Atiramos o passado ao abismo, mas não
nos inclinamos para ver se está bem morto.
William Shakespeare
1
No céu, a lua foi tomada por um eclipse. Pios de coruja ecoaram.
E, dramaticamente, um nevoeiro tomou conta do bosque.
De calcinha e sutiã, Aline Moraes corria atônita bosque adentro em busca de ajuda, pois acreditava que, em algum lugar daquela imensidão de folhas secas, lama e salgueiros decrépitos, haveria alguém para ajudá-la.
Aline estava sendo perseguida por uma criatura terrível, uma criatura que persistia em seu encalço já há algum tempo. Após três guinadas, suas pernas estremeceram e uma sensação de desespero tomou-a por completo.
Por quanto tempo irei fugir?
E fugindo do quê? Quem é meu algoz?
Aline não fazia questão de olhar para trás, pois o medo a impedia de tal ato. Logo, veio a sensação de Déjà vu. Tudo já acontecera antes: a noite no bosque, a perseguição intensa e o monstro. Ela já sabia o final de tudo isso.
Por favor, não, de novo não!
A brisa noturna a atingiu, produzindo arrepios na espinha. Aline estava paralisada e ciente do que iria acontecer nos próximos segundos.
É o fim, vou morrer.
O monstro avançou para atacá-la. As garras lembravam facas afiadas. O denso nevoeiro a impediu de visualizar a criatura por completo, ela somente conseguia ver o olhar possessivo do monstro e podia sentir as garras dele rasgando sua pele. Contudo, ela não sangrava, só sentia dor.
Não, por favor, pare! Não faça isso comigo!
A dor era insuportável. Ela cruzou os braços na frente do corpo com o intuito de impedir que as garras do monstro rasgassem seu coração.
Deixe-me em paz, maldito!
Por fim, ela viu a face do monstro.
Por que você voltou?
Viu as garras perfurarem seu corpo.
Responda! Por que você voltou?
Viu suas vísceras pularem.
Não!
E tudo escureceu.
Ela despertou em soluços, abraçando seu corpo nu.
Foi somente um terrível pesadelo. Novamente aquele pesadelo.
Um pouco tonta, levantou-se, ajeitou os cabelos pretos num coque, vestiu algo e, pensativa sobre qual seria seu próximo passo para pôr um fim nessa perseguição, saiu daquele hotel.
2
Ultimamente, a campainha não parava de tocar.
Era tão bom quando ela não era tão famosa.
Exausta, Lurdes abriu a porta já sabendo quem era.
— Minha patroa ainda não voltou — resmungou para a irritante visita.
— Queria falar com ela.
— Sim, eu sei. O agente dela me informou sobre a sua teimosia.
— Eu sei que estou sendo insistente.
— Como eu disse, ela não está aqui.
— Que pena.
Pena nada. Graças a Deus que sumiu por alguns dias.
Com ela, isso aqui é o inferno. Sem ela, é só o purgatório.
— Você poderia me ajudar a encontrá-la?
— Se ainda não percebeu, já tenho muito trabalho aqui. Olha o tamanho dessa casa... Estou quase pedindo as contas. Casa de artista é só confusão, minha mãe estava certa. Todo dia tem tumulto, não consigo seguir essa rotina de reviravoltas constantes. Agora, como se já não fosse o bastante, tenho que ficar parando meu serviço toda hora por sua causa.
A visita engoliu em seco.
— Perdão pelo incômodo. Quando sua patroa aparecer, avise que quero falar com ela.
— Certo — disse, fechando a porta — eu deveria ter nascido milionária...
Um cartão de “EU VOLTO” foi passado por debaixo da porta.
A empregada revirou os olhos.
— Ou ter uma arma.
3
— Não acha que estou velho demais para isso? Mesmo se eu quisesse ir ver essa coisa que chama de comédia, não saberia me comportar nesse lugar — argumentara Gregório Goulart, levando a garrafa de cerveja aos lábios e tomando um gole.
Nos últimos anos, sua vida foi literalmente um porre, e a culpa de tudo, na opinião dele, era somente de uma mulher, uma jovem mulher, que acabara com sua vida. Aquela vadia! Perdera tudo por causa dela. Às custas da tia-avó, agora vivia em um puxadinho.
— Ah, Gregório, o teatro não é um bicho-de-sete-cabeças... Sou uma mulher já de idade e viúva, é compreensível que você, sendo meu último parente vivo, me acompanhe aos eventos públicos. Então, veja se ainda tem algum paletó que não feda a cigarro... Levante a bunda desta cadeira e, pelo menos uma vez na vida, sirva de companhia para sua tia-avó — dissera ela com veemência.
Ele torcera um bico, descontente.
A tia-avó o fuzilara com o olhar.
— Passe lá em casa a partir das seis.
— Tudo bem.
Sua tia-avó já tinha se virado para sair, mas, de costas, ainda vociferara: — E, pelo amor de Deus, olha essa sujeira toda, antes de passar lá em casa, ajeite este lugar. Até hoje me pergunto porque fui aceitar você por aqui. Todo mundo falava que você levava uma vida imunda, mexia com coisa errada... Eu deveria ter ouvido as pessoas... Ah, esse meu coração cristão, acolhendo pecadores.
Será que, além de me destruir, aquela vadia me amaldiçoou a viver com minha tia-avó até o fim dos meus dias? Ela tinha cara de bruxa mesmo. Era lindíssima, mas bruxa. Na verdade, todas são. As mulheres são criaturas malditas!
— Gregório, se nos atrasarmos, eu mato você — ameaçara sua tia-avó, atirando alguma coisa para dentro do puxadinho. — Anda logo, homem.
Mulheres malditas!
— Eu já estou indo.
Que inferno! Um dia vou sumir pelo mundo sem me preocupar em dizer nada a ninguém, desejara Gregório, levando a garrafa de cerveja aos lábios e tomando o derradeiro gole.
Ao entrarem no Teatro Municipal, Gregório Goulart acomodara-se no assento ao lado de sua tia-avó e, em silêncio, resolvera seguir o fluxo da experiência até porque jamais tinha ido ao teatro. Pelos sussurros das pessoas ao redor, deduzira que assistiria um monólogo. Ele não fazia a menor ideia do que era um monólogo. Para disfarçar o desconforto, folheara o programa e, com ar de burguês, fingira que já conhecia tudo aquilo.
De repente, a linda atriz entrara em cena arrancando risos da plateia e berros de uma fã, que segurava um cartaz espalhafatoso "AMO VOCÊ". Gregório não pôde sorrir nem mesmo falar. Ele ficara paralisado, pois tinha percebido algo de familiar naquela atriz.
Ele já conhecia aquele olhar. Era o olhar que o destruiu.
Impossível. Quais são as chances?
— É ela?
Sua tia-avó fizera um sinal para silenciá-lo.
Gregório sossegara, mas permanecera observando a atriz. Notara que havia audácia naquele olhar. Sim, agora sim, pensara ele. É ela. É a bruxa. Naquele momento, Gregório Goulart começava a pensar nas possibilidades que aquele reencontro poderia resultar e vira a oportunidade de mudar de vida surgir diante dos seus olhos. Ao término do espetáculo, conseguira deixar um bilhete no camarim da atriz.
4
Com quarenta anos, Aline Moraes dominava os palcos. Uma estrela, como diziam os jornalistas. Por onde passava, ela irradiava uma luz de simpatia e talento. Nem mesmo a recente viuvez pôde eclipsá-la. Porém, nos últimos dias, Aline estava em apuros. De forma assustadoramente rápida, a estrela estava colapsando. De estrela para buraco negro, tragando tudo o que estiver ao redor... Era a analogia perfeita para as gazetas matinais!
As lembranças de um passado distante voltaram. Um antigo monstro adormecido despertou das cinzas como uma fênix avassaladora. Aline não conseguia nem mesmo dormir, pois, ao fechar os olhos, um terrível pesadelo a consumia. Seu agente estava certo, fugir só pioraria as coisas.
Eu o criei. Ele só existe por minha causa.
Só eu posso mandá-lo embora.
Após passar mais uma noite num hotel qualquer da cidade, Aline resolveu acabar com aquele joguinho de chantagem. Sair correndo foi uma ideia estúpida. Como antes, ela usaria sua inteligência para virar a mesa, já o tinha derrubado uma vez há anos. Posso fazer de novo. Aline não permitiria que o monstro destruísse seu recente império, por isso formulou um plano e telefonou para seu agente, orientando-o sobre os passos difíceis que os dois tomariam nas próximas horas. Logo depois, fez outra ligação e marcou o encontro que iria pôr fim em toda aquela desventura.
— Sei que você me procura há tempos, Patrícia.
— Não acredito — a voz do outro lado da linha ficou estridente. — A grande Aline Moraes ligou para mim?! Meu Deus. Socorro. Desculpe, estou excitada.
— Sei que você passou os últimos anos da sua vida me procurando.
— Meu Deus, não estou acreditando que estou falando com a Moraes.
— Acredite, sou eu. Liguei porque preciso da sua ajuda.
— Diga. Faço qualquer coisa. Eu até mato por você.
— Estou contando com isso.
Silêncio.
— Diga. Eu faço.
— Os detalhes eu conto pessoalmente, mas já adianto o básico por aqui. Preciso que amanhã você vá até minha casa... Espere, vou passar o endereço...
— Não precisa — a voz ficou quase muda — Quero dizer, eu descobri há alguns dias. Desculpe. Tenho ido lá, mas nunca te encontro. Como não respondia minhas cartas, telefonemas, resolvi contatá-la de forma direta. Eu sei que sou insistente, mas é porque te amo. Ai, estou falando demais. Desculpe.
— Não se preocupe. Só vá para lá.
— É...
— Você tem ido com muita frequência?
— Sim. Se eu aparecer lá de novo, talvez sua empregada até me mate.
— Estou contando com isso também.
5
Ele ajeitou a gravata borboleta e os cabelos loiros.
Se é para cair, cai com classe, pensou.
Voltou a mexer na gravata borboleta.
Mais cedo, Davi Freitas, agente e grande amigo de Aline, localizou Gregório Goulart e, em seguida, fez mais algumas ligações. Ele fazia tudo por aquela mulher. Aline Moraes permitiu que ele vivesse a felicidade. Devo minha vida a ela. Tudo que puder fazer para ajudá-la, farei. Nesse instante, dentro de um táxi, indo para uma cafeteria no centro-oeste da cidade com o objetivo de encontrar contatos importantes a pedido de Aline, ele se lembrou da noite no camarim. O início do caos.
— Aline, algum problema? — questionara, após o espetáculo.
Chorando, Aline entregara o bilhete a ele. — Leia isso, Davi. Estava indo tudo tão bem. Por que o destino resolveu aprontar comigo agora? Não... Maldição! Mesmo que eu quisesse pagar, não teria todo esse dinheiro. São tolos aqueles que acham que só porque temos uma vida de fama, vivemos cobertos de dinheiro.
— Chantagem? Alguém descobriu sobre o Léo e eu?
— Não. Ainda não. Porém, se meu passado vier a público, chegarão em vocês.
— Tolice, Aline. Esse Gregório nem sabe escrever muito bem — comentara Davi, ao analisar o bilhete. — Vou falar com ele...
— Não. Mesmo velho, ele ainda é perigoso.
Davi, após reler o bilhete, a fitara nos olhos — Espera... Pámela Lopes?
— Alguém que deveria ter morrido, meu amigo. Mas é evidente que, por crueldade do destino, acabou ressuscitando. Fui muito tola, quando jovem...
Davi ficara com o semblante sombrio.
— Na busca por meu sonho de ser uma atriz, acabei me iludindo por promessas de homens maus e eles só me usaram, Davi. Eu precisava escapar e, a trancos e barrancos, escapei. Era inverno, quando emergi da lama e troquei de nome. Vagava sem rumo quando encontrei você naquela praça, chorando, e eu chorava também.
— 1988. 15 de agosto. Impossível esquecer aquela noite. Um homem revela suas dores para uma completa desconhecida. Ela o acolhe e diz: “há problemas piores, o seu tem solução”. Ela estava completamente disposta a carregar o maior de todos os fardos. Naquela noite, já madrugada a dentro, fazem um pacto e, assim, findam as lágrimas para viver a felicidade.
— Pensei que sepultaria tudo isso quando me casasse com Leandro, o amor da sua vida. Antes de fingirmos que éramos uma família, eu já fingia ser outra pessoa, então, não seria difícil fingir ser uma esposa dedicada e fiel. Eu só queria apagar tudo aquilo. Vamos empilhando as mentiras, uma depois da outra, crendo que tudo ficará bem, mas...
— Nos tornamos amigos pela mentira e através dela continuaremos juntos.
— Não entende? Nosso pacto. Não posso sujar a memória do Leandro.
— Não faremos isso. Quem acreditará num homem que nem sabe escrever?
Aline tinha meneado a cabeça, negativamente.
— Mesmo se eu negar, Davi, já será um alvoroço se Gregório contar essa história para a imprensa. Você sabe como são alguns jornalistas deste país... O maldito quer colocar a boca no trombone, quer dizer ao mundo todo que no passado eu era uma vadia. Serei estigmatizada. Minha biografia mentirosa aparecerá nas manchetes ao lado da verdadeira. A lama do passado respingará em tudo, ninguém sairá limpo, nem você e nem mesmo o Leandro. Tudo virá à tona. Desculpe. Eu pensei que esse monstro havia desaparecido, mas ele está de volta para destruir tudo.
— Calma, Aline. Nós podemos...
— As cicatrizes são para sempre, Davi. E agora eu sei disso. Não podemos simplesmente jogar maquiagem e acreditar que tudo ficará bem. É só camuflagem. Querendo ou não, elas representam o que somos. É possível fugir do que sou?
Silêncio.
— De todo modo, você e o Leandro foram presentes que a vida me deu. Ao lado de vocês, pude testemunhar coisa boas... infelizmente, aprendi que elas não costumam durar.
— Não, Aline. Eu ainda estou aqui. Podemos marcar um encontro com ele...
Aline ficara gélida.
— Não. Esse monstro maldito não me encontrará.
Aline tirara o bilhete das mãos de Davi, o amassara na forma de uma pequena e horrorosa bolinha e o lançara na lata de lixo do camarim. Ela saíra correndo do camarim, mas antes de atravessar a porta pôde ouvir os gritos do seu agente: “Volte, Aline. Fugir só vai piorar tudo”. Aline pegara um táxi e hospedara-se num hotel, ao leste da cidade. Ela pensara que estava segura, mas, mesmo lá, o monstro invadiu seu subconsciente e, só naquele momento, ela compreendera que tentar se esconder não ajudaria em nada. Não é possível fugir do que somos, muito menos fugir dos nossos monstros. Davi estava certo. Há algumas horas, Aline o agradeceu por telefone e corroborou essa informação. Ele estava certo. No entanto, agora, saindo do táxi e encarando os perigosos contatos, Davi já não tinha muita certeza. Será uma jogada arriscada.
6
Gregório Goulart tinha uma vida sedentária. Com quase sessenta anos, era um homenzinho gordo e rabugento, de olhos acinzentados, que vivia às custas da tia-avó numa casinha na periferia da cidade. Contudo, quando era mais jovem teve muitas mulheres a seus pés, já que era dono de um prostíbulo, forjado de Casa Dançante, onde preparou garotas belas para uma vida de devassidão. Bons tempos aqueles, pensava ele. Tempos em que Gregório passava os dias bebendo e controlando tudo. Era uma vida de dinheiro fácil. Porém a vida de cafetão não durou muito tempo devido a uma linda e esperta garota chamada Pámela. Ela atiçou todas as moças contra ele. Foi um motim arquitetado com maestria. Todas foram embora, deixando-o apodrecer na sarjeta. As palavras de Pámela até hoje estavam esculpidas na memória dele. Enquanto as piranhas ficavam ao lado dela, ela dizia: Eu espero que você tenha uma vida de merda. Foi o fim. Gregório jamais se esqueceu do olhar da mulher que acabara com sua vida.
Aline Moraes era Pámela Lopes. A bruxa maldita!
Não importa como ela conseguiu. Só importa que era ela.
Naquele dia, no Teatro Municipal, ele a reconheceu e agora ela estava comendo em sua mão. Ele seria impiedoso, esmagaria aquela mulher através do medo. Conseguiu seu telefone na agenda telefônica, mas era informado pela emprega que Aline não estava. Há dias que não aparece em casa, dizia ela. E parem de ficar ligando pra cá, aqui agora é o 190? Ele não entendia a reação explosiva da empregada, afinal quem deveria ter medo era ela. Toda aquela vida de luxo acabaria e, no fim, ele triunfaria. As mulheres não percebem que eu estou no comando de novo? Gregório resolveu ligar mais uma vez para afrontá-la, porém, após ser ameaçado de diversas formas pela empregada, desistiu da ideia de ficar ligando. Mulheres! Alguns dias depois, antes que ele jogasse uma nota-isca em um jornaleco de quinta categoria sobre a vida da grande atriz Aline Moraes, Davi Freitas entrou em contato e contou que ela pagaria tudo em troca do silêncio dele. Durante a ligação, Gregório exigiu que o pagamento fosse feito pela própria Aline. Quero olhar nos olhos dela uma última vez, berrou. O agente tentou contestar, mas quem estava no controle era Gregório. Quero que ela se lembre do homem que tirou todo o dinheiro dela, quero que saiba que fui o único homem capaz de destruí-la, exigia mentalmente, mas tudo acabava saindo em voz alta. Gregório salivava. Quero ver essa mulher em frangalhos amanhã mesmo. Houve um instante de silêncio e, logo depois, com o momento de insanidade suavizado, o agente passou o endereço da casa dela, o dia e o horário do pagamento.
Minha vida vai mudar.
Era a única coisa que Gregório conseguia pensar.
Como combinado, lá estava ele. Gregório Goulart notou que a porta não estava fechada e entrou. A casa de Aline Moraes era colossal. O interior era ornamentado por móveis exuberantes, lustres extraordinários, quadros de arte e esculturas de acrílico. Posicionadas em diversos lugares, todas aquelas quinquilharias ostentavam um charme peculiar ao ambiente.
— Alguém em casa?
Ele escutou ruídos e andou na direção do barulho. Percebeu que duas mulheres discutiam, uma delas implorava misericórdia, mas, por algum motivo, a outra não concedia.
— Olá...? Merda... o que é isso? — tropeçou nos estilhaços de um vaso e, com o olhar voltado ao chão, viu a faca ensanguentada. — O que está acontecendo...
Primeiro, grito de mulher. Depois, o som de um tiro, seguido da batida de uma porta. Logo depois, uma empregada desajeitada surgiu na sala de estar. Ela removia seu uniforme de cor rosa e tentava tirar a touca espalhafatosa da cabeça. Seu rosto estava pesado de maquiagem e, nas mãos trêmulas e sujas de sangue, carregava um revólver.
— Estou aqui a pedido de sua patroa — disse ele, tenso, tentando se explicar.
— Ah, cansei de ser escrava — Ensandecida, a empregada gesticulava muito — Calma, Lurdes, só queremos que você nos ajude com MAIS uma tarefa... É só para entregar esse dinheiro... Ele vai chegar e nós precisamos que... CANSEI! Faça isso. Faça aquilo. Limpe aqui. Limpe ali. Atenda as visitas. Sirva as visitas. Tome seus remédios. FODA-SE! A vadia da Patrícia Mendes ainda conseguiu fugir, mesmo esfaqueada.
— Pa-pa-patrícia...
— Uma fã maldita que não parava de me incomodar — o olhar da empregada era de fúria — Livre-se da pistola antes que os vizinhos fofoqueiros chamem a polícia — mandou a empregada sem titubear, jogando o revólver nas mãos dele.
Às pressas, a empregada agarrou uma bolsa ridícula e saiu.
Gregório continuou segurando o revólver por alguns segundos, atônito.
Por curiosidade, ele andou até o cômodo de onde, minutos atrás, os barulhos ecoaram. Atravessou a porta e adentrou num pequeno quarto. Havia sangue nos lençóis da cama, um corpo inerte com um buraco de bala na testa.
— Oh, não — ele choramingou.
Era a atriz Aline Moraes, assassinada pela empregada. O quarto estava todo revirado. Elas brigaram? Tinha maços de dinheiro pelo chão, alguns já estavam mergulhados no sangue. O dinheiro do meu silêncio. Gregório tentou ir até o corpo, mas o piso estava muito escorregadio por causa do sangue. Tropeçou e caiu próximo a cama. Com uma das mãos, tocou os pés dela. Não era para ser assim. O que você tentou fazer? Ao tentar se equilibrar, percebeu que estava segurando a arma. Merda! Agora tem minhas digitais. Não tinha outro jeito. Empregada maldita! Ele limpou a arma e a colocou na mão do cadáver. Pegou alguns maços do chão e saiu correndo como um louco, fazendo o possível para não ser visto por ninguém. Após se limpar em um banheiro público, tentou desaparecer em meio à multidão na estação de trem mais próxima. Droga! Parece que estou sendo seguido. Enquanto tentava manter o passo acelerado, suava frio. Preciso sumir, me afogar no interior do país, longe de tudo e todos. Gregório corria tão rápido que não sentiu o coração falhar. É a polícia que já está em meu encalço? Era adrenalina demais para um corpo tão sedentário. Eu não fiz nada. Eu juro. Ela já estava morta. Ele já estava quase sem ar quando esbarrou em alguém e, rodopiando três vezes, foi ao chão.
7
Trinta minutos depois, no quarto de hóspede, Patrícia Mendes assistia Moraes em coma induzido. Completamente desmontada, Patrícia ergueu a bolsa ridícula do chão e pegou uma Polaroid. Tirou algumas fotos. Após o ritual de fã e ídolo, Patrícia começou a limpar a maquiagem mortífera do rosto de Aline. Tão linda, seria terrível se morresse de verdade.
Quando questionada sobre o motivo de convidá-la para fazer parte daquilo, Moraes dissera que Patrícia era a pessoa certa, a única disposta a protegê-la do monstro. A única. Se aquelas balas não fossem de festim, eu tinha acabado com ele ali mesmo na sala.
— Como foi? — indagou Aline, ao acordar.
— Melhor do que a encomenda — disse Patrícia, risonha. — Você certamente daria tudo para ter visto a cara com que ele saiu daqui. Se for um homem esperto, temerá a polícia e sumirá para sempre.
Aline sorriu, mas a vontade era gargalhar.
— Ótimo. Como eu imaginei. Obrigado. Não quis envolver minha empregada nessa história, não diretamente, claro, ainda bem que você estava disponível.
— Eu que agradeço. Foi um prazer.
— Não se preocupe, não demorarei a depositar o valor que combinamos.
— Só seja minha amiga, querida. Te amo tanto — Patrícia tentava simular um abraço, usando os braços ainda desfalecidos de Aline. — Vou tirar só mais uma foto. Coisa rápida, minha deusa.
Aline tentou revirar os olhos, mas nem isso conseguiu fazer.
Fãs... Ruim com eles, pior sem eles.
De supetão, Davi Freitas entrou no quarto.
— Seguiu ele? — Aline já tentava se levantar da cama, mas com dificuldades.
O sorriso de Davi era quase sádico.
— No início, juro que fiquei receoso, pois tive que molhar muitas mãos e prometer favores a Deus e o Diabo para esse teatrinho acontecer, mas o resultado foi fabuloso. Inesperado. Ele morreu.
Patrícia Mendes levou a mão à boca.
Aline assentiu — Parece que os ventos do destino resolveram soprar na nossa direção.
— Estou tão feliz — disse Davi. — Agora você pode continuar sendo a Aline Moraes, não precisa ir para outro país, viver outra vida, não vou precisar fazer uma nota de obituário da minha amiga...
— Era assim que terminaria? — Patrícia continuava chocada.
— É no que realmente somos bons. Era para ser mais uma mentira sobre as outras.
— Estamos construindo um castelo, minha amiga — comentou Davi.
— Verdade.
Houve um silêncio.
— Ei, precisamos limpar toda essa bagunça antes que a Lurdes volte.
— Bem lembrado, Patrícia — disse Aline.
Agora mais calmo, Davi fitou o quarto com atenção.
— Olha isso, tanto sangue...
Patrícia completou — Até parece que foi um massacre.
— Massacre será se Lurdes aparecer aqui e a casa não estiver limpa, queridos — Aline retificou.

Amei essa reviravolta, nem me passou pela mente esse final, parabéns menino rico...
ResponderExcluirCurioso como algo angustiante vai ficando divertido... Realmente tu és um bom contado de histórias. Paz!
ResponderExcluirEu ia lendo como se estivesse acompanhando uma peça teatral.
ResponderExcluirValeu pelo texto, mann!
Seus textos virariam peças teatrais brincando!
ResponderExcluirAdorei o tom cômico que foi se instalando ao longo do texto
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