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Tela Plena #6: Meninas São Tão Mulheres

Acordei irritada às quatro da manhã.

Xixi de filha que havia parado na minha cama.

– Não, eu preciso levantar – me convenci, antes de ter calculado por pelo menos seis vezes a ideia de acordar a moça e trocar todos os lençóis do colchão, àquela altura.

Fui pisando firme no chão até a área de serviço, imaginando que os vizinhos de baixo conseguiriam ouvir o som da minha existência torta no meio da madrugada. Xinguei. Roguei pragas contra o calor infernal da cidade abafada, contra os mosquitos insanos por sangue e contra a minha insone tarefa de mãe solteira.

Não, não sou uma mãe de filme. Sou uma mãe real, com todos os pré-requisitos de uma mãe real: irritadiça, protetora, que imagina catástrofes se o transporte escolar atrasa dez minutos, que apela pra alguns clichês do tipo “se tu continuar com essa careta, o vento vai passar e você vai ficar assim pra sempre”. E que às vezes, de vez em quando, também acerta em cheio.

É, sou uma criança, assim como ela. Renato Russo estava certo. E às vezes é dose não acharmos culpados além de nós mesmas, também. Culpados que em uma simples desventura de xixi na cama, por exemplo, se levantem para ir buscar o detergente. Parece rude, mas na verdade é poesia dura e concreta de cotidiano. Porque pra gente é uma questão de hombridade. Ir buscar o detergente é uma questão de hombridade. Mas, aprendemos a superar isso também, já que nem todo mundo nasce com ela.

Pois, busquei o desinfetante eu mesma. Buscamos, quase sempre. E por isso nos tornamos tão eficientes em remover manchas inconvenientes. Nós lavamos e dançamos. Dirigimos o carro e tomamos o pileque. Coexistimos. Eu coexisto. E cada vez que levanto na madrugada com uma demanda qualquer, como essa, ou a cada vez que lembro de mim mesma aos dezessete anos em uma cadeira de balanço, morta de medo e com minha filha completamente dependente no colo, eu gosto de pensar que fico mais forte. Eu gosto de pensar, inclusive, que ainda fui bastante privilegiada: houve quem pudesse me comprar uma cadeira de balanço.

Isso não se trata de lição de moral de fábula, nem de drama tipo americano. Se trata da lógica expressa da vida. De se tornar quem você é, e não ter vergonha disso. Se trata de ganhar o pleno direito em ser mais exigente, até. Mais chata. Porque semelhante ao modo como olho para minha filha e desejo o melhor, eu olho para cada canto da minha casa ou quarto e me vejo: eu estou aqui, em cada coisa. Eu fiz parte, organizei ou criei. Eu me respeito. Eu sou a máquina de escrever azul, as caixinhas poéticas, os livros, os vasos. Seja com o mínimo necessário, somos o conforto e o capricho que levamos até nós mesmas, e nada abaixo disso. Nada que tolha isso.

Porque qualquer um que não esteja pronto para entrar, ver e preservar a suficiência e afeto que eu deposito na minha própria vida, não será também o amor dela.

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