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Prosa de Quinta #10: Uma Aposta Insana


Todos nós nascemos loucos. Alguns permanecem. 
[SAMUEL BECKETT]

1
— Você não tem coragem, Magali.
Magali sobressaltou-se, mas ficou calada.
— Eu aposto oitocentos reais como você não fará isso — concluiu Suzi, sua amiga, num almoço no restaurante Felicíssima Gourmet em Bom Jesus da Lapa, na Bahia. Tornara-se comum a vinda das duas amigas, secretárias de um escritório de advocacia, ao melhor restaurante do centro da cidade.
Magali sorriu, após beliscar um pãozinho.
Suzi piscou, aturdida. — Isso é loucura.
— Já ouvi essa frase várias vezes — ponderou Magali.
— Eu estava apenas brincando quando disse aquilo. Você é maluca, mulher, não pode fazer isso. Pode até ser presa.
— Já enjoei de ouvir essa ladainha também. Eu farei isso, Suzi, eu posso fazer.
— Não vou me responsabilizar caso você seja internada em um clínica. É insanidade total.
Magali riu, mordiscando uma azeitona. — Quem mandou você ser amiga de uma louca?
— Bom, já que vai mesmo fazer isso, eu aposto apenas trezentos reais — concluiu Suzi.
— O quê? Está bem, mão de vaca. Que tal, quinhentos reais, e não se fala mais nisso? Você começou com isso...
— O.K. Aposta é aposta — completou Suzi.
Magali levantou-se, pegou sua bolsa e agarrou o jornal matinal (responsável pelo início daquela discussão) das mãos de Suzi. E como se fosse tirar o pai da forca, saiu do restaurante às pressas.
Suzi balançou a cabeça, incrédula. Cinco minutos depois, ao pagar a conta, ela recebeu uma mensagem de texto no celular enviada por sua amiga.

Prepare o bolso. 
Já estou pronta para agir!

Oh, Deus, tomara que ela não seja internada, desejou Suzi, saindo do restaurante.


2   
Ela sentou no divã.
— Acha que sou louca, doutor?
O psicoterapeuta analisou a mulher sentada no divã. Ela tinha olhos castanhos demasiados. Cabelo encaracolado e corpo esguio. Inteligente, bonita e simpática, mas teimava em se considerar uma mulher louca. Aquela já era a terceira sessão em apenas uma semana.
O psicoterapeuta franziu a testa e ponderou — O que você entende por loucura, senhorita Magali?
Ela hesitou.
— Algum problema?
— Tudo é um problema, doutor.
Magali olhou pela janela ao ouvir a melodia do carro do sorvete.
— Como foi a infância?
— Normal.
Silêncio na sala.
— E a entrada para a adolescência?
— Uma verdadeira turbulência.
— Conte-me.

3
Na pré-adolescência, Magali foi uma menina muito incutida, cheia de não me toques. O cabelo tinha que estar sempre escovado, a roupa tinha que ser da loja mais cara da cidade, seu rosto tinha que estar sempre limpo e a pele macia. Contudo, Magali estava entrando na fase da puberdade e, como dizem os mais velhos, se tornaria uma mocinha em breve.

Ela já esperava ansiosamente por esse momento, não aguentava mais as pessoas beliscarem suas bochechas e dizerem coisinhas bobas: Que menininha lindinha! Gracinha de menina. Venha cá deixa eu lhe dar um beijinho nessa bochechinha.

— Agora chega dessas baboseiras — disse Magali a si mesma, confiante em que tudo iria mudar quando atingisse a adolescência.

Porém, o que Magali não sabia era que na fase da puberdade, tudo começa a mudar muito rápido. E a mudança inesperada no seu rosto, corpo e vida, começou a aparecer depois que completara 12 anos.

Era um belo domingo de verão.

Para uma menina de 12 anos, o quarto de Magali era bem discreto e nada exagerado. Pintado de rosa-choque e com pôsteres de ídolos teen colados de cima a baixo.

Magali estava acordando lentamente, como se fosse um felino de raça, espreguiçando-se vagarosamente. Ela ainda não percebera, mas seu rosto estava cheio de pequenas e arrepiantes espinhas.

A primeira coisa que Magali fazia quando levantava pela manhã era ir ao banheiro escovar os dentes e apreciar o seu lindo cabelo e rosto no grande espelho sobre a pia do banheiro. Só que naquela manhã tudo seria diferente.

Ao se aproximar do espelho do banheiro, fixando o olhar no seu reflexo, os olhos castanhos de Magali esbugalharam-se, tão logo, seguido de um grito escandaloso. O incrível procedeu-se, o espelho trincou em duas partes. Até hoje ninguém sabe a causa do incidente com o espelho do banheiro.

— Duas alternativas óbvias —
Se a causa foi o grito escandaloso, Magali se torna uma cantora de ópera russa. Mas se a causa foi a terrificante face da menina, ainda bem que existe cirurgia plástica.

Magali saiu do banheiro às pressas.

Desceu as escadas. Não sabia o que estava acontecendo. Vou morrer? O que é isso na minha cara?

— Mãe, meu rosto... Estou me transformando numa criatura pré-histórica... dinossauros — gritou Magali, entrando na sala de estar e pressionando o rosto com as mãos.

— Não seja boba, minha filha. São apenas espinhas... É da idade e logo passa — comunicou sua mãe, Katarina.

— Eu não vou para o colégio desse jeito, estou parecendo uma peneira — gritou a menina.

— Não seja exagerada e pare de gritar. Toda menina tem espinhas nessa idade — disse a mãe, passando a mão no cabelo de Magali. — Os garotos também têm espinhas.

— Eu seu... Acredito — comentou Magali, sarcástica. — Eu aqui virando uma pipoca gigante e a senhora aí calma como sempre. Pode ser algo contagioso ou, sei lá, como aquilo no filme, posso ter sido picada por algum inseto.

Katarina mexeu a cabeça, negativamente.

— Já sei — disse Magali, estalando os dedos. — Preciso passar alguma coisa no rosto, igual naqueles comerciais... 'Passou, limpou'.

— Querida, seu rosto não é uma pia de banheiro. Escute-me, filhinha, até a segunda-feira pode diminuir.

— Diminuir? Isso não vai acabar?

— Claro que vai, mas leva um tempo.

— Vou procurar a Bebel. Com certeza ela deve saber alguma magia para tirar essa coisa do meu rosto.

Magali foi atrás de Bebel, a nova empregada.

A mãe seguiu a filha.

Bebel virou uma das melhores amigas de Magali. Desde o dia que começou a trabalhar na casa, as duas conversavam por várias horas sobre diversos assuntos: escola, amigas, maquiagem e, obviamente, sobre como os garotos eram chatos.

— Bebel, me ajuda — gritou escandalosamente Magali, entrando na cozinha.

— Meu Deus — Bebel levou um susto, derrubando uma bandeja no chão. — Eu já falei pra você parar de me assustar com essas máscaras feias que você compra na loja da esquina.

— Que máscara? Que máscara, Bebel? — questionou Magali, aturdida. — São espinhas!

— Magali — disse Katarina, colocando a mão sobre o ombro da filha — Isso faz parte da puberdade, é natural, nem a Bebel pode resolver.

O silêncio permaneceu na cozinha. Bebel ficou pensativa. A mãe de Magali pegou algumas bolachas do pote de vidro no armário.

— Posso sim, dona Katarina — retorquiu Bebel.

— Eu não disse que a Bebel sabia resolver? — gritou Magali, eufórica. — Ela sabe fazer magia, mamãe.

Dona Katarina cerrou os olhos. — Olhe... Eu não vou me responsabilizar — disse ela, saindo da cozinha furiosa e comendo algumas bolachas, que por sinal já estavam um pouco duras.

— Vamos começar — disse Bebel, sorridente.

Bebel começou a fazer uma mistura na maior panela da cozinha. Magali por um momento, vendo Bebel selecionando os ingredientes e buscando outros elementos na dispensa, imaginou que estava participando daqueles programas da TV sobre cozinha.

— O que você vai passar no meu rosto? — quis saber ela.

— Uma pasta que minha falecida mãe usou em mim — comentou Bebel. — E, é claro, funcionou que foi uma beleza.

— Então passa logo em mim, Bebel. O que tem nessa mistura?

— Tem cachaça, vodca, álcool de farmácia, cebola, alho, pimenta, açúcar e outras coisinhas.

Trinta minutos depois a pasta ficou pronta. Bebel e Magali aguardaram alguns minutos para o produto esfriar.

— Será que vou ficar que nem as modelos da televisão, Bebel?

— Magali, por favor, isso aqui não é o laboratório da Avon, querida — comentou Bebel.

Houve um silêncio.

Magali fitou Bebel de cima a baixo.

— Então, quando sua mãe passou isso na sua face, você ficou bonita?

— Muito bonita. Maravilhosa, meu bem.

— Então o efeito da pasta não dura muito — comentou Magali.

Bebel fez um bico, descontente, mas, como já estava acostumada com os comentários afiados de Magali, nem se abalou muito.

A pasta esfriou, tornando-se algo bem parecido com musgo do pântano, verde e fedorento. Bebel começou a passar a mistura esverdeada no rosto de Magali. Ela já sentia seu rosto formigar.

— Ai. Ai. Tá ardendo, Bebel.

— Então vai funcionar, pois tem que arder bastante.

— Não se preocupe, faço tudo pela beleza, Bebel. Tenho que ficar perfeita logo... Imagine se eu apareço dessa maneira no colégio, serei alvo de piadas e brincadeiras.

— Não se mexa muito. E se acalme.

— Se isso não funcionar, acho que vou me trancar dentro do meu quarto e esperar um príncipe me salvar — disse Magali.

— Como? Então você vai apodrecer lá dentro, meu bem — comentou Bebel.

— Por quê?

— Você mora na vida real, e os príncipes no mundo das fadas.

Magali hesitou e sorriu. — Nada a ver, ele pode vir até mim daqui a alguns dias, pois passou no jornal da tarde que o valor da passagem de ônibus vai diminuir logo, Bebel.     

Bebel riu. — Você pode ter razão. Olha aí, terminei. Agora você tem que repousar por duas horas. E no fim estará maravilhosa.

— Claro, não vejo a hora de estar bonita novamente.

Magali foi deitar esperando que depois de duas horas seu rosto já estivesse perfeito. Porém, duas horas depois, não tinha melhorado nada, só havia piorado a situação.

O rosto de Magali estava inchado. Não se via mais seus olhos, seu rosto estava parecendo uma bola de gordura de boi.

 — BEBEL — gritou Magali ao entrar na cozinha. — Bebel!

Não havia ninguém na cozinha.

Magali entrou na estufa. Katarina, sua mãe, gostava muito de flores e, por isso, a tardezinha cuidava das plantinhas de jardim.

— Mãe!

A mãe quase caiu pra trás ao ver o rosto da filha. — Jesus! Cadê seus olhos, menina?

— A pasta que a Bebel passou no meu rosto fez um efeito nada agradável de ver no espelho, mamãe.

— Eu não lhe avisei, mas ninguém me escuta nesta casa, quando seu pai souber... Não quero nem pensar nisso agora. O que é que tinha nessa pasta, Magali?

— Não sei bem. Cachaça, álcool, pimenta...

— Pimenta? Você é alérgica a pimenta.

— Eu me esqueci desse detalhe. — Magali começou a girar, rodou e rodou, derramando lágrimas.

— Pare com isso, agora não adianta chorar — advertiu Katarina. — Está vendo o que dar ser tão vaidosa. Agora vamos ao médico antes que você se transforme em um mutante, Magali.

Katarina levou Magali ao médico e tudo foi resolvido. Ela foi medicada com um xarope e uma injeção. A pedido da mãe, o médico explicou algumas coisa para Magali e informou que ela teria de conviver com essas transformações, espinhas, pelos, e outras mudanças no corpo, por mais difícil que fosse. São coisas da fase, garantiu o médico, no fim.

4
O psicoterapeuta vislumbrou Magali sentada no divã e meditou sobre o que acabara de escutar ou, mais acertadamente, vislumbrar. — Uma imaginação muito fértil, senhorita Magali. Realmente acreditou que fosse morrer por causa das espinhas?

— Por um momento, pensei que sim.

O psicoterapeuta assentiu. — Bom, nosso tempo está acabando e, então, novamente, o que tenho a dizer é o seguinte, até agora, depois de tudo que você me disse, nesta sessão e nas outras, não vejo loucura em lugar nenhum. O que realmente vejo, e você deve ver todos os dias diante do espelho, são a excentricidade e a euforia compulsiva de uma mulher inteligente e corajosa... e um desejo, por parte dela, em viver “loucamente” a vida.

Magali sorriu. — É nisso que eu acredito.

— Já tinha noção disso?

— Absolutamente, doutor.

O psicoterapeuta sobressaltou-se. — Agora você me deixou encabulado.  És uma figura e tanto... Por que gasta seu dinheiro nestas sessões? Qual o verdadeiro motivo que a trás a este consultório, senhorita Magali?    

Magali sorriu, novamente. — O motivo é você.

— Como disse?

— Desde que vi sua foto numa matéria no jornal, quis lhe conhecer na mesma hora. Fiquei fascinada por você, então procurei o endereço de sua clínica no catálogo e marquei um horário com a recepcionista por telefone. Na primeira sessão, tive que me controlar para não beijá-lo, você é um gato, um psicoterapeuta tão jovem e robusto... Oh, por favor, não pense que o que lhe contava sobre mim nas sessões era mentira, tudo é a mais pura verdade. Talvez tenha omitido algumas coisas para proteger as identidades, não quero ser processada pelos meus familiares. 

— Claro, sem processos. 

— Enfim... O que leva nossa conversa ao ápice. Posso tirar uma foto contigo, doutor Alan Brent? Sou sua fã.

O psicoterapeuta piscou, aturdido.

— E se o senhor fizer uma dedicatória muito legal sobre mim, agradeceria — disse Magali.

— Eu estou realmente transtornado.

— Todos os homens ficam assim, deve ser algo biológico. Para resolver esse problema é só dizer sim, doutor Alan Brent.

O psicoterapeuta levantou-se.

— Compreendo. Realmente é uma mulher extraordinária... Uma fã, não é mesmo? Mente divertida, a sua. Tenho quase 40 anos e já li muitos livros, recebi alguns prêmios, dei entrevistas, participei de debates e de algumas pesquisas na área, e não vi nada parecido com o que vejo na minha frente hoje. É a primeira vez, pelo menos.

Magali assentiu. Talvez fosse uma mulher especial, única. Ela riu da situação.

— E então, doutor?

O psicoterapeuta analisou mais uma vez a mulher no divã. 

— Eu realizarei o seu pedido.

Magali puxou uma máquina digital da bolsa.

— Mas antes uma pergunta.

— À vontade. Ah, mas nada de perguntar se eu sou louca, entendeu?

O psicoterapeuta sorriu. — Não, nada disso. Na verdade minha pergunta é algo bem simples: com que frequência você apronta essas excentricidades?  

— As loucuras?

— Sim.

Ela deu risada. — Todo o tempo, doutor.


5
O apartamento de Suzi ficava no bairro Amaralina, ao leste do centro de Bom Jesus da Lapa. Suzi sentou no sofá e ligou seu laptop.

Já fazia alguns dias que não via Magali. Ela não atendia o celular nem telefonava para dar notícias e não aparecia na agência. Suzi já temia o pior. Será que ela foi internada num hospício?

Durante um almoço no restaurante, onde lendo uma matéria no jornal da cidade, Suzi viu a entrevista de Alan Brent, psicoterapeuta há anos. Mostrou a foto dele, ao lado da entrevista, para Magali. E ela disse: "Nossa, ele bem bonito, Suzi, com certeza deve ser mais bonito pessoalmente, não acha?". Então, sem pensar duas vezes, Suzi brincou: "Aposto que você não teria coragem de tirar uma foto com ele e, ainda mais, fazê-lo fazer uma dedicatória amorosa pra você". Magali pigarreou: "Como disse?" E a frase que desencadeou tudo: "Você não tem coragem, Magali".

Por um instante, Suzi sentiu-se culpada pelo que havia feito, mas foi somente por um instante mesmo, pois visualizando seu e-mail no laptop, Suzi havia recebido uma nova mensagem de Magali.

Junto à mensagem, em anexo, havia uma fotografia. Nela, Magali segurava uma caneta e uma folha de papel do bloco de anotações do psicoterapeuta, e ele, Alan Brent, sentado atrás de uma mesa de mogno, sorria.

Abaixo da fotografia, a legenda:

Para Magali, minha fã número 1.
Apreciei te analisar. Você, certamente, mexeu comigo de alguma forma. Beijos!

Em seguida, a mensagem de Magali:

Oi, amiga.


Almoço amanhã. Traga o dinheiro. Tudo foi incrível! Viu o novo entrevistado no jornal da cidade? Talvez eu possa fazer novamente — o novo prefeito é muito lindo.



Abraço, Magali 


Suzi fechou o laptop e deu risada.
Ah, Magali e suas loucuras!

Comentários

  1. Bastante divertido, fiquei curiosa para saber qual seria essa aposta e onde ela levaria!

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  2. Esse "meu bem" é identidade sua já, cara.
    Que figura essa mulher.kkkkk

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