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Sábado Cinza-Azulado #24: RECYCLE.BIN


"...E eu, somente eu hei de ficar trancado

Na noite a terradora de mim mesmo."

Augusto dos Anjos

I

Quem via Fagundes correndo pelas ruas, a gritar como se fugisse do diabo enquanto seus olhos pareciam saltar das órbitas, certamente estranhava a cena: o infeliz, desesperado, seguia despido daquela dignidade que nos é dada pelos panos que cobrem a nudez, e tudo isso, junto de cada grito que dava, desmanchava todo a imagem de homem exemplar que conquistara naquele lugar humilde. Fagundes havia se estabelecido localmente como um professor sério de inglês, sempre calado, educado, bem-vestido e solitário, mas, naquele início de noite, ensandecido como estava, parecia ser apenas um viciado em drogas que, no ápice da alucinação, esquecera as roupas em casa e corria em ziguezague, fugindo de algo invisível ou, talvez, e felizmente para os demais, do que somente ele podia enxergar.


2002. Maio. Num bairro entre a Calçada e o Largo do Tanque, Fagundes entrava em casa após dois turnos de aulas no colégio. O sol se escondia mais cedo por conta dos dias outonais e um frio mentiroso, mesclado com chuva e umidade, adornava outro final de tarde.


Quem conhecia o professor, fosse aluno, colega ou morador do bairro, sabia apenas o que ele deixava transparecer: um homem de modos mecânicos, educação exemplar, mas que ao mesmo tempo impunha certo distanciamento, o que fazia crer que ali se via alguém de prazeres desconhecidos, ou somente uma pessoa que teve uma formação certamente severa. Em suma, a distância que ele colocava, intencionalmente, entre si e as pessoas, o deixava indecifrável, ou a mercê de uma sorte de palpites.


Acontece que, dentro de casa, onde vivia sozinho, digo, ele, seus CDs, discos e um computador que comprara recentemente – usado, obviamente –, o Fagundes contido, o “eu” que algumas pessoas, respeitadas as suas particularidades, preferem manter em sigilo, tinha liberdade de manifestação. Assim sendo, nem bem havia tirado a roupa toda e lá estava ele, sacudindo a cabeça e os braços ao som de SOAD enquanto prendia um pedaço de pizza da noite anterior entre os dentes.


Apenas com as meias suadas do dia inteiro, sentou-se em frente à recente – e


usada – aquisição: um AMD K6-II 550MHz / 128MB RAM com um monitor CRT de 15" que comprara de um amigo, conjunto que coube em seu orçamento e com o qual começara a ter compromisso diário. De fato, aquele momento era, de longe, o ponto alto do dia; a prazerosa interação entre Fagundes, máquina e rede.


Do pouco espaço que Fagundes tinha para fruições, reservava um pedaço dele – grande, diga-se de passagem – para a pornografia. Começara ainda pequeno, quando encontrou, aos doze anos, uma revista escondida na mesma mala onde seu pai costumava guardar um revólver. Agora, com o advento da internet e a possibilidade de baixar vídeos através de programas P2P, o professor se sentia como um rato numa piscina de cubos de queijo. Queijo de todo tipo.


Não foi preciso ligar o computador; Fagundes apenas mexeu o mouse e o background da área de trabalho esverdeou suas pupilas. O Kazaa rodava desde o dia anterior e mostrava, para sua felicidade, que os oito vídeos já estavam disponíveis. Daí em diante, basta dizer que o professor, que ainda não tinha tirado as meias, teria um bom período de prazer: deitar-se-ia, sem se deitar de verdade, com oito mulheres diferentes enquanto aquela noite, silenciosa e solitária, passava.


Papéis-toalha amassados pelo chão, vídeos todos vistos. Uma saciedade que


duraria o tempo natural que algumas saciedades duram: muito pouco. A morte de um desejo é o nascimento de outro, afinal. Então, após apagar o material recém-consumido de seu ínfimo HD de 10GB, certo de que encontraria mil e uma outras modelos em diferentes e fascinantes performances, deixou o Kazaa trabalhando em outros downloads e tomou o rumo do banheiro.


Acendendo uma vela perfumada que mantinha em cima da descarga, foi para o banho, e enquanto a água quente do chuveiro caía sobre suas costas, lembrava-se de cada figura que acabara de ver pela tela e, novamente, teve disposição para tocar seu corpo, não mais por necessidade ou prazer: era por simples vício. 


Enxugando-se e indo ao quarto, deixou para trás o box molhado, cujo ralo levava, esgoto abaixo, junto à espuma de sabão e a água, os fluidos de uma orgia solitária.


O mundo, a cama e a noite pareciam em ordem, como em todas as outras vezes. Fagundes adormeceu depois de colocar o despertador para as 6h15. 


Às 3h, ele sentiu sede e foi buscar água na cozinha. Nenhuma luz acesa na casa senão os LEDs do computador.


Ao abrir a geladeira, jogou uma rasa porção de luz amarela para trás de si, denunciando sua silhueta em contraluz para quem o visse de costas, do corredor. O silêncio era tanto que o som do motor da Electrolux branca com pontos de ferrugem era a única coisa que dava vida àquela madrugada além dos passos e da respiração de Fagundes.


Saciada a sede, colocou a garrafa de volta na geladeira. Neste momento, ainda de costas para o corredor e através do canto do olho direito - que o canto do olho tem essa cisma de enxergar o que não se deve -, percebeu o movimento de um vulto, o qual pareceu sair do seu quarto e rapidamente atravessar a parede. Assustou-se um pouco, mas descrente que era, coçou os olhos, fechou a porta da geladeira e foi para o seu quarto, que ficava no final do corredor, à direita. Ao fazer o curto percurso, até acendeu a lâmpada, o que não era de costume e, dando muxoxo, apagou-a e em seguida deitou-se em seu leito escuro. A noite, como disse, parecia em ordem, mas não estava. As coisas sutis, ora invisíveis àqueles olhos materialistas, se agregavam numa espécie de assembleia das coisas esquecidas, descartadas, mas nunca dissipadas completamente.


Ao lado da cama, o vulto ora magro e monocromático, surgira e observava Fagundes em seu mecânico sono de homem. Se a sombra tivesse forças para falar naquele momento, certamente teria dito, com uma voz dificilmente agradável:


—Só mais um pouco. Estamos perto…


II


Outros muitos dias se passaram desde aquela noite. Era uma quarta-feira e Fagundes dava aula à turma do 2º ano vespertino. Enquanto riscava no quadro-negro exemplos do Present Continuous, fazia perguntas, de costas, à classe. Ninguém respondia, para variar.


—Ninguém, gente? No one? - perguntou, já acostumado com o desinteresse praticamente geral.


—Fagundes… - uma voz sussurrou.


—Ok. Meu nome é Fagundes, mas aqui eu sou o prof… - ele ia se virando para terminar a resposta quando viu, bem detrás de um aluno, uma figura escura, meio borrada e que, apesar de ter traços humanoides, parecia possuí-los em demasia, como que a junção de várias sombras de pessoas sobrepostas.


O professor nada falou e seguiu a olhar, atônito, para a estranha aparição, a qual, a despeito de não exibir olhos e boca, parecia fitar Fagundes com um olhar perverso enquanto esboçava um riso sarcástico em seus lábios invisíveis. Não havia nada que provasse isso, mas o professor podia sentir, tanto por todos os pelos eriçados do seu corpo quanto com o coração, que parecia encolhido de angústia e ameaça.


Tamanho foi o tempo em que, parado, Fagundes observou a imagem estática, que os estudantes começaram a rir e a estranhar a cena. O aluno que estava sentado logo à frente da entidade, um dos poucos interessados na matéria, achando que o professor olhava para ele, incomodado que ficou, quis sair da situação da melhor maneira:


— Is this love that you’re feeling, teacher? –, parodiando Bob Marley, fez a classe cair ainda mais em risos e o professor voltar à Terra.


—Desculpem-me. Onde eu estava mesmo? Ah, bem aqui… –, remendou-se e voltou ao quadro-negro, disfarçando com um riso o incômodo e o terror que aquilo começava a lhe causar. A figura havia desaparecido assim que Fagundes ouviu a brincadeira do aluno. E a aula continuou normalmente até a hora dos exercícios, quando o professor se sentou para gerenciar seu diário de classe. Seu pensamento travara na situação que, agora, analisando bem, juntando as peças direitinho, somando o evento que acabara de ocorrer na sala com o aquele vulto que vira em casa, há meses e, também, algumas outras aparições anormais para as quais deu pouca atenção, sempre pondo a culpa no cansaço dos olhos, parecia fora de controle e já começava a ser compreendida como uma perturbação real.


—O que está acontecendo comigo, meu Deus? –, pensou consigo enquanto o tubo da Bic se partia entre seus dedos.


Sussurros - e entre alguns deles o nome “Fagundes” - surgiram do lado esquerdo da sala, o lugar já conhecido pelo professor como o cantinho das meninas do fundão. Elas tinham o costume de cochichar e dar risinhos abafados enquanto trocavam recadinhos sobre a qualidade do beijo dos meninos com quem se encontravam, às escondidas, num beco esquecido do colégio. 


Incomodado e cansado de pedir o mesmo silêncio repetidas vezes, Fagundes tirou levemente a visão do diário e olhou para o local dos sussurros, de soslaio - o canto do olho, novamente -, mas antes de pedir que se calassem, ei-la novamente: a sombra. Mas ela agora estava suspensa um metro no canto da parede, com os braços abertos, e não pareciam ser apenas dois membros, os quais sustentavam a bizarra figura acima das garotas, que sequer a notavam.


E de novo aquele olhar de anseio e o mesmo riso que, ainda que Fagundes não os visse efetivamente dentro daquelas silhuetas escuras e imóveis, tinha certeza que estavam ali, e tão somente para ele, em alguma parte do que parecia uma cabeça ou um punhado delas. Um aperto no peito que nunca sentira, um gelo no meio das costas e também um tremor inédito nos joelhos lhe possuíram naquele instante. Instante que antecedeu o tocar da sirene, avisando o final da última aula. Era um alívio poder sair dali.


Fazendo o mesmo percurso de sempre, Fagundes caminhava, meio desajeitado, para a sua casa. Havia uma barraca no caminho da Central que vendia e trocava revistas.


O professor sempre saudava seu Lito, o rapaz que parecia viver ali dentro. Só que neste dia, com a cabeça que estava, o professor seguiu apressado, se esquecendo do costumeiro “Boa tarde, seu Lito!”.


—Boa tarde, professor! Ficou rico? –, simpaticamente, Lito saudou Fagundes.


O professor, cujo pensamento ia longe, aterrissou novamente e falou com o homem, mas percebeu, enquanto o horror lhe cortava a fala, enquanto o frio nas costas voltava e os joelhos tornavam a tremer, que aquela imagem obscura continuava a lhe cercar, e Fagundes teve a certeza de que ela parecia querer algo além de apenas atenção. O espectro, desta vez, estava ao lado de Lito, próximo ao montante de revistas +18 que o vendedor não podia pendurar, obviamente, como fazia com os gibis.


E assim foi, da Liberdade até sua casa, andando a passos urgentes, que Fagundes percorreu o trajeto, ora olhando para frente e evitando tropeçar na ladeira, ora olhando para todos os lados, pois que a figura infame, vez ou outra, surgia em pontos diferentes: numa roda de adolescentes na praça, à porta de uma casa noturna ainda fechada, em bancas de revistas pelo caminho, bares e ao lado de transeuntes, sem que ninguém a percebesse.


Por fim, chegando em casa, trancou porta, respirou aliviado e deu um “Graças a Deus” mais por força da expressão. No intento de se livrar da perturbação como se fosse uma sujeira sobre o corpo, correu para o chuveiro e tomou um banho quente e demorado, e enquanto o vapor da água enchia o box, seu pensamento também evaporava e abarrotava o banheiro de medos e dúvidas.


Para seu infortúnio, sobrevieram-lhe uma série de azares: a água do chuveiro ficou fria; foi-se a resistência. Complementando a cena, as luzes da casa começaram a piscar e a oscilar em seu brilho. De repente, um cheiro demasiadamente forte de fluídos sexuais e de suor tomaram conta do ambiente ao passo em que as luzes começaram a enfraquecer até que, por fim, se apagaram por completo. Fagundes só não ficou na total escuridão por conta da vela perfumada em cima da descarga.


Ainda que a vela tivesse um perfume agradável de lavanda, não conseguiu anular o odor que havia se instalado no banheiro. Sua luz, entretanto, iluminava ainda um pouco o recinto e fazia com que Fagundes enxergasse o mínimo possível para encontrar a toalha, não escorregar e conseguir sair para o corredor. Mas o homem, antes que movesse um pé para fora do box, sentiu ainda mais forte aquele odor e descobriu que ele saía do ralo, junto a uma pequena névoa que dele subia e tomava todo o espaço, desde o chão até a altura das suas canelas.


Fagundes saiu do box, pegou a vela e a emergiu na névoa, numa tentativa infeliz de entender o mistério. Não conseguiu ver nada além do ralo, mas percebeu que a pequena chama de cera e lavanda relutava para permanecer acesa ali, enfiada naquela névoa fétida e densa. Então, a dois segundos de a vela se apagar, Fagundes pôde notar que, do ralo, um emaranhado de vozes parecia sorrir juntas, e que algumas soavam como se sentissem prazer sexual. E então a chama se apagou, e seu medo aumentou. Pensou em sair o mais rápido dali, mas não foi ligeiro o bastante para não sentir três braços e cinco mãos lhe segurarem as pernas. Puxavam-nas para baixo, como se quisessem passar Fagundes pelo ralo ou prendê-lo ao chão.


O professor deu um grito de nojo e desespero. Pela ação involuntária da adrenalina, conseguiu pular para fora do banheiro como se não houvesse amanhã. Assim, rumou para o quarto em busca de alguma roupa para depois sumir dali e talvez procurar alguém que lhe pudesse explicar algo tão medonho, visto que não sabia nem a que santo pedir ajuda, se não cria em nada.


Ao passar pelo corredor que dava para o quarto, ouviu chamarem seu nome novamente:


—Fagundesssssh… hoje sim!


Aquela voz, mais uma vez, parecia vir de um coral de vozes agregadas, graves, suaves, agudas, com gemido, sem gemido, com ódio, com desejo; e era estranho de se ouvir como que algumas sentenças eram construídas em diversas línguas simultaneamente. Havia também como que um choro de desprezo, de uso, de descarte... um reclame que oscilava entre tristeza e desejo de vingança.


O professor, na desesperação, tropeçou e caiu de bunda no chão e soltou um grito, mais de medo que de dor; não queria ser agarrado por que quer que aquilo fosse. 


Olhando para todos os lados, nada havia além de escuridão e a sensação daquela presença, a qual trazia consigo todos os odores que ele sentira no banheiro. Como o silêncio pode gritar tão alto e feroz às vezes.


—O que está acontecendo aqui? Quem é você? –, em prantos, Fagundes perguntou em voz alta, enquanto arrastava-se, ainda no chão, em direção ao quarto.


Apenas o silêncio. 


As luzes começaram a se acender novamente.


No quarto, Fagundes se levantou e foi à cômoda buscar o que vestir, mas foi nesse instante que o computador, com sua rotina de downloads, ligou sozinho o monitor, numa tela azul, e as luzes tornaram a oscilar. E de repente, tanto do PC quanto da cama, do cesto de lixo cheio de papéis-toalha, do banheiro, das paredes e de todos os móveis de madeira ao redor, uma espécie de plasma começou a fluir e a se juntar, diante dos olhos de Fagundes, formando novamente a imagem do espectro que o perseguia. Porém, naquele instante, parecia que a figura possuía energia o suficiente para mostrar-se em sua forma perfeita: era um emaranhado enorme de corpos de mulheres norte-americanas, suecas, brasileiras, negras, ruivas, japonesas, todas juntas a porções de corpos masculinos, organizados de maneira tão hedionda que o conjunto lembrava aquelas bonecas e bonecos de plástico que são queimados juntos por alguma criança sádica, de forma que se mescla tudo que era bem separado, mas sem uniformidade alguma: a entidade tinha braços negros e brancos que saíam de outros braços pardos e caboclos, e de alguns braços e virilha tantas vulvas se viam e se misturavam a rostos de cabeças que eclodiram de abdomens. Pênis estavam pendurados ou penetrados em pernas que não casavam, e muitas bocas e olhos que não tinham limites de distribuição se espalhavam por aquele corpo oriundo de vários corpos. Fruto de vários despejos pós-uso de Fagundes.



Após crescer e tomar sua forma final em frente ao infeliz Fagundes, a entidade falou, num grito de centena de vozes masculinas e femininas:


—Você nos usou e depois nos descartou. How dare you? (Como ousa?) Nos apagou depois de saciar seus prazeres. Mas nós resistimos no esquecimento, konoiarô (maldito). Há mais horror no esquecimento do que você pode imaginar. Agora queremos você! Me haluamme sinut nyt! (Queremos você agora!) É a nossa vez de nos deleitarmos com toda a sua energia. Nós te engoliremos, Fagundeeeessh! 


—Tá amarrado! Meu Deus! - o descrente Fagundes parecia um obreiro fervoroso naquele momento. Deixou a entidade falando e saiu correndo como pôde – era o que podia fazer – pelas ruas, nu como havia vindo ao mundo.


Quem via Fagundes correndo pelas ruas, a gritar como se fugisse do diabo enquanto seus olhos pareciam saltar das órbitas, certamente estranhava a cena, como já havia dito antes. Ninguém mais podia ver o que ele via, e o que ele via permanecia atrás dele, concluindo frases que ele não quis ouvir em sua casa, isso quando as entendia, pois vinham em tantas línguas que, às vezes ,uma ameaça começava em português, seguia em tailandês e terminava em russo:


— Venha, professor! Faça amor conosco novamente, como você fazia antes de nos mandar para o lixo... Fagundesssh! – mais uma vez, centenas de vozes numa só, gritando e estremecendo o âmago do pobre professor, o qual corria, sem destino, tentando se distanciar da figura.


Acontece que, aonde quer que ele fosse, a entidade sempre buscava um lugar, um pico de energia sexual existente para que se fortalecesse e continuasse a persegui-lo, pois foi o que ela sempre fez, desde a escola, com os adolescentes, e depois com a banca de revista, com os bares. Ou seja, não cessaria até abocanhá-lo. 


Fagundes correu o quanto pôde e foi dar na praia da Boa Viagem, por volta das 20h. No trajeto, o homem percebeu que aquela entidade da “Lixeira” sempre parava próxima a algumas pessoas e locais para, em seguida, continuar a andar em sua direção. Ele conseguiu entender, finalmente, a mecânica da besta horrenda e teve uma ideia: nadar até um barco ancorado um pouco distante da praia. Assim, bateu seus braços loucamente, ainda nu, até encontrar um barquinho a motor, e lá permaneceu, morrendo de frio.


Seguro ali dentro, olhou para a areia enquanto procurava algo com que se aquecer e, sim, ela estava lá, ao lado de algumas pessoas que dançavam sensualmente ao som estridente de uma mala aberta de carro. Esperava por ele, ali, e agora tanto o olhar sedento quanto o riso em seus vários lábios eram bem visíveis. Fagundes não ficaria ali para sempre, e ela sabia disso.


No dia seguinte, um dono de barco se desesperava por ter dado falta da propriedade. Um senhor que morava acampado na praia, e que havia visto tudo, informou ao infeliz que a pessoa que o levou havia seguido na direção leste.


De fato, Fagundes seguiu pela Baía de Todos os Santos até encontrar uma ilha ou qualquer lugar onde não houvesse interação humana nenhuma. Foi sua ideia de urgência. E assim nunca mais foi visto. Não se sabe se a “Lixeira” o encontrou ou se ele ainda permanece bem escondido. Mas fato é que seu ato teve muito de ingenuidade, uma vez que o cerne do problema não estava espalhado pela casa ou pelo mundo, mas, certamente, construído e bem alicerçado, ao longo do tempo, dentro de sua própria cabeça densamente farta do que ele achava estar encarnado e fora dele.

Fonte da imagem: Pesquisa Google Imagens

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