I
Era só mais uma tarde de folga do Cabo Michel, que se tornara policial mais pela estabilidade financeira que por vocação; a farda lhe cabia muito bem, deixando-lhe mais bonito e até mascarava seu olhar de saudades. Quando de folga, costumava visitar sua mãe na cidade vizinha, cuja casa tinha um imenso quintal onde ele, antes de ser cabo e de ser homem, ainda bem moço, havia plantado um tamarindeiro que já ia bem grande e que tinha sido trazido como semente lá da Paraíba.
- É da árvore do seu poeta, Michelzin -, disse seu tio quando lhe entregou o presente. De todos os regalos materiais na vida, este lhe foi o maior de todos.
Depois de tomar a benção da mãe, Michel foi ao encontro do tamarindeiro. Como de costume, abraçou seu tronco, puxou o ar do ambiente para o peito e, tateando a casca da árvore, buscava saudoso uma antiga gravação entalhada há anos: “Michel e Joana, 1980” e, ao redor das palavras, um coração amadoramente desenhado. Era a hora em que Michel suspirava profundamente, lembrando seus tempos de um amor puro que talvez não voltasse mais. Uma lágrima, que teimava sempre em cair nessas horas, regava de melancolia e saudade a terra escura do chão.
- Tu vem aqui é pra ver eu ou essa arv’re, Michel? Eu te cunheço, meu fi -, ralhava a mãe, mas amorosamente, pois conhecia bem o filho.
- É pra ver tu, mainha, mas é meu bichinho ele.
- Eu sei. Mas num fica oiando aquele coração não, meu fi, que ele sempre te deixa amuado. Já passou. Joana tá casada e você é um cabo de polícia, então já já aparece uma moça arrumada pra tu.
- Verdade, fia. A benção, mãe, que eu já vou.
Na volta, sobre uma estrada seca e barrenta, Michel pedalava em sua Monark circular enquanto passava por cercas infinitas e ipês roxos. Pensava em Joana, de quem nunca se esquecera. A estrada, que tinha a extensão exata para Michel desenterrar todas as suas saudades, terminava quando o Cabo concluía, mais uma vez, que aquilo nunca teria fim.
II
Talvez como uma versão alternativa do angustiado Florentino Ariza, o Cabo Michel não torcia pela desgraça do esposo de Joana, mas também não lhe perturbava a consciência a ideia de tê-la consigo, um dia, quando eles se separassem, fosse por coisas da vida, fosse por coisas da morte.
Cinco dias depois faleceu o Dr. Delegado Lucindo e toda a cidade - cerca de 6000 habitantes - ficou, como é costumeiro em municípios pequenos, muito comovida. No velório, enquanto bebiam café e comiam as bolachas do morto, lamentavam o acontecido.
- Pobre doutor! Quem ia imaginar, né? -, disse uma rezadeira.
- Para morrer basta estar vivo, minha véia… -, respondeu, sem alegria, o açougueiro.
O caminho até o cemitério foi percorrido vagarosamente. O caixão ia na frente e as pessoas caminhavam, silenciosas, atrás dele. O Cabo estava presente, calado e também surpreso; em seus olhos não havia a alegria mórbida por conta do fato. Sua atenção oscilava entre o caixão e o rosto de Joana, que ia também na frente, contendo as lágrimas com um lenço bem dobrado.
Enquanto o padre repetia as palavras de conforto costumeiras de um sepultamento, entre o povo que enchia o lugar e rodeava o buraco do último leito do Dr. Delegado, o Cabo Michel correu os olhos por todo o cemitério e pôde, com toda tristeza, vendo alguns outros buracos de sete palmos já cavados, fazer uma analogia cirurgicamente justa:
- Verdade… todas as minhas covas estão abertas.
Terminado o fúnebre evento, todos deixavam o lugar quando Joana, reconhecendo o Cabo, mais pela postura curvada que pelo uniforme, chamou-o com voz fraca:
- Michel!
- Joana. Eu não sabia o que te dizer, então preferi apenas comparecer como qualquer dos demais. Minhas condolências!
- Obrigado, meu velho amigo. Há quanto tempo...
- Verdade. Muito tempo.
- Bem, eu preciso voltar à casa. Minha pressão anda baixa demais e meu norte sumiu.
- Eu entendo perfeitamente. Pois vá. Nos falamos.
- Sim, nos falamos. Até mais!
- Até, Joana.
III
Amanhecia um sábado qualquer quando Michel acordou. Abrindo um lado da janela pesada de madeira, sentou-se na cadeira de balanço e esperou o tempo passar. A sombra da mangueira impedia o sol de adentrar demais na sala e isso lhe confortava muito. Uma xícara de chá de erva cidreira na mão, uma roupa acabada e o silêncio dos vãos embalavam a manhã do rapaz. Também pensava em Joana, que havia dito “Nos falamos!” e não falou desde então.
Uma batida na porta e então quem batia notou que a janela estava aberta. Sua pequena cabeça cacheada apareceu sobre o peitoril e avistou o Cabo sentado na cadeira:
- Cabo Michel, bom dia. Ganhei dois salgadinhos para lhe trazer uma carta.
- Carta? Da parte de quem?
- De Dona Joana.
Os olhos de Michel pareciam ter perdido as pálpebras, imensos que ficaram. Pegou a carta das mãos do menino e agradeceu. Largando o chá, abriu a carta, que dizia pouca coisa:
Michel, olá.
Gostaria que pudesse vir à minha casa hoje, depois da Ave-Maria.
Espero-te,
Joana.
Quanta cor o mundo tornou a ter nesse momento! Michel lia, relia e cheirava a carta. Joana queria vê-lo e isso lhe parecia a melhor das notícias do mundo. O resto do dia, como esperado, passou com a pressa de um cágado doente.
IV
À porta de Joana, reajeitou a gravata e procurou o perfume nos pulsos. Estava tudo bem. A porta logo se abriu pela própria Joana, que lhe sorria de maneira muito polida:
- Entre, Michel. Que bom que veio.
- Eu que agradeço o convite. Confesso que me surpreendeu um bocado.
Joana sorriu sem jeito e convidou-o a sentar enquanto ia no quarto buscar uma coisa. Ele esperou sentado, com as mãos sobre os joelhos e o coração fazendo a gravata dar pulos para a frente.
Ela voltou do quarto com uma caixa na mão. Sentando-se ao lado de Michel, lhe disse:
- Preciso te dizer uma coisa, Michel.
- Espero que a diga. Tenho esperado por…
- Michel - interrompeu Joana -, por favor, me ouça. Eu queria te entregar tudo que está guardado nesta caixa que eu encontrei quando procurava desfazer-me das coisas de marido.
Joana abriu a caixa e começou a tirar dela os poemas e cartas que Michel havia escrito para ela durante todos os anos em que se amaram de maneira inocente. Michel, que agora começava a entender que o convite não tinha nada a ver com esperanças, disse a Joana:
- Mas é tudo teu! Fiz para ti e é tudo verdade. Joana, por que faz isso?
- Eu achei que meus empregados haviam dado fim nisto tudo. Como ainda está aqui, achei melhor devolver a você. Quem sabe você não faz um livro com esta caixa.
- É você eternizada aí, Joana. Na verdade, está eternizada em mim também. Não consegue nos enxergar no que dizem os versos e as juras amareladas que me devolve? A gente, de repente…
- “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, Michelzinho -, Joana cortou-lhe a fala recitando Camões. Continuou: - Desejo a você a sorte de um amor mais leve; eu já estou estragada pela vida.
O Cabo, com as mãos físicas segurando os papéis de amor e as mãos invisíveis socorrendo as esperanças em frangalhos, os olhos rasos d’agua e uma mágoa da Vida por sentir-se sempre como a peça essencial de suas desventuras, apenas consentiu com a cabeça e saiu sem mais dizer palavra.
- Desejo-te sorte, Michelzinho! -, ela tentou remendar a situação.
O Cabo desceu as ruas de pedra, entrou em casa e procurou qualquer garrafa para fazer-lhe companhia durante a noite mais perversa da sua vida.
No outro dia, sentado numa cadeira na porta do posto policial, o Cabo tinha o semblante sem brio algum: parecia um fantasma ao sol e dentro de uma farda. Com os birros do coturno desenhava na poeira da rua a letra J repetida vezes.
O rapaz da taboca, que costumava passar naquela rua sempre no mesmo horário e saudar o Cabo, estranhou o amigo quando o viu ali, cabisbaixo, mais curvado que o normal, presente em corpo e tão ausente do posto que até o menino manco do jornal lhe tomaria o revólver sem nenhum esforço.
- Que passou, meu amigo Cabo Michel, que passou?
Levantando os olhos para o homem, olhos cuja última fagulha havia morrido na noite anterior, respondeu-lhe:
Nada passou, meu amigo. Tudo que veio aqui ficou.

Eu me emocionei MUITO com esse final, senti que ia suar pelos olhos... Hehehe, sério, primeiro eu me identifiquei quando Joana disse que já estava "estragada da vida", depois quando ele disse que tudo ficou. Porque fica, não é mesmo? Para nós, que somos românticos assumidos, remoer o que ficou é lapidar as lentes...
ResponderExcluirÉ, é bem o que o que Augusto disse uma vez (e que eu devia ter citado antes do texto):
Excluir"...Eu sou aquele que ficou sozinho,
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto."
Obrigado pela leitura, DanDan.
Tocante, meu amigo. Progrides a passos largos.
ResponderExcluirEm verdade, estou agora mais afeito à sua escrita contista do que à sua poética, mesmo porque, fizeste aqui uma excelente mescla.
Excepcional, Witu! Gostei demais!
ResponderExcluirEu sempre choro não tem jeito!!!!
ResponderExcluirComo sempre uma escrita muito sensível, impossível não sentir a dor do Michel.
ResponderExcluirNão tenho estrutura emocional pra ler esses textos e ficar numa boa, risos. Não consigo deixar de me identificar com Michel, em diversos momentos da minha vida, mas também já fui Joana... A vida é dura...
ResponderExcluirLido ao som da música Scatterbrain do Radiohead:
ResponderExcluir'I'm walking out in a force ten gale.
Birds thrown around, bullets for hail.
The roof is pulling off by its fingernails.
Your voice is rapping on my window sill
Yesterday's headlines blown by the wind.
Yesterday's people end up scatterbrain.
Then any fool can easy pick a hole. (I only wish I could fallin)
A moving target in a firing range.
Somewhere I'm not
Scatterbrain.
Somewhere I'm not
Scatterbrain.'
Meu nobre Witalo... hj a tarde ainda eu chegava a mais uma conclusão mórbida numa conversa contigo... E ela tá correndo aqui ainda, dentro do peito... Causando esse estrago que as más ideias e conclusões desgraçadas costumam fazer...
Mas a conclusão e constatação desse seu conto já acompanha-me a algum tempo... Eu queria tanto saber fazer como todo mundo, e virar 'amigo' de todo mundo que já passou, ou não ver, como a Joana; talvez ainda jogar fora qualquer coisa que sobrou de fotos, escritos(tão poucos) ou lembranças(a essas eu daria um braço pra que se arrancassem da minha alma e permanecessem somente...sei lá, em minha mente!).
Vida desgraçada essa que nos faz a nós e ao Michelzinho 'sempre como a peça essencial de suas desventuras'!!!!!Porque chorar numa porra de banheiro de igreja quando vc só tava buscando paz?!!Ela malmente me viu...
Enfim, meu caro... minhas covas tmbm se encontram abertas... Essa parte me lembrou algo que aconteceu em minha vida e algo que antecipo o grande medo que sinto.
Eu só estive em um enterro na minha vida... eu tinha 12 anos. Estava chovendo... Meu amigo Domingos, de vulgo 'Perninha' por conta de sua deficiência deixara-nos por conta da cirrose...Eu senti toda a dor de sua família... eu o vi magro e feio, morto, bem morto...mortinho... achei que até a alma havia morrido... no percurso pra o local do sepultamento as gavetas estavam abertas e o cheiro de carne podre se misturava ao clima de calamidade pública do Quinta dos Lázaros...foi uma sensação horrível ver aquele amigo meu ser enterrado numa chão molhado e que parecia tão raso... E o meu medo é ter que voltar a um cemitério pra um enterro desde então...ainda não precisei, fugi, mudei o percurso, mas e meus pais?! Vai ser foda... deixa isso pra lá, desculpa o devaneio, mas o conto me lembrou...A última frase de Michel enegrece o pensamento...tá louco...
A última frase do conto é lapidar. E ela diz muito sobre a o amor de Michel que sobrevive em si muito mais do que em Joana. É o tema inesgotável dos amores não correspondidos, dos desencontros. O fato de ela entregar a caixa com as cartas de uma vida inteira é razão simples para pensar que ela jamais amou Michel, embora o final pareça não definido. Seria a tristeza do cabo o final de sua empreitada? Será que ele, tão sonhador e atento aos símbolos do amor dos dois entregaria os pontos após uma negativa? Não seria apenas jogo duro de uma viúva de delegado que precisa manter as aparências? São questões de um leitor com boa imaginação. Muito bom o conto.
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