Era
quase meio-dia quando Helena saiu pelo portão do colégio.
Esbarrando-se nos demais – esses também desesperados para sair –,
desceu as escadas que davam para o espaço calçado de pedras da
praça, que era a mais bonita da cidade.
Morria de fome a menina, então apelou para a banquinha de hot-dog e lá pôs um fim temporário ao reclame do estômago. Recebendo o troco e limpando os restos de queijo ralado do rosto, seguiu o caminho de casa.
A cidade era como um capricho de algum tipo de deus que, num dia sem pressa, quis condensar as belezas todas e os sossegos todos do mundo num retiro para si próprio. Assim, desde a praça do colégio até o portão da casa de Helena, podia-se contemplar as sutis maravilhas de uma cidadezinha repleta de verde e de um silêncio que raramente notamos nos quintais, quando temos quintais, por volta das três e meia da tarde; podia-se contemplar as praças e ruas cheias de árvores e de sombras de árvores, cheiro de manga rosa pelo chão e de cajá também. Nas ruas havia tamarindeiros e muros de casas cobertos de plantas, flores e caixas de correio antigas e coloridas, assim também como janelas antigas de madeira e vidro. Na parte alta da cidade, chácaras, ruínas de antigos engenhos de açúcar e um cemitério: o verde e os portões das chácaras remetiam os observadores a uma viagem ou pausa no tempo (que hoje anda nas carreiras); as ruínas eram magníficas pelos desenhos que deixavam à mostra, como a simetria dos tijolos de barro antigos, a imponência fora de moda da chaminé e as peças de ferro de velhas máquinas em simbiose com a terra e os matos; o cemitério, se é que há algo de belo onde se enterram carnes mortas, era bonito como podia ser bonito um cemitério: tinha um muro branco e baixo, cujo reboco quase não existia mais, um portão de ferro grosso que datava 1898, todo feito de ferro e tinha, em sua simetria perdida, as hastes tortas, as quais sustentavam as figuras metálias e oxidadas de duas caveiras cruzadas com ossos, cada uma de um lado do portão e, acima, em letras góticas alemãs, o nome Cemitério Municipal.
Helena
caminhava indiferente à paisagem e ia ouvindo música com seu fone
de ouvido. Sacudia às vezes a cabeça quando tocava no player as
partes mais fortes das canções da Legião Urbana. Suas mãos
seguravam as alças da mochila que ia em suas costas e seus pés iam
chutando as frutas caídas pelo chão. Por mais que tivesse uma sede
imensa pelo novo, julgava em sua cabeça pueril não haver mais nada
que ser visto nas redondezas, se lá nascera e vivia até o presente
dia.
Às
cinco e meia da tarde, depois de muito estudar e aprender que
Trabalho é igual a Força vezes Deslocamento, decidiu tomar um chá
e olhar pela janela. Lá longe, mas não muito longe, viu as chácaras
e casinhas, o céu acima do horizonte já querendo se empretecer com
a noite e sentiu o cheiro de café fresco inundar seu quarto. Seu
pensamento ia mais longe que as jandaias no céu, imaginando o dia em
que veria o amor de sua vida lhe sorrir pela primeira vez, e pensar
nisso lhe fazia sorrir com o canto da boca enquanto mantinha a caneca
de chá entre os lábios.
A
noite chegou.
Helena
jogava Mario Kart quando sua melhor amiga lhe gritou da rua. A moça
pôs o rosto na janela e viu que Joana estava com mais algumas
pessoas, meninos e meninas, e todos pareciam bem animados. “A gente
está indo para o ‘Reverte’. Vamos?”, disse Joana. Helena, sem
fazer ideia de que lugar era esse, perguntou: “Onde fica isso?”.
“Ora, fica perto do parque, num terreno abandonado. Foi descoberto
recentemente e é bem descolado. E então?”, Joana falou. Helena,
sem muito ânimo para sair e nem muita coragem para beber mais ócio
dentro de casa, foi com eles.
Quando
chegaram lá, Helena viu que o local não era nada além de um espaço
deveras grande e cheio de muito mato e árvores. As pessoas se
sentavam em pedras ou ruínas de antigas construções, tocavam
violão, bebiam e cantavam os hits dessa e das décadas passadas. A
moça gostou do lugar, dada a rusticidade e a paz que ele trazia.
“Toma
aqui. É licor de jenipapo”,
ofereceu Joana. Helena aceitou e ficou bebericando muito devagar,
pausando quando lembrava da idade e tornando a beber quando condenava
o próprio juízo.
Enquanto isso,
olhava ao redor, surpresa por nunca ter ouvido falar dali.
Um menino, que era do mesmo colégio seu
e o cara mais popular do terceiro ano, chegou perto dela e procurou
assunto: “E aí… Helena, certo!? Nunca tinha te
visto
fora do colégio. Você é até bem bonita sem uniforme.” Helena,
que não gostava nem um pouco daquele
tipo, apenas sorriu simpaticamente e fez de conta que procurava algo
nas copas das árvores. Porém, procurando sem procurar, avistou um
arco de ferro muito velho e destruído, no qual algumas letras se
sustentavam precariamente, formando a palavra Reverte
do
seu canto esquerdo até o meio, estando o resto do arco preenchido
apenas por plantas trepadeiras..
“Louco,
não?! O que nossos “tataravelhos” da cidade pensavam quando
inventaram de fazer um arco assim? Será que aqui era um ponto de
encontro onde as pessoas apareciam com máscaras e dançavam valsa?
Hahaha”, disse o rapaz, querendo fazê-la rir e abrir-lhe espaço.
Helena simplesmente deu de ombros e continuou calada, calada até ele
desistir e voltar para os seus amigos.
Quando
a noite já ia alta e todos começavam a se despedir, Helena
acompanhou seus amigos no caminho de volta para casa. Antes de deixar
o terreno, olhou mais uma vez em volta e se sentiu feliz por ainda
estar surpresa com alguma coisa na vida e ali, tão perto.
No
dia seguinte, lá pelas cinco da tarde, Joana novamente apareceu em
sua porta:
-
E aí!
-
Bora ali comigo, lá no sebo?
-
No sebo? Mas você nem lê, velho.
-
É um presente para um
amigo
secreto, e
eu tirei ele...
-
Já entendi tudo, malandra. Estou saindo.
A
caminho do sebo, que ficava entre as casas velhas e terrenos baldios
da cidade alta, as duas subiam uma ladeira calçada de pedras
enquanto o cheiro de pão fresco das padarias abraçava o ar e
competia com o barulho das crianças saindo das escolas. Depois de
dobrarem uma esquina, chegaram no lugar.
-
Você tirou Marcelo, né?!
-
Tirei sim! Ele adora livros e eu o adoro. Acho que tudo combina.
-
Sei, sei. Mas que livro você pretende dar?
Com
Crepúsculo, O Hobbit e O Mundo de Sofia nas mãos, Joana pediu a
opinião de Helena, que respondeu:
-
Dos três, só conheço O Hobbit, mas prefiro este outro aqui, ó! -
, disse e mostrou a Joana uma edição capa dura de Lira dos Vinte
Anos, de Álvares de Azevedo.
-
Ele não gosta de poesia não, Nena! Vou levar o dos vampiros.
-
O mundo continua sem me surpreender -, suspirou Helena e colocou o
livro de volta na pilha. Continuou:
-
Vou esperar lá fora, que tem alguns livros empoeirados aqui atacando
a minha rinite.
Antes
que se sentasse no meio-fio da rua, o velho do sebo lhe acompanhou
até a porta e lhe interpelou:
-
Menina. Vi o livro que você pegou. Talvez goste deste aqui. Ele é
bem velho, mas tem os melhores poemas românticos brasileiros que
você vai ler na vida.
Helena
recebeu o livro do velho, olhou capa e contracapa; estava bem
amarelado, mas inteiro e bem legível.
-
Quanto o senhor quer por ele?
-
Ora, ora. Não é todo dia que vejo uma jovem interessada em poesia.
Ele está aqui há 50 anos esperando por alguém. A espera acabou e
ele é seu. Pode ficar. Guarde-o com carinho.
Ainda sem saber como agradecer a bondade, sequer teve tempo de esboçar
alguma gratidão, pois que um vento inesperado passou pela rua,
abrindo o livro e tocando cada página dele, fazendo com que uma de suas folhas saísse pelos ares. A menina,
envergonhada com a situação, deu as costas ao homem e saiu em busca
do papel voador, que já ia quase dobrando a esquina montado no
vento.
Imagem: Adam O'Brien
Imagem: Adam O'Brien

Seus contos sempre passam pela minha cabeça como se fossem filmes. Talvez por isso preciso ler repetitivamente (é a língua portuguesa também, que não é o meu forte), alimentam demais a imaginação!
ResponderExcluirAguardo a segunda parte com muito interesse.
I da Imaginação fértil :)
E agora? Este papel voador conduz o destino de Helena? Aguardo ansiosa o desfecho da estória!
ResponderExcluirAguardando a parte II..... !
ResponderExcluirLembrei da minha adolescência :)
Preciso urgentemente saber o que dizia no papel, se era uma folha solta do livro, ou uma carta, um bilhete de amor, quiçá uma dedicatória para a pessoa que o recebeu há 50 anos atrás, antes do livro chegar ali, quiçá do(a) antigo(a) dono(a), ou do próprio velho do sebo... Escreva-nos depressa dizendo que estes poemas adoçaram a alma da Helena. Parabéns pelo lindo e excitante conto Wil! Amei!
ResponderExcluirContinuando parte II...
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