Uma vez, ao soar de horrenda meia-noite, eu meditava, triste e só, em velhas lendas... [EDGAR ALLAN POE]
1
Os pássaros planaram bem próximos ao solo.
Ao longe, o sol estava se pondo.
E o silêncio estabeleceu-se naquele lugar.
Como de costume, quebrando o silêncio com reverência, o pescador Manoel meteu o remo nas águas do “Velho Chico” para impulsionar a canoa ao local que parecia ser o mais adequado — próximo a uma ilhota. Num movimento rústico lançou a rede de pesca. Hoje é um dia especial, meditou ele, aparentando fadiga.
— Eles vão se reunir — murmurou Manoel, fitando o extenso cais e o Mercado Municipal. Sabia disso, pois, quando era mais jovem, seu falecido pai, que também foi um pescador, lhe contou todas as antigas histórias que circundavam as margens do rio São Francisco — histórias divertidas e, claro, também tinha aquelas que davam arrepios na espinha. Contudo, Manoel fazia referência a uma história em especial. Toda sexta-feira, após uma leve brisa noturna, os seres místicos que viviam por ali se reuniam as margens do “Velho Chico” para se divertir e conversarem sobre diversos assuntos. — Ah, se eu pudesse vê-los — desejou Manoel, cruzando os braços.
2
Na ilhota, após a brisa noturna, eles começaram a se materializar, um após o outro — emergindo das águas, aparecendo sobre os galhos das árvores, ou simplesmente surgindo no horizonte dentro de um redemoinho de poeira do chão. E para o entusiasmo dos participantes, aquele encontro iria ocorrer no período de cheia dos rios São Francisco e Grande. No entanto, estava faltando alguém.
— Mas onde ele tá? — indagou o Saci, fumando em seu cachimbo.
A sereia deu de ombros e o Saci riu. A Iara estava parada sobre uma pedra, enfeitando os longos cabelos com aguapés retiradas do rio. Segundo o Saci, moleque zombador, a Iara era uma moça belíssima, só tinha um probleminha: o chamativo e reluzente rabo de peixe.
— Como está meu cabelo hoje, Curupira? — quis saber ela.
Sentado no alto de uma árvore, um garoto de pés virados para trás e trajando vestes feitas de folhas secas e pele de animal, sorriu ao observá-la. — Ora, como no dia anterior, Iara — respondeu.
A Iara fez um bico, desgostosa com as palavras do Curupira. E o Saci deu risada.
— Como sempre, duas crianças bobas — disse a Iara. — Quando vão crescer?
— No dia 31 de fevereiro — brincou o Saci, ajeitando seu capuz vermelho.
O Curupira sorriu. E naquele mesmo instante, emergindo das profundezas do rio, o Nego D’Água rodopiou no ar e sentou ao lado do Curupira na árvore. Era um rapaz de pele negra, nem muito velho nem muito novo, andava sempre nu e seus olhos eram acinzentados.
— Desculpe a demora, tive um contratempo — começou dizendo —, vocês sabiam que aquele Cais ali na frente tem quase três mil metros de extensão? Descobri isso hoje ouvindo um pescador. Mas não acreditei muito, já que era história de pescador.
Todos agora deram risada.
— Eles não são como nós — alertou o Nego D’Água. — É preciso ter cautela!
— Ei, e por falar em pescador — disse o Curupira, analisando o rio —, não perceberam que esta noite temos alguém espiando nossa reuniãozinha particular?
Todos ficaram espantados.
O Nego D’Água foi o primeiro a notar.
— Estou te vendo, Manoel — gritou ele. — Trouxe um pedaço de fumo?
Manoel viu e escutou tudo desde o início, escondido dentro da canoa, e agora foi descoberto e não tinha fumo algum para oferecer em troca de sua vida. Inesperadamente, as criaturas pularam sobre Manoel para lhe derrubar da canoa. No meio da agitação, Manoel conseguiu empurrar o Curupira e o Saci para fora da canoa, a Iara mexeu seu rabo e fez a canoa rodar para desequilibrá-lo, e o Nego D’Água lhe puxou para dentro do rio.
3
A lua já enfeitava o céu. A canoa flutuava em meio ao encontro dos rios São Francisco e Grande, sendo levada vagarosamente pela correnteza. Os sentidos de Manoel retornaram pouco a pouco. Ele suava frio e estava com um pouco de febre. Se não fosse pelos reflexos rápidos que a vida de pescador lhe ensinou a ter, o sobressalto ao acordar do pesadelo o teria derrubado da canoa. Foi só um terrível sonho, conscientizou-se e utilizou o remo para chegar até a rede de pesca e puxá-la. Como na noite anterior, conseguiu meia-dúzia de surubim. Mas, pareceu tudo tão real, voltou a pensar no assunto, colocando a rede de pesca dentro da canoa.
— O que é isso? — indagou-se ao observar elementos estranhos no interior da canoa. Com cautela pegou tudo e pôs diante da iluminação natural da lua. E viu um cachimbo, folhas secas e aguapés. — Oh, céus, de onde vieram essas coisas?
No momento seguinte, um homenzinho negro emergiu do rio, rodopiando no ar, agarrou os itens da mão de Manoel e mergulhou. Pasmo, Manoel sentou na canoa em silêncio e depois de longos segundos fitando o cenário noturno a sua volta, tornou a remar.
Ele sabia que o desconhecido gerava a desconfiança e, por isso, não tendo certeza de sua veracidade, guardaria aquela história para si. Contudo, remando pausadamente, Manoel pôde ouvir risadas vindas de algum ponto das águas do “Velho Chico”.
— Seria possível? — pensou Manoel, retornando para casa.

Hahaha
ResponderExcluirPara sorte das entidades, ninguém acreditaria numa estória de pescador.
Abraço, Wil! kkkk