Era fevereiro e a única coisa que eu queria era ir embora! Queria ir embora porque chovia e você não era meu guarda-chuva, queria embora porque você era meu país e eu apenas uma rua. Fui embora enquanto o carnaval corria e você sequer percebeu eu partir. No meio da multidão, deparei-me com nossa banda, Baiana. Eu me emocionei três vezes e depois quis partir. Meu coração já estava alforriado, o sol não queimava mais minha tez. Fui embora porque já era tarde para ficar. O café tinha acabado, e suas piadas não tinham mais a mesma graça. O rélogio tinha parado. Fui embora porque não cabia mais, era muito apertado. E eu gosto de me sentir à vontade. Fui embora porque cansei de me justificar, porque amadureci e percebi que você já não estava lá. Fui embora porque quis, sem o drama das grandes partidas, apanhei a bolsa e o travesseiro e atravessei assim o carnaval. Não quis ficar, não era para ficar. Não me assustou ir embora, era só ir com passos precisos, sem vacilar. Não hesitei, e parti. Sobrou um resto de nós, no final do percurso mas pudera era nossa banda. Partir, pôr-me a caminho, recaminhar, recomeçar, ir adiante, não mais com você. Só, comigo.
Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam [Clarice Lispector]. 1 A chaleira apitou, tirando Daniela de um devaneio. As mãos, vestidas em luvas de cozinha, ergueram um envelope de 114 x 162 mm. O vapor atingiu o fecho. Vinte segundos depois, com toda a cautela possível, uma pequena lâmina foi passada por baixo da aba do envelope, partindo o lacre amolecido. — Voilà ! — disse, retirando a carta. Salvador, Bahia, 5 de maio de 1993. Elsa, Será que jamais percebeu minha indiferença pelos seus sentimentos e aflições? Imagino que tenha contratado um detetive (que deve ter sido caro) para descobrir minha localização e enviar aquela carta patética. Nela você diz que ficou doente e só minha presença poderia te acalmar ou te salvar. Pelo amor de Deus, Elsa, és louca de fato ou está ensaiando para entrar num sanatório? Eu voltar? Acorde! Jamais gostei de você. Fiquei ao seu lado por simples interesse. Suas amigas bem que tentaram te avisar, mas voc...

Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluir"...Eu bato o portão sem fazer alarde,
ResponderExcluirEu levo a carteira de identidade,
Uma saideira, muita saudade,
E a leve impressão de que já vou tarde."
Chico Buarque, Trocando em Miúdos
Bem pertinente o comentário ! Obrigadassa, ainda mais vindo de quem !
ExcluirAcho que o comentário de Witalo foi bem pertinente!
ResponderExcluirDani , ,minha linda , obrigada !
ExcluirAcho que o comentário de Witalo foi BEM pertinente (2).
ResponderExcluirMas para além disso: Luana, acho que esse seu texto entrou na minha lista de favoritos. Seco, metafórico na medida, sem dramas, decidido, preciso. Você fez jus aos sentimento da personagem e isso foi lindo. Amei, amei mesmo.
Até seus comentários mexem comigo, to na espera do proximo texto !
Excluir