Terno preto, gravata vermelha estampada, camisa branca impecável. Antônio checou sua própria aparência no espelho uma última vez, suspendeu o cinto, ajeitou uma mecha de cabelo rebelde e finalmente deixou o closet, passando pelo quarto apressadamente, os sapatos fazendo toc-toc no chão de porcelanato. Conferiu o relógio: seis e meia. Estava em tempo.
Ao entrar no carro, percebeu que os retrovisores estavam totalmente desajustados. Claro, pensou, Leonor usou o carro ontem, bagunçou meus retrovisores todos. Bom, homem casado que era, não podia ter preciosismo com seus bens, que àquela altura já eram tão dela quanto dele; limitou-se a suspirar e ajustar pacientemente os retrovisores, entrando numa reflexão existencial sobre matrimônio e compartilhamento da vida.
Ao sair da garagem e ganhar a rua, vislumbrou um céu de chumbo nada convidativo, e para evitar que seu humor ficasse também acinzentado, ligou o rádio. O som explodiu nos alto-falantes, que diabo, Leonor só ouvia música alta, pensou Antônio, reduzindo de supetão o volume e tirando a sintonia daquele sertanejo meloso e colocando na sua estação favorita. Como uma bênção, a voz marcante de Belchior preencheu o carro, dizendo que foi “com medo de avião que eu peguei pela primeira vez na sua mão”. Antônio sorriu, apertando o acelerador e em seguida trocando rapidamente a marcha, prestando atenção na letra que já conhecia de cor.
Ao contrário do eu-lírico de Belchior na canção, Antônio não tinha medo de avião, pelo contrário, fazia constantes trechos aéreos a trabalho e adorava o momento mágico em que as aeronaves deixavam o solo, concretizando o que considerava um milagre de Deus. Por outro lado, sua mão chegara à de Leonor pela primeira vez, nove anos antes, também através de um medo: o de perder o pai, entre a vida e a morte numa cama de hospital. Antônio relembrou vividamente a ocasião: de licença do trabalho para cuidar de um pai praticamente moribundo, recebera a visita de Leonor, então apenas uma colega, e, emocionado, chorara copiosamente ao falar de seu drama, recebendo em apoio um abraço caloroso. O coleguismo virara amizade, depois namoro, e, enfim, casamento. Imerso em lembranças do começo de sua relação com Leonor, Antônio foi surpreendido pela buzina de um carro no qual quase encostara ao mudar de faixa, voltando à realidade.
A música de Belchior terminou, sendo substituída pela voz de um locutor que começou a trazer manchetes curtas, já anunciando em seguida uma outra música. Antônio não prestava mais muita atenção. Oscilava entre os meandros do trânsito e pensamentos difusos em sua esposa. Às vezes ela o cumprimentava de maneira muito carinhosa pela manhã; às vezes era ele que o fazia; às vezes os dois davam “bons-dias” protocolares e sem muita paixão. Por que tinha de ser assim? Por que, de um dia para o outro, as coisas podiam variar tanto? Antônio lembrou-se do aniversário de dois anos de casamento, quando passaram um final de semana a sós viajando, comemorando em jantares íntimos e transas em deliciosas camas de hotel, tão ardentes e passionais quanto às da época do começo de namoro. Se havia sido assim, por que, no aniversário de casamento do ano seguinte, ele só lembrara da data dois dias antes e a comemoração não passou de uma garrafa de vinho? E se o terceiro ano fora assim, por que no quarto a comemoração havia sido, novamente, calorosa? Por que as coisas variavam tanto?
Intrigado e reflexivo, Antônio dirigia, chegando ao trabalho ainda avoado e pensativo. Ao entrar no elevador, cumprimentou as pessoas que nele já estavam de forma automática e sacou, mecanicamente, o celular, olhando o aplicativo de mensagens sem se dar conta do que estava fazendo. Tinha na mente os olhos castanhos de Leonor, a maneira dúbia como haviam olhado para ele durante uma conversa comum durante o jantar do dia anterior, antes que ela saísse e voltasse só de madrugada. Não era do feitio dela, mas de vez em quando todos fazemos essas loucuras. “Sair com as amigas”… será que ela o estava traindo?
Antônio deixou o elevador, chegando à empresa onde trabalhava, dando bons-dias protocolares. Olhou novamente o celular. Nenhuma mensagem de Leonor. Por que ela não havia dito nada ainda? Será que estava dormindo? Se estivesse, teria conseguido uma folga no trabalho ou havia simplesmente perdido a hora? O que realmente ele sabia sobre a mulher que dormia ao seu lado?
- Antônio, bom dia. Preciso que você revise um contrato que precisa ser despachado hoje – disse simplesmente Fabiana, uma das assistentes comerciais daquele departamento, ao ver Antônio entrando na sua sala.
- Tudo bem, pode trazer – disse Antônio distraidamente, fechando a porta atrás de si.
O casamento tem tanta coisa, tantas vivências, tantos altos e baixos, que cada coisa individualmente acaba perdendo importância, pensou Antônio, sentando à sua mesa e ligando o computador. Ele já traíra Leonor algumas vezes, motivado por momentos de desinteresse matrimonial ou mesmo alguma provocação extrema por parte de um rabo de saia mais chamativo. Procurava não transformar esquemas pontuais em casos, affairs, como se diz, para evitar problemas maiores, e sempre fora discreto em todas as puladas de cerca. Será que ela já havia feito algo assim? Será que fizera na noite anterior? Bom, realmente importava? Ela parecia satisfeita com o casamento. Procurava-o sexualmente com boa frequência, parecia satisfeita na cama, costumava contar com ele como confidente e sempre ressaltava o quanto o marido era carinhoso. Sim, pensou Antônio, tenho meus defeitos, às vezes eu a negligencio, mas eu a amo, quero bem a ela, sou carinhoso. E sexualmente estava tudo ótimo! Qual poderia ser o problema?
- O que mudou foram as cláusulas três, quatro, sete e doze – ia dizendo Fabiana, apontando no contrato as alterações realizadas. Inclinada sobre os papéis, franqueava ao observador chefe um razoável decote que já lhe havia chamado a atenção antes. Às vezes achava que Fabiana estava lhe dando bola, às vezes não; Antônio tinha preguiça de tentar descobrir a verdade, e, sinceramente, para que abusar da sorte buscando um esquema fora do casamento outra vez?
Quando Fabiana finalmente saiu da sala, Antônio pegou-se novamente visualizando os olhos de Leonor e tentando lembrar dos detalhes da conversa da noite anterior. Gostava do jeito que ela pegava nos cabelos. Será que se ela topasse uma transa a três ele sossegaria o facho da traição? Ela nunca quisera, era heterossexual convicta e não aceitava que o marido transasse com outra na mesma ocasião que com ela. Bom, uma pena, se não é na mesma ocasião, que seja em ocasiões diferentes e sem o conhecimento dela. Assim vinha sendo, pelo menos, mas não nos últimos meses, durante os quais Antônio mal olhara para outras mulheres. Até que ponto Leonor olhava para outros homens?
O telefone tocou. Antônio visualizou o número de Leonor e atendeu:
- Oi, meu amor, bom dia! Tudo bem?
- Tudo! - a voz era cansada, mas lampeira, na medida do possível. - Combinei de chegar mais tarde no trabalho hoje, então aproveitei pra dormir um pouco mais. Como está você?
- Tudo bem, já estou no trabalho. Tudo na paz.
- Tá certo. Vou deixar você trabalhar, que bom que está tudo bem. Eu te amo, viu? Amo muito!
- Eu também, meu amor. Até mais. - sorrindo, desligou.
Pois então, lá estava Antônio, despreocupado com a possível traição sofrida e os pontos baixos dos anos de casamento: com um sorriso de canto de boca, lembrava-se do “eu te amo” da esposa, e o sentira tão sincero e tão alegre que, por aquele momento, era o que bastava.
Gosto dos seus contos românticos, eles são leves e genuínos! Esse retratou bem o cotidiano de uma relação...
ResponderExcluirMan, que texto bem estruturado e bonito. Caramba!
ResponderExcluirOlhando para ele, parece que to lendo alguém de séculos atrás.
Parabéns!!!
"O que realmente ele sabia sobre a mulher que dormia ao seu lado?"
A gente não sabe nem da gente direito, né verdade? rs
Luquete muito bom mesmo quando se trata de cotidiano vc apenas broca demais.
ResponderExcluirMuito bom, me lembrou um texto meu sobre ansiedade, momentos em que nos pegamos pensando e criando as mais diversas situações, mas que são esquecidos facilmente quando estamos com *a pessoa*. Me identifiquei, adorei.
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