Jantamos juntos, como costumávamos fazer quando ela queria conversar. Meu Deus, que macarrão gostoso, nem conseguia pensar em respostas boas para amenizar o que fosse que ela estivesse sentindo. Para falar a verdade, nem estava ouvindo direito o que ela falava. Meu deus, que macarrão maravilhoso.
Consegui escutar algumas poucas coisas, parece que eu não estava dando atenção suficiente à ela nos últimos meses, por que? Por que ela achava isso mesmo? Eu sempre saía com ela quando ela queria conversar e quase sempre era para reclamar de algo que eu tinha feito ou deixado de fazer, e eu sempre escutava (ou quase sempre, porque muitas vezes, o assunto era justamente o mesmo e eu tinha a impressão de estar ouvindo isso há séculos). Um curso na Suíça? Por que ela iria para a Suíça? Não estamos bem aqui? Meu deus, preciso encomendar uma tonelada desse macarrão maravilhoso.
Então ela se levantou e saiu, como nunca tinha feito. Acho que disse algo sobre estar indo embora, sobre não aguentar mais os meus erros e sobre eu ser uma pessoa demasiadamente relaxada. Falou por exatas duas horas, se não fosse o restaurante, eu já teria ficado entediado, odeio discutir a relação. Foi embora. Para sempre? Será que me ligaria no dia seguinte? Será que ainda estávamos juntos? Só sei de uma coisa: que macarrão dos deuses, esse.
Nos dias seguintes em que fui àquele restaurante, invariavelmente, o "macarrão dos deuses" tinha gosto de merda. Passei a odiar: O macarrão, o restaurante e a sua ausência. Sinto muito.

Hahaha, muito massa! Gosto desse "arzinho" debochado dos seus personagens masculinos, eles são despretensiosamente sarcásticos e divertidos. Parabéns!
ResponderExcluirLua, você se sai muito bem na voz masculina. Estamos justamente numa fase em que falar ou fazer comparações de gênero são sempre um melindre, rs, mas a verdade é que o "avoamento", a complacência preguiçosa diante da fúria questionadora feminina - e o seguido "arrependimento", são, realmente, típicos masculinos em relações de dependência e desgaste. Quantos exemplos temos? Quantos casos já não vimos? Quantos filmes já não retrataram? Você é fera em captar esse universo. E ah! Como eu gostaria... Rs!
ResponderExcluirLua, o texto está invariavelmente e como sempre muito engraçado e claro muito bem escrito. Você consegue, rapidamente, captar emoções aleatórias do dia-dia que traz ao leitor uma sensação de " já senti isso" !
ResponderExcluir