“...Um urubu pousou na minha sorte…”
Augusto dos Anjos
Augusto dos Anjos
Um
estrondo horrendo, como que o de uma explosão nuclear, e eu me via
transitando na velocidade da luz. Era o que parecia. Não conseguia
distinguir as coisas ao redor de mim, se eram paredes, árvores ou o
espaço sideral; somente linhas infinitas de cores, luzes, e nenhum
barulho ousava acompanhar-me - talvez eu estivesse mesmo mais rápido que
o som.
Na impossibilidade de identificar por onde seguia e de parar para checar o estranho fato com maior perspicácia, olhei para o meu corpo e ele seguia praticamente inteiro, mas as extremidades estavam estilhaçadas e, em algumas partes, pedaços de meus semelhantes - pedaços pequenos, disformes, como carne mal moída - estavam grudados em toda parte. De repente, caio sobre um espaço infindo de grãos imensos que, sob a perspectiva do meu recém-antigo lar, era tão somente um chão de areia seca.
Agora que quedara sobre algo plano e o mundo tornou-se distinguível, permanecia imóvel na terra enquanto nuvens cinzentas cobriam o céu inteiro. Sentia um incômodo natural, porque nunca havia saído do meu único ambiente, e desejava retornar para lá, que era quente, escuro e repleto de outros como eu. Agora, perdido num lugar estranho, assustado pela abrupta expulsão, padecia lentamente, como peixe fora d’água, como célula sem as devidas irrigações.
Apesar de ter uma noção de passagem de tempo diferente da que presenciava aqui fora, sabia que havia passado muito dele à deriva: é que o sol, tímido entre as nuvens escuras, avisava sua partida no horizonte, pálido, turvo e desmoralizado pelo inverno.
Antes, entretanto, do grande orbe de fogo poupar meus olhos de seus raios finais, vi luzes piscando a certa distância de mim, emanando de um veículo vermelho e branco: oscilavam as luzes entre vermelho e azul e estavam acompanhadas de um som muito incômodo, que parecia anunciar desespero e urgência.
Enquanto prestava atenção a estas coisas, senti uma pontada dolorosa no meu cinzento corpo e, novamente, via-me fora de superfície, mas dessa vez de maneira e velocidade que me permitiam observar com plenitude o que realmente havia acontecido. Direcionando minha atenção à causa da minha dor, percebi que estava a ser carregado pelo bico de um passarinho. Não demorei a perceber que aquilo não era, nem de longe, um resgate; eu ia morrer.
Sobrevoando a terra seca, procurei novamente o local da explosão e então, guiando-me pelas luzes que ainda piscavam, pude ver e concluir, triste e desesperadamente, a causa do meu primeiro infortúnio:
- Não adianta dar socorro, irmão -, disse um socorrista para o outro.
- Tem razão. Não tem pulso e há massa encefálica por todos os lados -, respondeu-lhe o colega.
- Agora é esperar o rabecão. Um rapaz tão novo...
Da multidão que é típico cercar essas ocorrências, olhar, tirar fotos e discutir a possível razão de um corpo estar estendido no chão, uma pessoa se manifestou alegando ser policial, e então tirou da mão da vítima autoalgoz a ferramenta com a qual ela havia expulsado a mim e aos demais da sua cabeça: um revólver.
Tomado pela surpresa, senti-me muito culpado. Pensei ser a causa da minha própria desgraça e,consequentemente, da dele. Ele não me expulsaria assim, sem motivo. Não nos expulsaria assim, sem razão. Vibrando culpa e me engasgando com ela de dentro para fora, perguntava a mim mesmo qual teria sido, dentre todos nós, o pensamento que o levara a desistir da vida e qual o levara, finalmente, a puxar o gatilho, pois todos parecíamos ter falhado em manter o equilíbrio, ao mesmo tempo que fomos, também, nossos próprios carrascos.
Na impossibilidade de identificar por onde seguia e de parar para checar o estranho fato com maior perspicácia, olhei para o meu corpo e ele seguia praticamente inteiro, mas as extremidades estavam estilhaçadas e, em algumas partes, pedaços de meus semelhantes - pedaços pequenos, disformes, como carne mal moída - estavam grudados em toda parte. De repente, caio sobre um espaço infindo de grãos imensos que, sob a perspectiva do meu recém-antigo lar, era tão somente um chão de areia seca.
Agora que quedara sobre algo plano e o mundo tornou-se distinguível, permanecia imóvel na terra enquanto nuvens cinzentas cobriam o céu inteiro. Sentia um incômodo natural, porque nunca havia saído do meu único ambiente, e desejava retornar para lá, que era quente, escuro e repleto de outros como eu. Agora, perdido num lugar estranho, assustado pela abrupta expulsão, padecia lentamente, como peixe fora d’água, como célula sem as devidas irrigações.
Apesar de ter uma noção de passagem de tempo diferente da que presenciava aqui fora, sabia que havia passado muito dele à deriva: é que o sol, tímido entre as nuvens escuras, avisava sua partida no horizonte, pálido, turvo e desmoralizado pelo inverno.
Antes, entretanto, do grande orbe de fogo poupar meus olhos de seus raios finais, vi luzes piscando a certa distância de mim, emanando de um veículo vermelho e branco: oscilavam as luzes entre vermelho e azul e estavam acompanhadas de um som muito incômodo, que parecia anunciar desespero e urgência.
Enquanto prestava atenção a estas coisas, senti uma pontada dolorosa no meu cinzento corpo e, novamente, via-me fora de superfície, mas dessa vez de maneira e velocidade que me permitiam observar com plenitude o que realmente havia acontecido. Direcionando minha atenção à causa da minha dor, percebi que estava a ser carregado pelo bico de um passarinho. Não demorei a perceber que aquilo não era, nem de longe, um resgate; eu ia morrer.
Sobrevoando a terra seca, procurei novamente o local da explosão e então, guiando-me pelas luzes que ainda piscavam, pude ver e concluir, triste e desesperadamente, a causa do meu primeiro infortúnio:
- Não adianta dar socorro, irmão -, disse um socorrista para o outro.
- Tem razão. Não tem pulso e há massa encefálica por todos os lados -, respondeu-lhe o colega.
- Agora é esperar o rabecão. Um rapaz tão novo...
Da multidão que é típico cercar essas ocorrências, olhar, tirar fotos e discutir a possível razão de um corpo estar estendido no chão, uma pessoa se manifestou alegando ser policial, e então tirou da mão da vítima autoalgoz a ferramenta com a qual ela havia expulsado a mim e aos demais da sua cabeça: um revólver.
Tomado pela surpresa, senti-me muito culpado. Pensei ser a causa da minha própria desgraça e,consequentemente, da dele. Ele não me expulsaria assim, sem motivo. Não nos expulsaria assim, sem razão. Vibrando culpa e me engasgando com ela de dentro para fora, perguntava a mim mesmo qual teria sido, dentre todos nós, o pensamento que o levara a desistir da vida e qual o levara, finalmente, a puxar o gatilho, pois todos parecíamos ter falhado em manter o equilíbrio, ao mesmo tempo que fomos, também, nossos próprios carrascos.
A cena foi ficando escura, o dia foi ficando escuro, e então o bico do
pássaro, engolindo-me finalmente, colocou-me num ambiente quente e sem
luz alguma, mas eu sabia que nesse novo local escuro eu não iria, como
antes, morar e nem permanecer vivo.
Meu deus, resumo esse texto em uma palavra: Incômodo. Senti tanta angústia ao ler esse texto, acredito que bem mais que o próprio personagem, muito profundo!
ResponderExcluirConcordo com Luana, incômodo, mas, ao mesmo tempo, instigante. O leitor acompanha aflito cada linha, tentando entender o martírio da personagem (que segue, também, angustiada buscando entender o seu próprio destino). Parabéns, It!! É incrível quando, no processo de leitura, somos capturados pelos sentimentos que emergem do texto. Eu devorei e me senti devorada por ele.
ResponderExcluirLi o texto seis vezes. Que porra é essa? Que angústia! Que visceral e instigante! Belo e metamorfico! Diga que fico Semi sempre nos seus textos!
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