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Sábado Cinza-Azulado #14: O Fantasma do Tempo



I

Luma cumpria sua rotina com uma variação temporal imperceptível: despertava às 6h30, banhava-se, arrumava-se e tomava café antes de dar 7h30 para então sair, mas sem antes deixar tudo no lugar, limpo e organizado como se fosse uma tropa norte-coreana em dia de revista.

Trabalhava como caixa de um banco. Vivia sozinha e era dessas almas isoladas, cuja diversão se dava em não cometer erros e driblar os ponteiros, que sempre tentavam sabotá-la, fosse atrasando um ônibus ou usando um velhinho cheio de boletos e um cartão de saque cuja senha havia gravado num pedaço de papel que se perdeu dentro de uma agenda de 2001. No final do dia, avaliando o quase empate com o relógio, sentia uma satisfação quase que sexual.

Voltava para casa na condução. Escolhia sempre o lado esquerdo, que lhe permitia ver o sol das 4, aí tirava um livro da bolsa e seguia pelos quase 15 minutos de viagem até a na Baixa do Fiscal. Indiferente aos assuntos dos demais, não notava que homens lhe reparavam, mulheres tricotavam sobre amores e alguns passageiros comentavam sobre o dia de ontem, que choveu anormalmente.

O ônibus parou em frente ao Landulfo Alves e então um homem, suado, sério, surgiu pela porta dianteira. Trajava um paletó azul surrado, uma gravata marrom e sapatos bem lustrados, apesar de velhos. Nos olhos, uma profundidade de quem sabia todos os mistérios do mundo.

- Irmãos, boa tarde! Vim trazer uma palavra que o Senhor me revelou nesta noite. Quando acordei, suando frio, fui procurar confirmação aqui, nesta Palavra, e ela dizia: O que é já foi, e o que há de ser também já foi; e Deus pede conta do que passou” -, falava alto, como se aquela mensagem precisasse ser dita naquele ônibus.

A moça, que lia uma antologia de Bilac, resolveu fechar o livro e olhar para o homem. Sentiu certo incômodo ao perceber que ele, ainda que falasse para todos, tinha seus olhos vidrados nela. Luma disfarçava, olhava pela janela para a estação de trem e depois voltava os olhos para o interior do veículo e lá estava o homem, ainda, olhando-a como se nela visse a danação do mundo.

- Amém, amigos. Era esta a palavra que eu queria trazer-lhes – finalizou com a voz mais branda e, já nos degraus da porta, saltou nas imediações do Beco do Sabão. Luma sentiu-se atraída, não pelo homem mal vestido, tampouco pelo evento, já que todo dia entrava alguém cheio de verdades no ônibus, mas pela forma como ele penetrou-lhe a alma com palavras nunca ouvidas e como aquele olhar lhe desconcertou, logo ela, a menina de alma velha, cujas experiências ainda não vividas já as havia vivido todas através dos livros, e isto lhe bastava.

II

Olhou as horas. Irritou-se; devia ter chegado em sua parada há 2 minutos. A próxima parada era no Largo do Tanque. Não dava 1km de andada, mas Luma ralhava consigo, achando que o tempo, de algum lugar invisível, ria da sua cara.

- Cabrunco! -, xingou ao posicionar-se perto da porta.

Como é engraçado observar o que uma simples quebra de rotina pode desencadear. A mulher, que ansiava descer do ônibus e recuperar o tempo a correr ladeira abaixo, esqueceu-se do espaço entre o veículo e o passeio e pisou em falso, batendo com a canela no meio fio, caindo em seguida e rasgando a calça na altura dos joelhos, que se ralaram na receptividade do cimento áspero e, por fim, a cabeça chocou-se contra o chão.

Ao aprumar-se, sentiu tontura. Colocou a bolsa sobre o braço e tentou caminhar, mas enxergou o mundo em dois. Pensou ser a vertigem, que logo passou. Novamente, tornando a andar, viu que a paisagem parecia a mescla de duas telas, como um negativo fantasmagórico de foto sob o outro, mas com um detalhe: ela via os carros, os postes, os prédios, as pessoas e tudo mais e parecia que havia uma fusão do seu mundo com um mundo fantasma semelhante, de aparência imperfeita, turva, fragmentada. Via que as coisas imóveis eram idênticas nos dois tecidos, mas o céu ensolarado misturava-se com nuvens escuras de chuva; as pessoas caminhavam pela rua atravessando as pessoas que caminhavam pela mesma rua da mescla turva, umas passando por dentro da outra. Luma notou também que alguns carros transeuntes permaneciam nas duas realidades, porém sempre em posições diferentes e em versões mais ou menos associáveis. Achando precisar de um Tylenol, correu pra farmácia.

Na entrada da casa, procurou as chaves. Devem ter caído lá no ponto, pensou. Com raiva, levantou os braços e esmurrou a porta. 1h depois, conseguiu entrar com a ajuda de um chaveiro.

Suada e sentindo-se derrotada, despiu-se na sala mesmo, acendeu um incenso na varanda e lá ficou, seminua, observando o deserto da rua.

Um banho, um chá e adormeceu.

- Até amanhã! -, despedia-se dos colegas do trabalho. De volta ao seu ritmo comum, tentava esquecer a derrota temporal de ontem.

Ponto, ônibus e casa, como de costume.

Luma tomava sopa no sofá enquanto via TV e desenhava mandalas. Novamente, ficou um pouco tonta. Repousando a tigela no chão, pensou em tomar outro comprimido. Ao passar, entretanto, pelo corredor, ouviu alguém bater forte em sua porta tão forte que a assustou. Uma, duas, três vezes. Tremendo, olhou pelo olho mágico e então viu, enquanto as pernas amoleciam, um vulto de alguém do outro lado. A mulher correu para o quarto e lá ficou por um tempo, esperando aquilo desistir.

Silêncio.

Luma abriu a porta do quarto devagar e pôs a cabeça para fora. Nada. Respirou, massageou as têmporas e foi preparar o almoço para o outro dia. Esperando o noticiário, guardou a comida na geladeira e caminhou pelo corredor até a sala. Ela gelou, o coração deu palpitadas fortes e a urina começou a molhar-lhe pernas: à sua frente, como se ignorasse sua presença, uma sombra, um espectro incompleto, turvo, permanecia imóvel na sua varanda, de costas para ela. Luma correu. Correu feito louca pelo corredor, entrou em seu quarto e lá permaneceu debaixo do edredom até o despertador acordá-la.

III

Amedrontada, mas sem ter aonde ir, Luma entrou em casa depois de mais uma jornada, repetindo rezas para Nossa Senhora. Como sempre, a casa tinha o silêncio de um lar quase inabitado. Ela banhou-se, arrumou o as coisas do dia seguinte e pensou em ver algum filme velho no quarto. Olhou para o relógio do quarto e viu que o vencera dessa vez, então comemorou com uma dancinha que só ela sabia, tão esquisita que era.

Teve sede. Seguia de pijama pelo corredor. Aproveitando a viagem, catou castanhas e uvas-passas para comer no quarto. Ao chegar na entrada, sentiu-se tonta novamente, e já imaginava que alguma aberração apareceria. Certa em seu pensamento, olhou para o longo corredor que dava para sala, e ei-lo lá, o espectro, uma tentativa de ser humano incompleto, poucas cores, parado novamente de costas para ela; parecia olhar para a varanda. Num segundo, o espectro virou e começou a correr em direção a Luma. Corria para ela desesperadamente. Ela largou as coisas no chão e trancou a porta, deitando-se em posição fetal e chorando o desamparo.

IV

Sábado, dia livre. Levantou-se, fez igual para o sábado: lavar roupa, limpar casa, ouvir música. Pela tarde, caminhou até a Boa Viagem e voltou. O dia já escurecia quando entrou em casa. Agora mais aliviada pelo exercício, se esquecera um pouco das maluquices que tinham acontecido.

Ao sair do banho, entrou no quarto para vestir algo leve. Lá, teve sua assombração derradeira: a aparição ressurgira, mas com um comportamento diferente; não parecia ter a intenção de assustar. Luma suprimiu o grito com a boca e ficou olhando a figura; o espectro fazia movimentos esquisitos, jogando os braços no ar e rodopiando entre a cama e a cômoda. Foi aí que Luma, pela primeira vez, deixou de estremecer para esboçar um sorriso macabro.

- Mas só eu danço assim -, concluiu a moça. Depois observou os passos seguintes do vulto, que desapareceu. Com o tempo, percebeu aquilo não era uma assombração, mas sim um fantasma do tempo. Um fantasma de ontem, como ela mesma o chamava, pois se tratava de fragmentos de si mesma do dia anterior, com quem teve de conviver.



Comentários

  1. Carlos, cada conto uma surpresa boa de se ler. Muito bom! Cada palavra no cantinho certo, cada canto da história uma imaginação fantástica. Parabéns :) Cheiros. JanaM

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  2. Moço, você sabe casar o cotidiano com o misterioso de tal maneira que parece ser natural, deste mundo. Adoro passar tempo com os seus personagens, tão vivas e completas através dos pequenos detalhes pessoais que você vai revelando ao desenvolver do conto. Apesar de ter lido todos que você já publicou aqui, nunca sei o que esperar. Você sempre surpreende. Obrigada! - I.

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  3. "castanhas e uvas-passas para comer no quarto", essa referência ;) <3. É sempre muito bom e prazeroso passar por aqui! Seus contos sempre me prendem do início ao fim!! Só para variar, parabéns, It!!

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  4. Adoro as surpresas que seus textos proporcionam, esses finais... muito bom, me fez refletir bastante

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