No início, era o conforto. Era a ideia suave de proteção que aquecia a minha silhueta de criança. Era a ilusão acontecendo em estado bruto, ainda não desiludida, ainda sem urgências. Era a inocência.
Uma vez dentro da armadilha, então, pouco a pouco eu te via em dezenas de rostos. Todos eles de alguma forma semelhantes nas extremidades dos olhos, nos sorrisos inseguros, nas nucas e mãos viris. Mas todos eles incompletos, mornos, invadiram sem entrar. E nessa dança pela metade onde a minha pose final era sempre de joelhos, vi partirem as suas máscaras cujas feições finais revelavam qualquer expressão, qualquer tristeza, qualquer ironia – jamais você.
Andando por outras estradas, ao cruzar com aqueles menos semelhantes e de beleza traiçoeira, me agarrei como a uma tábua de salvação, fingindo não enxergar que na verdade sambava para o precipício. Quase voluntariamente, com estes, despenquei em queda livre na tentativa da morte libertadora. Preferia me livrar do seu rastro e tentar achar algo novo no óbvio. Quis diluir a sua essência, já em mim impregnada, em qualquer fluido menos denso. Ralo. Insosso.
Nunca funcionou.
Falhei. E custei a aceitar. Mas falhei porque é indigno se separar de si. Pois no mesmo ventre negro em que meus ossos estalaram pela primeira vez, você também foi formado. E estreamos a vida na cadência de brilhos das mesmas constelações. Falhei porque o círculo vicioso do cheiro da sua pele, encontra saída exatamente na minha. Falhei, pois antes de existirmos, a falha já existia.
Eu nunca consegui substituir a sua presença tão exata porque o entrelace dos nossos espíritos foi mais real do que a solidez da própria vida. E no auge de todos os desesperos, foi a você que chamei na segurança típica do espelho. E no ápice de todos os gozos, foi a você que dediquei o ranger de dentes, o abafar de gritos. O último ato. Em segredo.
No final, ora, é o desconforto. É a consciência da impossibilidade lutando contra o querer de mil vidas. É a visão meio esdrúxula de fogos de artifícios espocando em um cubículo de carne e osso. É a frustração incômoda arrebentando nas rochas da solidão careta, mas necessária. No final, e em todos os finais sem pontos, e para todas as feridas abertas, e para todas as almas inquietas, o que sobra são as palavras. O que oxigena é a expressão: a penetração indireta.
No final, o que salva é a escrita. O que alivia é a arte.

"...Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
ResponderExcluirAbranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo..."
Augusto dos Anjos