. A madrugada é para os perturbados, para os loucos, inquietos: e no momento, também tenho medo em admitir ser qualquer uma dessas coisas. Não deixa de ser uma covardia.

Quero atribuir a minha própria covardia à outra pessoa. Uma terceira pessoa do singular. Será por isso, então, que tenho essa mania de narrar a vida? Por não desejar ser quem sou? É difícil dizer. Mas digamos que eu tivesse ganhado um prêmio ou encontrado o meu amor ideal - eu diria, então, que Ela é quem ganhou ou o encontrou? Talvez não. Eu nunca fui boa em assumir responsabilidades. Prazeres, sim.

Mesmo com a minha absoluta falta de coragem em ficar acordada, com medo da fenda da minha loucura se abrir, não me sinto totalmente tranquila em ir dormir, também. Mas aí eu volto para a questão do início: quando me entrego ao sono, torno-me apenas um corpo jogado na cama sem consciência de si mesmo. Não se trata de um corpo sem alma, menos mal. Mas a falta de lucidez e percepção também me assusta. É um corpo quase sem defesas, preso à realidade paralela do sonho e vulnerável à uma terceira pessoa do singular: um Ele que pode vir na calada da noite e me fazer mal. Ou pior, nas horas de desatenção do sono, posso ser banida da vida e ficar pelo lado de lá mesmo, presa. Morta por puro desleixo. Por se dar ao luxo de baixar a guarda e dormir.

Minha mãe dizia que na vida a gente nunca deve baixar a guarda.

Mas, entre a loucura e a morte; entre ficar excessivamente desperta ou me entregar à vala da inconsciência, eu finjo preferir a inconsciência, o desligamento temporário da vida. Por isso apago a luz, na minha absoluta falta de coragem em permanecer acordada durante toda a madrugada. Apagar a luz é o decreto de que ainda não estou preparada para enfrentar o clarão da minha excentricidade. Não estou pronta para o tipo de silêncio existente nas horas frias da noite, que parece aguçar o barulho que mora dentro da gente.
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Então eu apago a luz e jogo o meu corpo covardemente na cama. E finjo fechar os olhos. Finjo dormir. Finjo não ouvir o estrondo que soa dentro de mim até poder adormecer de verdade. Até o ruído se infiltrar em meu inconsciente e transformar-se em sonho incompreensível. E eu não lembrar de nada pela manhã.

Comentários

  1. Você, como é típico seu, transforma tudo que há de aparentemente mais simples em algo fabuloso e complexo. É impossível ler um texto seu e não despertar para o instante presente, não se olhar em perspectiva e saborear muito mais tudo!

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  2. Que lindo esse retorno, amiga. Muito lindo! Obrigada por emprestar seus olhos - sempre!

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  3. "...Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas..."

    Obrigado pelo texto, Bluma. Eu gosto de como escreve, mesmo mesmo.

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    Respostas
    1. Legião Urbana sempre cai bem!

      Obrigada, querido! Mesmo, mesmo. :)

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