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Feira de Terça #5: Joca


Joca é um bom homem. Mas ele detesta aranhas. Todos os dias, quando chega em casa, se depara aos montes delas por toda parte. Já tentou de quase tudo - inseticida, pano molhado, aspirador e até deixar por conta das lagartixas as comerem naturalmente, como providencia nossa fantástica cadeia alimentar. Joca ajeita seus óculos e acende seus cigarros enquanto olha para a militância implacável das aranhas em seu quarto. O filho de Joca está viciado em cocaína. A mulher saiu de casa. E Joca se pergunta: "Como essas danadas se reproduzem tão rápido?". Joca assiste a corrupção escancarada dos políticos de seu país nos principais jornais televisivos enquanto têm de usar as mesmas duas bermudas para trabalhar honestamente há anos. Joca acumula seus isqueiros velhos junto às pilhas de bilhetes de loteria, mas o que mais quer é se livrar das aranhas: "Eu limpei todas elas ontem! Como podem estar aqui de novo?". Joca usa o mesmo colchão infestado de ácaros há mais de vinte anos e toma remédios para disfarçar apenas os sintomas de suas doenças. Sua máquina de lavar quebrou e sua televisão já dá sinais de que não vai durar muito. Seu banheiro tem lodo acumulado no box, mas a pia da cozinha está sempre impecável. Joca não joga latas e garrafas plásticas fora, porque acredita que pode ganhar alguma coisa com reciclagem - embora nunca tenha ganhado um tostão sequer com isso na vida. Joca usa um daqueles celulares antigos, de tecla ainda. Mas sempre se justifica, dizendo aos colegas que "está vendo um smartphone para comprar". Joca não acredita muito nas pessoas, então não cultivou muitos amigos. Também não tem pretendentes.

Mas o que realmente o incomoda são as aranhas.

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