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A Paz dos Domingos #3: A Carta que te Liberta




Tom,

Você não está mais aqui, mas, mesmo assim, vou deixar uma carta no correio para te mandar coisas aleatórias que não fazem sentido! Acabei de chegar em casa depois de um dia longo de trabalho. Na gaveta vazia que você deixou, enfim eu tive espaço para todos os meus laudos. Acabei de tomar banho, e estou com aquela blusa grande que você vivia falando que eu ficava linda, a tiracolo tenho uma taça de vinho. Não, Tom, não é o nosso vinho. Eu enjoei daquele. Enquanto estou aqui, escrevendo uma carta para você, você deve estar sentado em algum bar com uma porção de amigos que talvez te deteste.

Lúcia veio hoje e perguntou por você, dei de ombros, ela me perguntou se eu estava bem, consenti com a cabeça e ela continuou fazendo o que estava, tão concentrada.

Não tem seu cheiro por aqui, meu perfume impregnou e volta e meia eu me sinto em casa, aqui. Não existe saudade, nem melancolia, não tem fossas, muito menos calos sobre minhas mãos.

Os lugares que estou indo são totalmente diferentes daqueles que eu ia com você.

Adquiri um gosto peculiar e raro, não gosto mais dos The Strokes, passo longe. Estou numa onda de B.B. King, você não entenderia.

Consertei o chuveiro que você prometeu durante meses.

Tosei o gato, lavei as paredes e pus um quadro, Kahlos fica muito bem, ao invés daquela prateleira cinza.

Tudo isso para dizer, Tom, que não você não deixou estrago por aqui. Tampouco me sinto sozinha neste apartamento. Na verdade, eu queria agradecer por você ter ido embora; eu também não queria mais. Então, meu querido, não se sinta culpado, ou envergonhado por ter feito do jeito que você fez. Na surdina, enquanto eu dormia. Eu não teria feito diferente! De coração, Tom, espero que você ache alguém que te complete, porque durante anos você não me completou. Nada fazia sentido, por mais que eu acreditasse que fazia.

O fato é que o amor, Tom, não é isso que os sonhadores dizem: lindo, sem problemas e sem brigas.

Tom, eu quero brigar, eu quero espernear e depois disso me acalmar e pedir desculpas. Nem isso rolava mais.

Não se sinta pesaroso, nem que você é o culpado. Não há culpados. Temos a triste mania de desdenhar de um amor que existiu e depois colocarmos a culpa em que não éramos feitos um para o outro, durante uma época éramos. Eu me lembro que só de você sorrir me afagava a alma. Mas as coisas terminam, terminou, findou, cessou.

Resto agora eu, cheia de sonhos novos, com a casa toda bagunçada porque estamos em reforma, mudei de hábitos e de rotina, fiz um closet e pus plantas na varanda.

Lúcia vem às quintas agora.

Cuide-se e tome o chá que eu te falei para sua insônia, essa dica é das boas.

Com carinho,

Ana.

P. S. – Não consegui mudar apenas a rotina da feira aos sábados, não tem jeito.

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