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Sábado Cinza-Azulado #10: As Páginas de Alvar


Quando uma alma nasce com o fogo inextinguível da inquietação e do não pertencimento, não há remédio, ar fresco e cerveja que resolvam. Alvar vivia seus dias com a impressão de que fora enviado ao mundo com a chata missão de ser apenas mais uma engrenagem dentro do infinito e repetitivo relógio da vida. Alvar não cabia no mundo. Alvar não cabia em si.

Provavelmente a maioria das pessoas, observando Alvar e seu contexto sobre um ponto mais alto, como quem observa, em pé, uma partida de xadrez entre dois jogadores sentados, provavelmente essa maioria diria, com toda a certeza, que Alvar vivia uma vida perfeita, num lugar maravilhoso, a saber, sua terra natal, Kniga. Onde, em nossa terra, falta amor, duelos honrosos e pôr do sol dignos de quadros impressionistas, em Kniga abundava a ponto de enjoar. Nesse caso, enjoou o rapaz Alvar, farto de fazer serenatas à amada, bonita em sua sacada, no andar de cima; farto de ouvir som de harpas angelicais toda vez que, no final da odisseia, tomava sua Erêndira nos braços, vitorioso; farto de toda a normalidade de sua vida magicamente enfadonha e demasiadamente perfeita para ser-lhe boa o bastante. Alvar queria algo a mais (ou seria algo a menos?), queria ir além do tecido de conto de odiosamente perfeito em que vivia.

Levantando-se da cama enorme, olhou para a sua reconquistada Erêndira que ainda dormia, como princesa, sob os lençóis. Alvar calçou a bota, coçou os cachos – que já amanheciam arrumados – e saiu porta afora. Tendo atravessado toda a cidade, feito os mesmos cumprimentos aos transeuntes e assistido a manhã em Kniga funcionar como um autômato francês, Alvar alcançou a borda da cidade, por fim e pela primeira vez, depois de ter atravessado uma ponte que parecia dar em qualquer lugar por ele nunca pisado.

De frente para o desconhecido, parou para pensar. Pondo uma mão no queixo, mirou a divisa entre o que conhecia e o que ignorava: não havia um limite bem definido entre Kniga e o “além-Kniga” – como um final de tarde, que tem a alegria da luz do dia misturando-se com o tom hediondo e soturno da noite, assim era o que Alvar mirava. Sentindo como se cada cromossomo seu fora programado para não dar mais um passo à frente, mas, ao mesmo tempo, ouvindo o turbilhão do espírito dizendo “Vai logo!”, Alvar moveu um pé, lentamente, depois o outro, e depois não se sabe mais quantos passos deu, pois que sumiu, pequenininho, no novo horizonte que tinha uma cor diferente, a qual ia ficando mais forte e transformava todo o ambiente numa espécie de vazio infinito de papel Vergê cor gengibre.

Perseguindo o horizonte por horas, percebeu, ao olhar para todas as direções, que qualquer lado tinha se tornado um infinito da mesma cor, inclusive o céu e também o chão. Diferente do esperado para alguém à deriva num mar alto de incógnitas, Alvar não se desesperou; ao contrário, sentiu a doce paz da novidade e resolveu deitar no chão sem detalhes, utilizando as mãos como travesseiro para a cabeça e assobiando uma canção sobre batalhas.
Um barulho de páginas ao vento roubou sua atenção; era um som sedutor, sem pressa, que parecia chamá-lo docemente. Levantando-se, olhou ao redor monocolor em busca da sua origem.Seguindo a audição, andou alguns metros até perceber que havia uma fenda conferindo ao chão cores e sons, como um atalho a outro lugar. Admirado e loucamente curioso, sem nem um pingo de medo, ajoelhou-se e segurou as bordas da fenda com as mãos; como uma avestruz, meteu sua cabeça buraco adentro.

No futuro, após diversos mergulhos pelo mundo “além-Kniga”, Alvar saberia descrever o que nesse instante via: um abajur de lâmpada amarela sobre a mesa, um teto forrado de madeira e com ventiladores de três pás, algumas pessoas sentadas e outras percorrendo os corredores repletos de livros. O lugar tinha um cheiro gostoso de café, de madeira antiga encerada e das diversas pessoas com seus perfumes, tudo um banquete sensorial e visivelmente novo para Alvar, que parecia ingeri-lo com a gula de uma fera.

Após muito, muito tempo, Alvar retornou a Kniga, agora que sabia e entendia o caminho de volta. Quando passou pelas ruas, as pessoas colocaram a mão na boca como que vendo uma aparição espiritual. Na porta de casa, cuja fechadura já era outra, sua mulher lhe recebeu, perfeita como sempre fora, com ar de quem também via um fantasma:

—Por onde andaste, meu amor, que há dois anos não te vejo?

—Andei zanzando vazio afora, meu amor. Peço-te perdão, mas é que me perdi.

Erêndira, sem raivas nem rancores, mas com um cuidado e dedicação que pareciam ter aguardado por Alvar no formol do coração, abriu a porta para o esposo e o acomodou na mesa:

—Senta aqui e me diz tudo, por favor!

—Achei a saída daqui, amor, a única, ainda que uma fuga meramente contemplativa do outro lado. Eu vi pessoas comendo cachorro-quente, chorando sozinhas em seus quartos e suando na biblioteca; havia carros sem cavalos, mas com fumaça, gente tossindo, amores finitos, mortes sem glória na televisão; eu vi pessoas que falavam outras línguas e que tinham outras tonalidades de pele, e tinha tamb…

—Eu não entendo, amor. Não entendo nada! –, cortou-lhe a fala a esposa.
   
—Eu mergulhei na Realidade, Erêndira, assim como as pessoas da Realidade mergulham aqui em Kniga quando necessitam de uma fuga.

Comentários

  1. Muito bacana, Wita. Adorei! Excelente analogia - me fez lembrar de Meia noite em Paris, de Woody. Estamos sempre fantasiando com uma época ou espaço de tempo onde as coisas são melhores, menos enfadonhas, mais vistosas e emocionantes. Será que se vivêssemos na Terra dos Nossos Ideais estaríamos sempre num eterno gozo? (Fica aí o questionamento!) Agora, de uma coisa eu sei: a insatisfação diante do Presente é que os não nos deixa morrer na mediocridade do Futuro. Ao menos, isso!

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  2. Wsseq texto diz muito sobre mim. Nas noites, todas elas, fujo para fantasias oníricas na minha cabeça aturdida. Semi! Você me deslocou, para um futuro diferente e eu não estou deitada sobre a cama. É sempre muito bom saber que pessoas como você transforma palavras em frases que deslocam nossa mente. Em processos de mundos paralelos, eu sou rainha. E esse texto, torna-se o meu preferido!!!!

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