A volta para casa sempre era tortuosa quando eu saía aos finais de semana. Mancebo de hábitos diurnos, sempre me cansei muito fácil, nunca tive jeito para a noite, e quando a festa começava a esquentar normalmente era na hora em que eu queria ir embora. Em suma, um estorvo para amigos e família, com quem meus hábitos e horários sempre se desencontravam, e para os quais não podia ser visto como nada muito além de um respeitável estranho, de um amigo desajustado, enfim, uma ovelha cinzenta no mar colorido e excessivamente salgado da vida cosmopolita: modismos e belas fotos nas redes sociais. Não, claro, que uma coisa tenha a ver com a outra, mas como já vi que esse texto tem cara de desabafo, então vou deixar assim mesmo, afinal não há por que revisá-lo. Sou um anônimo de contos de gaveta, um ponto abaixo do radar, um passageiro cansado que vê túmulos ao olhar para imensidões de prédios com as luzes apagadas.
Tenho minha própria noite. Eu e meus escritos, ou leituras, ou um filme, e algo pra beber. De noite, café não pode, me deixaria louco, e suco de caixa tem açúcar demais. Refrigerante é para crianças, água com gás é para desesperados, então meu reino é um bom vinho a ser bebido em conta-gotas ou então, se o dia não estiver pra álcool, uma água tônica bem amarga pra eu lembrar que existe algo pior que meus problemas. Nada disso vale, claro, sem um som ambiente. Um jazz suave, algo bonito e triste, ou talvez algo mais pesado com umas distorções na guitarra, mas isso prefiro mais de manhã, quando estou invariavelmente atrasado e a maior alegria é quando venta pela janela do ônibus.
Meu trabalho às vezes é bom, às vezes ruim, de vez em quando parece de verdade, mas não pareço real para ele. A maioria de meus colegas é desagradavelmente comum, e os incomuns são mais desagradáveis do que eu consigo ser. Bom, trato a todos muito bem, como trataria bem a qualquer inimigo. Sim, trato bem até os inimigos que não tenho. Bom senso corre nas minhas veias. Mas tudo que corre em mim não corre de verdade, anda, é como o vento da minha janela ou a propulsão a vapor de minha internet. Tudo muito desbotado, tudo parecendo um chiclete que colou no sapato e fez a gente desistir de fazer qualquer coisa útil num dia que já amanheceu meio perdido.
Dizem que sou chato. Eu sou. Mas não menos que todas as pessoas que conheço.
Eu me vi nesse personagem, com toda certeza.
ResponderExcluirExcelente texto, irmão.
Vou colocar um trecho de um poema que adoro muito, que diz algo semelhante ao que você quis dizer quando disse "sou um passageiro que vê túmulos onde passa...":
"...Meu coração, como um cristal, se quebre.
O termômetro negue a minha febre,
Torne-se gelo o fogo que me abrasa.
E eu me converta na cegonha triste
Que, das ruínas de uma casa, assiste
Ao desmoronamento de outra casa..."
A. dos Anjos.
Hoje eu acordei assim, e ai eu caiu aqui e como uma luva esse texto me pega e me sacode de maneira abrupta. Lucca fiquei deveras feliz por saber que não estou só.
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