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Prosa de Quinta #12: Sorry




— Desculpa!

Talvez todas as conversações deveriam começar assim, com um pedido de desculpa. Antes mesmo de um "Oi" ou "Bom-dia", diríamos "Desculpa". Pelo quê? Por quê? Bem, é complicado explicar. Para clarear um pouco esta questão, podemos visitar três nichos:

Primeiro, porque algo pode ter sido dito ou não dito, feito ou não feito. É sempre esse não-lugar, onde é difícil discriminar tudo o que queremos dizer ou não dizer para outro ser humano. Há silêncios piores que gritos. Há uma maldita obrigação social de que o outro sempre tem algo a dizer. Nem todo mundo quer falar. Nem todo mundo quer ouvir. Além do mais, nas relações humanas, tudo que é sólido se desfaz no ar. 

Segundo, porque cada pessoa é um mundo. Um oceano de razões e emoções, nunca antes navegados. Quando pensamos que nos conhecemos, que só temos isso a contar e a mostrar ao mundo, é possível mergulhar um pouco mais fundo. Dizem que é mudança. Não, é só simplesmente mais um mergulho profundo nas águas herméticas que formam o ser humano. Talvez, indo bem fundo, um dia descobriremos que o monstro do Lago Ness somos nós. É tudo muito incerto. Líquido. A certeza não rege nossas relações, pois é impossível prever as consequências do choque de um ou mais oceanos em um mesmo espaço.

Terceiro, e essa é bem pessoal, porque, por mais apto que eu fique na língua português, há sensações que não podem ser descritas. Talvez nem devam. Faltam palavras para muita coisa. Por isso, os vazios ou os palavrões; as idiotices. Por exemplo, Maria da Paz, personagem do Homem Duplicado, de José saramago, nos lembra que "todos os dicionários juntos não contêm nem metade dos termos de que precisaríamos para nos entendermos uns aos outros." Até porque, como lembra o escritor português, "dentro de nós há uma coisa que não tem nome, isso é o que somos."

Por tudo isso e mais um pouco, pois a vida caminha pra frente arrastando os ferros do passado, é preciso pedir Desculpa. Desculpe pelo erro, pelo acerto. 

— Desculpa por fazer você falar. 
— Desculpa por fazer você me ouvir. 
— Desculpa, posso abraçar você? 
— Desculpa, você não está bem. 
— Desculpa, não consigo entendê-lo. 
— Desculpa, eu entendi. 
— Desculpa, sempre esqueço que você também carrega ferros. 
— Desculpa, não consigo amar você. 
— Desculpa, eu também não. 
— Desculpa, pois amo você. 
— Desculpe a mim, porque acho que também te amo...

Curiosamente, e aqui encerro este ensaio, morrer é o pedido de desculpas mais lindo que a Vida pode nos dar: "Desculpa por fazer de você esse ser tão frágil e indefeso, que precisou de outros para sobreviver um dia a mais, mas agora acabou, está livre. Não sofrerá mais."

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