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Arremesso de Sexta #13: Outras Possibilidades

I

Num movimento rápido do pulso, Alvarado checou o relógio. Onze horas da manhã. Que merda, pensou, estou atrasado, mais uma vez, toda vez é isso. Praguejando mentalmente e olhando para o engarrafamento à sua frente, crispou os punhos, afrouxou-os, cerrou-os novamente, tentando descarregar o ímpeto que tinha dentro de si de sair do carro e correr os trezentos ou quatrocentos metros que faltavam até seu destino. Não seria possível: de terno e gravata, debaixo de um calor que já ultrapassava os trinta graus, chegaria à reunião ensopado em suor, isso se não desmaiasse no meio do caminho. Tinha de se conter, tinha, não queria, mas tinha. Era sempre assim.

Pouco antes de encostar à porta do edifício empresarial que era seu destino, Alvarado mirou o taxímetro, arredondou mentalmente o valor para cima, e, num gesto rápido e enérgico, sacou uma nota de cem cruzeiros, entregando ao motorista com um agradecimento seco e descendo rapidamente do carro que mal encostara na baia. Entrou aos borbotões no edifício, conferindo novamente o relógio. Instantes depois, estava na sala de reuniões da empresa que ocupava os dois últimos andares do prédio.

- Está atrasado – disse rispidamente um dos três homens que o esperavam: Gomes, um pulha, um velho chato metido a controlador.

- Seria gentil dar bom dia antes de me repreender – devolveu secamente Alvarado. - Vamos resolver logo isso. - e sentou-se, cumprimentando os outros dois homens com um gesto de cabeça.

- Bom, Alvarado, você sabe que não gosto de você, mas o fato é que você tem sido muito importante para a empresa. Os boatos que você ouviu são verdadeiros: temos um cargo pra você no exterior.

- Muito bem! - disse Alvarado, checando novamente o relógio e suspirando. - Do que se trata?

- Diretor de Relacionamento na África do Sul – disse Gomes, contorcendo os lábios. - gerenciar o atendimento aos nossos clientes de lá, prospecção, você sabe como funciona. É quase o mesmo que você faz hoje, só que num nível mais alto e em outro país. Oferecemos cinquenta e oito mil cruzeiros por mês, três meses de hotel enquanto você se adapta, e, claro, os benefícios de sempre, incluindo a mesma comissão por cliente prospectado.

- É uma proposta boa – disse Alvarado, pela primeira vez no dia se permitindo deixar o olhar sair de foco, estacar num ponto qualquer e perder-se. - Quanto tempo tenho para decidir? Você não vai com minha cara, devo ter no máximo dez minutos – disse, rindo.

- Três dias. Agora, Alvarado, estou falando sério com você: é sua última chance. - o olhar de Gomes era duro como pedra. - você já recusou uma promoção antes e o Conselho já está cansado de seus caprichos. Se você não aceitar dessa vez, ou se não tomar uma decisão no prazo, o que dá no mesmo, posso te garantir que você não vai fazer carreira mais para lugar nenhum nesta empresa.

- Tudo bem – disse o outro, dando uma pancadinha na mesa a título de arremate e levantando-se. - Vocês terão minha resposta. Vou indo, com licença.

II

- Que porra há de errado com você? - Delmiro estava francamente irritado. - Porra, Alvarado, é sua chance, cara! Hoje você ganha o quê, vinte, vinte e cinco mil, porra, é mais que o dobro…

- Vinte e seis – pontuou Alvarado, de boca cheia após uma mordida no sanduíche que lhe serviria de almoço.

- Porra, vinte e seis! Velho – prosseguiu Delmiro, falando mais baixo e aproximando-se do amigo. - velho, você tem trinta e oito anos, cara. O tempo está passando. Você já desistiu de tomar posse em cargo público, já vendeu uma empresa justamente quando ela estava começando a crescer,… - Delmiro enumerava sua lista nos dedos. - … acabou com o noivado porque a mulher foi morar na Europa, sendo que você tinha mercado de trabalho lá e poderia ter ido com ela, recusou uma oferta de trabalho na concorrência e uma promoção na empresa atual… quantas vezes mais você vai jogar as oportunidades pela janela, Alvarado?

Durante a argumentação de Delmiro, Alvarado comia avidamente, meneando a cabeça negativamente de forma discreta, porém convicta, ostentando um descarado sorriso de canto de boca.

- Delmiro, não me julgue, você sabe que não é assim, meu amigo. Aliás: você sabe por que eu tomei cada uma dessas decisões, eu te expliquei tudo direitinho mais de uma vez, até. Então…

- Mas, Alvarado, o tempo passa… Você hoje poderia ser dono de sua empresa, fazendo o que gosta, poderia estar casado, morando e trabalhando no exterior ou até mesmo retornado em melhores condições… Cara, não é sempre que essas coisas vão aparecer pra você. - Diante do rosto franzido e sarcástico de Alvarado, Delmiro segurou seu braço antes que dissesse qualquer coisa, e arrematou: - estou falando sério, meu amigo. Muito sério. Pense bem no que você quer fazer da vida. Pense muito bem, você vai decidir o caminho da sua vida, das próximas décadas, em três dias. Pense com cuidado.

III

Cansado, mais da mente do que do corpo, Alvarado entrou em seu pequeno e solitário apartamento, atirando as chaves sobre a mesa e suspirando pesadamente enquanto tirava o paletó. Checou o relógio antes de tirá-lo e deixá-lo também sobre a mesa: sete e meia da noite. Raras vezes chegava tão cedo em casa, workaholic que era, mas sentiu necessidade de encerrar o serviço mais cedo pois a dúvida sobre a promoção o consumia e atrapalhava seu trabalho.

Sim, pensou Alvarado ao tirar a roupa e entrar debaixo do chuveiro quente, sei que é minha última chance nessa empresa. Mas por que permanecer nela? Da mesma forma que, quase três anos antes, havia recebido uma proposta de uma empresa concorrente – que recusara por não ser tão melhor que seu posto à época e simultaneamente não querer deixar um bom ambiente que tinha no trabalho – , poderiam aparecer outras, já até ouvira falar que havia uma corporação rival de olho nele. Mas também, pensou, por que não aceitar? É uma mudança radical de vida, de costumes, sim, pode ser que eu não me adapte, pode ser que minha carreira pare aí, mas o que custa? Poderia dar certo, e de qualquer forma, o dobro do salário!…

Embora acreditasse que havia feito as escolhas certas ao longo da vida, Alvarado sentia que algo lhe faltava: sentia-se vazio, logrado, como se alguém tivesse tirado dele algo que merecia, e que agora, sem ter mais, procurava incansavelmente, sem saber onde encontrar. Ao sair do banheiro, após enxugar-se com energia, deu outro suspiro, imaginando, pela enésima vez, o que será que buscava na vida, sem saber o que era e se estava perto de encontrar. Um professor de português certa vez disse a ele: “quem não sabe o que procura, não sabe quando acha”. Era verdade.

Alvarado comeu qualquer coisa, colocou o prato na pia, escovou rapidamente os dentes e jogou-se na cama, permitindo-se adormecer do jeito exato que caíra, sem sequer puxar os lençóis para cima de si.

IV

No dia seguinte, Alvarado não conseguiu trabalhar direito e também voltou para casa mais cedo; desta vez sem sono, pôs-se a procurar tarefas em casa para distrair a mente, mas não conseguia se livrar da decisão que tinha a tomar, Acabou indo dormir só de madrugada, o que resultou em, no outro dia, um dia ainda menos produtivo, visto que a preocupação estava somada ao cansaço. Novamente saiu mais cedo do trabalho, e, pouco depois de chegar em casa, tomou um relaxante muscular, adormecendo minutos depois em frente a televisão.

Acordou lentamente, piscando os olhos repetidas vezes, desorientado. Levantou-se com dificuldade, e, claudicante, arrastou-se até a mesa, tateando em busca do relógio, encontrando-o e levando-o para perto dos olhos, a fim de conseguir saber o horário em meio ao escuro. Antes que conseguisse ver as horas, porém, notou que havia alguma luz na casa. Foi até seu quarto, único cômodo da casa a ter uma janela para o nascente, e viu que a luz vinha de fora: estava amanhecendo.

De supetão, abriu as janelas, vislumbrando uma tímida luz dourada banhando, sedutora, os prédios da cidade. O firmamento ainda era escuro, e havia uma ou outra luz acesa nos apartamentos, mas lá estava ele, o astro-rei, dando o tom de seu trabalho e anunciando sua chegada. Respirando o ar fresco do alvorecer, Alvarado fechou os olhos por um instante, reabrindo-os em seguida. Dali, não podia ver o horizonte, não um horizonte liso, padrão, como se contavam nas histórias. Mas percebia a luz do Sol e o via chegando lentamente. Sim, pensou Alvarado, é um novo dia, e hoje, como amanhã, há um sol que nasce, inexorável, independente de tudo mais. Será que, sabendo disso, faria assim tanta diferença a sua resposta a Gomes?

Talvez não, pensou Alvarado, sorrindo para o vazio. O que importa é ter convicção e aproveitar ao máximo a escolha que se faz, seja qual for. Consciente da verdade, após aquela epifania, Alvarado foi ao banheiro, animado para tomar um banho frio. O último dia antes da grande decisão estava apenas começando.

Comentários

  1. É a segunda vez que eu vejo você falar do sol sobre e através dos prédios no horizonte.
    Verdade, cara... Alvarado, ainda que workaholic, teve a pacífica percepção de que nem tudo é dinheiro; e que há dinheiros que custam demais para se ganhar.

    Obrigado pela leitura.

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  2. A gente não compra tudo com dinheiro. Tão pouco a felicidade dos gestos mais simples da vida. Valeu a leitura Lucca!!!

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