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Humor de Segunda #7: Meros Fantasmas do Prédio


Acordou cedo, abriu as cortinas, sentiu o leve sol da manhã acariciando a pele, assim como o cheiro do pão recém feito da padaria próxima, exatamente como ontem, exatamente como no mês passado e como no ano passado. Era um típico dia atípico. Caminhou pela casa, tomou o café da manhã pensando em como deveria ser o sabor do pão daquela padaria da esquina, que mesmo morando num prédio tão próximo, por tantos anos, nunca se permitiu ir, alegando sempre precisar perder alguns quilos ou estar sem dinheiro. Bem, não seria hoje que quebraria o ritual.

Ligou a televisão, acompanhou as notícias da manhã, reclamou do novo presidente - novo? Já não estava no poder há consideráveis anos? - , desligou no meio do jornal para resmungar, como era de costume. Tomou um banho gelado, pensou em ligar para o proprietário do apartamento para reclamar da fiação, mas lembrou que já estava devendo cerca de um ano ou dois de aluguel. Reclamou da crise econômica que já tinha chegado ao país.

Lavou as roupas, checou o celular - nenhuma mensagem, para variar - , foi para a janela fumar um cigarro enquanto olhava o movimento da rua: a vizinha da frente rompera com o namorado; a criança de baixo fez aniversário e a senhora de cima estava de mudança. "Preciso parar de fumar. Um dia compro um daqueles adesivos de nicotina".

Sentou na sua poltrona como de costume, todos os dias exatamente às 11:45, pouco antes da hora do senhor do apartamento da frente perguntar se queria almoço - sempre queria -, fechou os olhos e entregou seu último suspiro para mim. Era um típico dia atípico.

P.S: Osvaldo, o velho do apartamento da frente também estava nas últimas, foi recolhido por mim antes mesmo de pensar em preparar o almoço.

P.P.S: As únicas pessoas que poderiam notar o falecimento uma da outra tinham partido comigo justamente no mesmo dia. Como eu amo as ironias da vida.

P.P.P.S: Eu, particularmente, diria que ambos já estavam mortos há muito tempo.

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