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Prosa de Quinta #9: Nunca Esqueça suas Moedas



Se quiseres poder suportar a vida, 
fica pronto para aceitar a morte.
Sigmund Freud



1
Uma chuva forte despencava.
Teodoro Santana dirigia um carro alugado, modelo do ano, pela BR-160. Contente pelo fato de que se encontraria com sua amada depois de muitos meses, Teodoro pisava no acelerador com mais força e o veículo rasgava o asfalto.
Faltava uma hora para amanhecer.
Apesar de tudo, chegaria a tempo de encontrá-la em casa.
Ultimamente, trabalhando no exterior, Teodoro só conversava com sua noiva por telefone ou pelo computador. A saudade era angustiante, por isso antecipou suas férias na empresa para voltar ao Brasil. Adriana Macedo não sabia de sua vinda, seria uma surpresa. Uma grande surpresa. O rosto da noiva não saiu de sua mente por todo o percurso que fizera até aquele ponto. Fitando o painel do veículo, Teodoro notou que o tanque estava quase vazio, lembrou-se que já fazia mais de oito horas que seguia sem parar. 
De repente, Teodoro sentiu seus músculos se contraírem e, no instante seguinte, sua visão parecia ficar turva, os braços amoleciam, uma sonolência tomava conta do seu corpo. Já temia esse cansaço por causa da insônia que tivera na noite passada, mas não pararia de maneira nenhuma.
O asfalto a sua frente alargava-se e afinava-se a cada piscadela de Teodoro. 
Não! Não posso dormir! 
Esse foi o último pensamento de Teodoro antes dele perder o controle do volante.
Os pneus roçaram o asfalto perdendo aderência, o carro rodopiou na pista e capotou cinco vezes caindo para o desfiladeiro na BR-160.

2
Teodoro abriu os olhos e viu-se no meio da pista. Parecia não ser mais o mesmo. Ao longe, do lado esquerdo da BR-160, notou o carro alugado totalmente destruído. O seu primeiro pensamento foi: Adriana, como vou te ver agora?
Entretanto, logo em seguida, sentiu seu corpo ser sugado por uma rajada violenta de ar. A pressão que invadiu seu ser era descomunal, puxando-o para baixo. O asfalto sob seus pés rachou em quatro partes e desmoronou, fazendo surgir um grande abismo apavorante, e Teodoro despencou para o mais profundo vazio.
Ao redor de Teodoro, havia inúmeros objetos e quinquilharias diversas: relógios de pulso, diplomas, celulares, livros, fotografias, roupas, laptops, etc. Eles estavam suspensos no ar, próximos a parede rochosa do abismo. O que significava tudo aquilo?, indagou-se, aturdido.
Ele continuou caindo. Teodoro levou as mãos ao tórax e, no mesmo instante, teve um susto. Não sentia seu coração pulsar. Estou morto? Não, não posso estar morto! Afobado, tentou se agarrar aos objetos a sua volta para tentar escapar da queda, mas não teve sucesso.
Ele piscou, tentando visualizar o fundo, mas, ao ver só escuridão, engoliu em seco. Inesperadamente, a velocidade em que despencava diminuiu, fazendo os objetos a sua volta ficarem mais nítidos – cartas, brinquedos, cédulas de dinheiro, cartões de crédito, malas de viagem e uma aparente infinidade de adornos humanos.
Teodoro imaginou ter visto algo familiar entre os diversos itens. Não pode ser... Ao ver um passaporte entreaberto com a sua foto em uma das páginas, ele gritou. O seu passaporte estava ali também. Por quê? Antes que pudesse tentar agarrá-lo, Teodoro mergulhou na profunda escuridão. 

3
Vestido em uma longa túnica preta e tendo sua face coberta por um capuz, Caronte meteu seu remo feito com ossos humanos nas águas violentas do rio e, com sua voz grave, gritou — PRÓXIMO!
Um segundo depois, Teodoro desabou no chão daquele lugar sepulcral. Ele levantou-se. Cerrando os olhos, tentou observar o local que o cercava: o chão era de pedra e havia um grande rio a sua frente, onde um barqueiro parecia aguardá-lo; no teto, também de pedra, inúmeras pessoas estavam presas lá no alto, choramingando e dando gritos que mais pareciam uivos.
— Que lugar é esse? — indagou Teodoro.
— Seja bem-vindo, meu nome é Caronte — anunciou o barqueiro, inclinando a cabeça de leve. — Este é o rio Aqueronte, lugar aonde todos vão quando morrem. Não há como errar o maldito caminho, não acha?
Teodoro estava hipnotizado pelo barqueiro.
— Então, estou realmente morto? Oh, não, preciso ver minha noiva, ela nem sabe que estava indo vê-la. O que farei agora? Eu não poderia morrer em hora menos inoportuna?
— A morte não espera por ninguém — respondeu Caronte, sádico. Rapidamente puxou um pergaminho acinzentado de dentro da túnica e o desenrolou. Leu alguns trechos, releu novamente e virou-se para Teodoro. — Segundo minhas anotações: Teodoro Santana, de 35 anos, sofreu um acidente de carro. Está tudo anotado aqui.
Caronte enrolou o pergaminho e o meteu dentro da túnica. 
Teodoro engoliu em seco.
— Apenas relaxe — orientou Caronte —, trouxe as suas duas moedas?
— O quê? Que moedas? — Teodoro levou as mãos aos bolsos da calça e estremeceu ao escutar o choramingo de duas mulheres sobre a sua cabeça. — Mas o que há com essas pessoas no teto?
Caronte aquiesceu. 
— Essas pessoas aí em cima não tinham as duas moedas e eu não pude transportá-las, estão de certa forma presas entre o mundo dos vivos e mundo dos mortos. Elas não tem paz. Então, é melhor se acostumar com elas aí e me dê as suas duas moedas.
Teodoro mexia nos bolsos. 
— Acho que perdi minhas coisas no acidente, dinheiro e documentos. Espere, acho que achei, é o troco do lanche do aeroporto... Mas só tenho uma moeda. Aqui está.
Caronte recebeu a moeda e encarou Teodoro.
— Não posso transportá-lo para o mundo dos mortos se não me pagar adequadamente. São duas moedas. Terá que permanecer aqui com os outros para a eternidade. É o protocolo.
O barqueiro devolveu a moeda e se preparou para ir embora. 
— Espere aí, aonde você vai? Eu quero sair daqui!
— Tecnicamente, Teodoro Santana, você tem que entrar e não sair — disse o barqueiro, afastando-se.
— Ei, eu já disse para esperar. Tecnicamente, se me lembro bem, eu não estou morto. Nas suas anotações não falava nada de estar morto, apenas mencionava o acidente. Como explica isso?
O barqueiro cessou. 
Os mortos estão ficando mais espertos, resmungou Caronte. 
— Neste caso, como lhe falta uma moeda, talvez algo intensamente instigante esteja acontecendo e, claro, eu não faço nenhuma ideia do que seja, entretanto, o que posso lhe dizer é o seguinte, sem as duas moedas você não será transportado para o mundo dos mortos e não terá paz.
— Posso voltar e pegar a moeda que falta, Ca-caronte. Mas como vou voltar? Ajude-me!
— Não posso lhe dar essa informação, isto é, vai contra o protocolo ajudar os mortos. Não sou culpado por você não ter trazido as suas duas moedas — dizendo isto, Caronte meteu o remo na água algumas vezes.
— Mas eu não estou morto, quero dizer, não por completo — respondeu Teodoro. 
A verdade era que ele não queria voltar para pegar moeda nenhuma, seu objetivo era retornar para sua amada de qualquer maneira. Havia uma chance, uma pequena chance de conseguir escapar, pensou Teodoro. Como faria isso?
O barqueiro conduziu o barco ao longo do rio e desapareceu. 
Inesperadamente, um homem despencou do teto, gritando histericamente, e mergulhou nas águas turvas do rio Aqueronte. Um rugido saiu das profundezas do rio. O homem desapareceu.
Teodoro fitou o teto e analisou o que via por um ângulo diferente. Então, é isso, ponderou Teodoro. As pessoas não estavam presas, elas se agarravam em qualquer proeminência do teto, lutando para não cair. Por quê?
— Ei, vocês aí no teto, o que estão tentando fazer?
— Atravessar o rio na direção contraria ao barco do barqueiro — gritou alguém em algum ponto do teto. A voz era de mulher. — Se também deixou algo no mundo dos vivos que valha a pena lutar, faça o mesmo para chegar ao outro lado, apenas tome cuidado para não cair no rio.
Teodoro virou-se e encarou uma parede rochosa.
 Ao iniciar a subida com dificuldade, perguntou o que havia no rio.
— Se cair lá dentro e tiver sorte, poderá cair no inferno — respondeu a mulher. — Contudo, é sempre certo que ao cair neste rio, você irá para um lugar nada agradável.
Teodoro estremeceu e continuou a subir, pensando sempre em Adriana. 
— Eu consigo, é só uma questão de concentração e força.
A cada centímetro escalado das paredes rochosas, rajadas de vento tentavam derrubá-lo. A pressão do ar aumentava mais e mais. Era muito mais difícil do que ele havia imaginado. Teodoro estremeceu ao fitar as profundezas do rio: corpos nus estampavam na superfície.
— Eu ainda tenho pendências no mundo dos vivos — ponderou Teodoro, confiante e determinado a prosseguir. — Adriana, eu estou indo!

4
Adriana Macedo entrou no quarto número 303 do Hospital Geral de Barreiras, na Bahia. Quando recebeu o telefonema da polícia, ela estava quase saindo para o trabalho, mas largou tudo para ver o noivo que, segundo as autoridades, sofrera um acidente de carro e estava em coma. Ela ficara aturdida, questionava-se sobre o motivo para ele não ter lhe avisado de sua vinda ao Brasil e porque se arriscara a dirigir durante a chuva sem fazer pausas. No fundo, Adriana sabia o motivo. Teodoro havia feito tudo aquilo para vê-la. Só por isso. Ele gostava de fazer surpresas, principalmente em datas comemorativas. Seria o aniversário de cinco anos do primeiro encontro/beijo. Na maioria das vezes, a paixão pode enlouquecer as pessoas, obrigando-as a fazer coisas ridículas. Teodoro era um ridículo. Meu ridículo. Desde o início, ela prometera cuidar de Teodoro. Então, não o abandonaria. 
Adriana sabia que Teodoro lutaria para viver, lutaria para ficar ao lado dela. Não pode acabar assim, ela pensava. Não posso ficar sem você. Dias, semanas e até meses de espera, no aguardo que Teodoro saísse do coma. Após baixos sinais de atividade cerebral, já havia a recomendação médica de desligar os aparelhos, que o mantinham respirando, no primeiro domingo de outono. Adriana chorava e pedia que, se ele de alguma forma a escutava, acordasse imediatamente. Ela não perdia a esperança. As enfermeiras descobriram que, certa vez, há dois anos, Teodoro tinha feito uma piada de mau gosto diante do receio de Adriana em ficar sozinha: "Se tem medo, eu deixo você morrer primeiro, depois vou logo atrás de você". Era nisso que Adriana se apegava. Nessa piada boba. Foi uma promessa, corrigia ela. Ele prometeu ir depois de mim. Não o contrário
Quando a equipe médica se preparou para iniciar os processos finais, algo inesperado veio a ocorrer: Teodoro Santana abriu os olhos.

5
— Ele está vivo — foram as palavras de Adriana. Teodoro amou ouvir aquilo. — Ai, meu amor, você me deu um susto e tanto, nunca mais faça isso comigo, Teodoro, entendeu? Os médicos disseram que há a possibilidade de haver sequelas graves em seu caso devido ao tempo em coma. Eles farão alguns exames. Mas isso não importa, ouviu? O que realmente importa agora é que ficaremos juntos. Você e eu.
Adriana o beijou. 
Estou vivo? 
Teodoro sorriu e lágrimas escorreram por sua face.
O que houve comigo? 
O médico interpelou, apresentando perguntas. 
Eu sofri um acidente?
Com dificuldades, Teodoro respondia.
Fiquei em coma por três meses?
O médico falou dos possíveis riscos.
Posso morrer de novo?
Adriana interrompeu o médico.
— Ele acabou de acordar.
Meu coração está batendoEstou vivo.
— Devemos estar preparados para tudo, senhora.
— O barqueiro — Teodoro conseguiu falar, suando frio.
Adriana não entendeu, mas tentou acalmar seu noivo.
O médico deu uma rápida aula sobre as experiências de quase-morte.
Não! Aos poucos, Teodoro começou a se lembrar. Ilusão? Não. Meus músculos ainda doem. Ele havia conseguido com muita dificuldade e esforço chegar do outro lado do rio. Foi um trajeto penoso. Quando terminou o sofrido percurso, Teodoro mergulhou numa luz incandescente e acordou numa cama de hospital. Não foi sonho. Impossível. Pensativo sobre os possíveis riscos, ele aquiesceu sobre a possibilidade de retornar ao rio Aqueronte e, consequentemente, aos gritos dos condenados a não ter paz.
— Está tudo bem, Teodoro? — quis saber Adriana, preocupada.
— Sim, querida, mas, só por precaução, você tem duas moedas para me emprestar? 

Comentários

  1. só uma moeda? ele não estava pronto para morrer? na verdade, alguém está? o que é capaz de desestabilizar a morte, implicando a chegado ao barqueiro com ou sem moedas? Os sonhos? O amor? Não concretiza-los em vida implica na falta de paz? Garoto, gosto das entrelinhas que há em seus contos.

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  2. Excelente texto, Will! Fiquei totalmente atenta e "presa" ao mundo paralelo criado. Ótimo arremate final! E por via das dúvidas, vou checar se tenho moedas aqui na bolsa... Rs!

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  3. Will me arrepiei diversas vezes ao longo do texto. Esplêndido meu caro. Por precaução as moedas estarão no meu bolso.

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  4. Que maravilhoso, Wilgner! Eu já estou arrependido de não tê-lo lido na cama, perto de dormir, para ficar com ele na cabeça enquanto pego no sono.
    Excelente história, irmão, com doses homeopáticas de bom humor também.
    Irmão, outro ponto curioso: você costuma usar nomes compostos para os seus personagens, o que me faz geralmente imaginar tudo como uma peça teatral mesmo.
    Parabéns, Wilgner! Chega a deixar morno o interior da gente ler algo tão confortável assim.

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