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Tela Plena #3: Fogo e Água



Seus olhos são depósitos de estrelas cadentes, moço. Como se a ferrugem da vida ainda não tivesse corroído os seus sonhos e nem mareado o brilho infantil que lhe brinca a esperança. E que ternura, e que dor isso me dá. Você é um ingênuo brincando de ser mestre. Se aventurando em corpos estranhos porque são belos, ignorando a acidez e a vivência que eles trazem; entornando garrafas de vinho sem experimentar o acre da uva, ou o amargor: acreditando que o único sabor é o doce. Que o único deleite é o mel. 

Ainda assim, determinada, me despi sob a sua vigilância pueril. Brinquei de ser caramelo sabendo eu que sou amadeirada: canela com mascavo. Vinho seco, tinto. Pus leite sabendo que sou café preto. Me traí. Ah, como eu me traí. Só que há muito tempo, também, deixei de acreditar que ser adúltera comigo alteraria a minha essência. Há muito tempo aprendi a pular as cercas de mim sem deixar de administrar o meu casamento individual. Pois o mundo não é feito dessas verdades clichês, moço. O mundo é mais fundo do que esse planeta Terra refletido na sua íris de veludo líquido e azul. O mundo é velho e obscuro. E sábio. E eu, entre os meus dèjá vus, talvez tenha vivido tantas vidas que já desaprendi a ser banal, a crer no banal. O comum me entendia. 

Por isso é que traí a minha própria traição. E dancei, de verso, quando o politicamente correto seria ficar embaixo de ti. Por isso deixei o lápis de olho escorrer quando o aceitável seria nem me molhar; e retocar a maquiagem falando que iria, classicamente, ao banheiro feminino. Por isso fiz tatuagens no seu peito nu, escrevendo caligrafias bêbadas com impropérios que todo mundo gosta de ouvir. Por isso pequei pelo excesso e me expus, e saí pela porta dizendo a verdade, honrando o meu signo de fogo. Fogo. Que consome, toma, destrói, arde. Mas quando vira pó - é pó.

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