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Sábado Cinza-Azulado #8: A Escada de Jacó


“...Se viveu, foi por ti e de esperanças
De na vida gozar de teus amores...”

- Álvares de Azevedo

Giacobbe sentia-se um estranho nessa noite de festa com tantos mestres, doutores e graduados, a maioria ostentando seu sucesso matrimonial: cada um com seu par sorridente e, por vezes, mecanicamente simpático. Se Giacobbe importava-se com isso? Sequer importava-se com os olhares de rancor das mulheres que o cortejaram outrora e receberam um “não” bem redondo dele.

—Aquele rapaz de barba por fazer, ali, nossa, é um broto –, comentou uma convidada.

—Aquele ali?! Haha. Um conselho, gata: Corra! –, respondeu uma professora de Física.

—Você certamente teria uma noite excelente, mas o “Depois” não existiria –, concluiu uma colega.

A noite seguia.

Colocaram Rádio Táxi para tocar, um K7 cedido à festa pelo próprio Giacobbe. Play. Os doutores continuavam inertes com suas conversas inertes, os mestres tentando acertar os passos pelos dos doutores e os demais entregavam-se lentamente ao balanço da música. O homem, que não bebia, mantinha suas mãos nos bolsos e sua camisa com estampa de asas-delta desabotoada, deixando à mostra uma imagem feita com silkscreen, e eram versos, os quais diziam:

— “Pobre ludíbrio de cruéis enganos!
Perdi os risos, a minh’alma é triste.” Caramba, Cobb! Você não muda, hein, cara? Casimiro de Abreu numa festa de sexta –, Jeferson recitou a estampa e comentou.

Jeferson era um dos melhores amigos de Giacobbe desde o primário. Formaram-se juntos na Faculdade de Letras, mas Jeferson escolheu a Linguística enquanto ele preferiu sondar o Intervalo da Realidade, a saber, a Literatura. Giacobbe apaixonou-se por Poesia e passou a ensiná-la num colégio, com todo o prazer do mundo, dentre os poucos prazeres que encontrara na vida.

- Pois é, cara! Eu nasci na época errada mesmo. Que jeito?

- É, Cobb, que jeito!? O jeito é te dar uma bota de chumbo e ver teus pés no chão. Esse teu “mal do século” ainda não sarou? -, perguntou.

- Talvez sare em um século.

- Como queira, Cobb. Olha, tem umas estagiárias ali. Bora lá?

- Hum… não sei se fazem meu tipo.

- E quem é que faz, sacana?

—É, tem a Mulher Nota Mil, mas não sei se conta. Conta?

—Claro que não! Haha. Vamos! –, riu e puxou Cobb pelo braço, fazendo-o parar perto das meninas. Eram três, bonitas e foram simpáticas com eles.

—Oi, meninas! Sou Jeferson e este é Cobb, o poeta do colégio.

Elas mexeram nos cabelos, olharam para os dois e entreolharam-se em seguida. Parecia um excelente sinal. Cobb, por outro lado, olhando-as de cima a baixo, perguntou-lhes algo sem contexto algum:

—Cinema ou praia?

—Ah, praia. Cinema dá sono –, respondeu uma. As outras, se responderam, foram ouvidas apenas por Jeferson, pois Cobb, que já esperava não haver esperanças nesta noite, desapontou-se com o comentário e disse que ia buscar uma bebida.

Com o copo cheio de Sprite para fingir ser vodka com tônica, manteve-se em distância segura dos demais. Olhando qualquer coisa janela afora, permanecia estático, o corpo levemente curvado, como de costume, e no semblante a velha imagem do descontentamento. Por fim, enquanto guiava o copo à boca, outro K7 encheu a casa com Don't Dream It's Over, e isso petrificou, na sua percepção, todo o tempo. O copo parou na boca, um suspiro quase sem fim, enquanto seus olhos, castanhos como o piso de tacos de madeira que pisava, começaram a salgar a Sprite já sem gás. O professor tinha o sonho de dançar no baile de formatura com alguém por quem sempre esperou, mas nunca veio. Havia arquitetado tudo em sua cabeça, como a mulher perfeita para a ocasião, o que dizer, como bailar devidamente e qual música tocaria, e seria esta do Crowded House, a qual, a despeito de todos os outros desejos para aquela noite no passado, foi a única coisa que realmente aconteceu. Ela tocou, todos dançaram, e Cobb pôde apenas observar, com sua boca cheia de dizeres perfeitos para um par maravilhoso, as outras pessoas dançando, trocando risos e flertes. Por esta razão é que chorava agora, e já começava a procurar um canto para disfarçar o vexame. Encostando-se, por fim, na quina de uma parede que dava para uma escada andar acima, lá permaneceu só, mirando outra janela e deixando rolar o resto de lágrimas que ainda havia de rolar até que a faixa e a sensação do flashback terminassem.

Na dor da exumação de antigos anseios, resolveu tomar coragem e completar o copo de Sprite com vodka. Não sabia a medida, sequer o jeito de bebê-la, então encheu-o até a boca. Sem tempo para dúvidas, virou-o como quem toma refrigerante na praia. Em poucos instantes, vendo a sala girar como um carrossel de mobília, sentou-se num sofá ali mesmo, sozinho e anestesiado, conseguindo sorrir um tanto, pois a opressão da gravidade do mundo lhe parecia, naquele momento, ter dado uma pausa.

Uma luz branca, morna e confortável criava uma fresta entre as pesadas pálpebras de Cobb; vinha do andar de cima e alumiava toda a escada. Ele abriu os olhos mais um pouco e teve que coçá-los com força para acreditar no que via: a mulher, cabelos negros como a noite, num vestido florido azul, que vinha, lentamente, descendo as escadas. Novamente os olhos do homem se tornavam um pequeno mar, mas por outra razão: havia achado sua mulher perfeita para sempre, pensava.

Ela parou no meio da escada e olhou tenramente para Giacobbe, como se já o conhecesse, e lhe disse:


- Você está bêbado?

- De amores...Por onde andava?

- “Eu existo mesmo?”, você vai perguntar -, sorriu e disse a mulher.

- Exatamente! Leu meu pensamento.

- Por que está aí isolado? A noite está agradável e tem tanta gente bacana aí. Vai, socializa.

- Estou destoado. Sou destoado. O único parafuso que acaba de encaixar nesta festa é você. Todo o resto é desprezível.

- Lisonjeada eu fico, moço.

- O mérito é seu, tão somente.

- São seus olhos educados, que enxergam o que não existe.

- Não desmereça meus elogios, que são legítimos. Olha só você, tão linda. Quando acorda, não se olha no espelho e mede cada beleza sua como se fosse feita à mão pelo próprio Deus? Veja, os seus cachos, o seu queixo, sua espádua, o jeito como sorri para mim, aqui meio perdido. Os cílios, a boca. Seu cheiro, moça. Nem parece…

- “Real”, já sei. Obrigado de novo.

- Exatamente. E perdoe os meus modos. Não quis te assustar. Na verdade, você me assustou aparecendo assim, mas é um susto bom, o melhor de todos do mundo. A propósito, meu nome é Giacobbe. E você, como se chama?

A mulher sorriu educadamente e, num tom charmoso de mistério, respondeu-lhe:

- Chame-me de Idê.

Idê, que olhava com um amor quase que maternal para Cobb, sinalizou para ele sobre a música que começava a tocar:

- Olha! É uma música dançante. Por que não vai lá tirar uma menina para dançar? Tem umas estagiárias lindas. Aproveita que Ritchie em alto volume tira qualquer timidez das pessoas.

- Acho que você não entendeu. Desce dessa escada e vem dançar comigo.

- Eu não posso. Gostaria muito, entretanto.

- Por que não?

- Porque eu moro aqui em cima. Onde você está eu não posso pisar nunca.

- Estou confuso. Onde você mora? Está aprisionada no andar de cima? Não há nenhuma barreira na escada.

- Não me refiro ao andar de cima…

- Onde, então? Diz, que eu farei de tudo para que me dês a honra de uma dança.

- Eu moro no seu ideal, Cobb.

Uma mão sacode o ombro direito de Giacobbe e ele abre os olhos. Ainda perdido entre realidade e ilusão, continua com os olhos travados na direção da escada e o coração querendo rasgar o peito. Seu amigo Jeferson o acordara do sono patrocinado pelo pileque. A festa já estava no fim e eles precisavam ir. Giacobbe, que tirou os olhos da escada nesse momento e olhou para o amigo, não lhe dirigiu palavra alguma. Jeferson, que ignorava a razão daquele olhar perdido e abalado, agindo como um velho amigo, apenas levantou Cobb pelo braço e o conduziu até sua casa, onde ele pôde remoer aquela visão e suas consequências quantas vezes pudessem ser remoídas.

Comentários

  1. Muito bom! Atingiu o objetivo de um verdadeiro conto, não ser previsível e prender a atenção até final.

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  2. Não há nada que feito por vc que não fique bom!! Adorei ��������

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  3. Que texto que texto. Semi Deus você é simplesmente fantástico!

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  4. Rapaz...

    Pera. Deixa eu respirar, criatura!
    Que texto foi esse, Wita? Veja, eu quero abraçar Cobb. Na verdade, eu quero Cobb para mim porque, ironicamente, ele é praticamente o meu ideal. Ou seria eu tão narcisista que, na verdade, me apaixonei por Cobb porque Cobb sou eu? Eis as questões... Me vi totalmente nesse texto, me identifiquei drastica (e preocupantemente) e, para além disso, esse Conto está impecável literariamente.

    Enfim, estou digitando com os pés porque as minhas mãos estão aplaudindo. Rs

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  5. Maravilhoso! voltei no tempo... Festa anos 80...
    Cativante do início ao fim.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Ah, me divirto muito com os nomes q vc escolhe para seus personagens. Idê (alizada) .

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