- Coragem, meu irmão, coragem. Você já passou por isso antes - disse Hermes, colocando as mãos nos ombros de Rubens e dando-lhe uma sacudidela a fim de reforçar suas palavras.
- Muitas vezes - disse Rubens, exalando a fumaça do cigarro para o lado, sem encarar o irmão de frente.
A vista era bonita, ou, pelo menos, impactante: da ventosa cobertura de um prédio residencial com mais de vinte andares, os irmãos podiam ver uma movimentada avenida e uma massa de prédios atrás dela, formando um muro através da qual o sol, em declínio, tentava penetrar num fim de tarde especialmente frio, sem muito sucesso.
- Pois então, meu velho - disse Hermes, procurando o olhar de Rubens e dando um sorriso encorajador. - quem já passou por tudo isso, passa por mais, aguenta, retorna. Não é?
- Estou cansado, Hermes - disse Rubens, atirando o cigarro para o lado sem se preocupar em apagá-lo. - já perdi um filho, já acabei com casamento, já passei anos sem trabalhar com o que eu gostava, já dei perda total num carro, aliás, dei não, o acidente não foi culpa minha. Já aconteceu de tudo comigo, eu realmente estou cansado.
Hermes crispou os lábios: sabia do sofrimento do irmão.
- Existem coisas além desse plano que nós não compreendemos, meu irmão, você sabe disso.
- Sei, e daí a minha revolta - redarguiu o outro, o olhar perdido na massa de concreto, uma réstia de sol entre dois prédios banhando-lhe o lado direito da face. - Gostaria de compreender.
- Quem sabe? - Hermes encostou na balaustrada, deixando o olhar vaguear pela paisagem, enquanto o irmão tinha um apático e sofrido olhar para um ponto fixo, provavelmente aleatório. - Talvez a gente chegue lá. Mas até esse dia, esse ponto, só podemos procurar evoluir, meu irmão.
- Estou evoluindo ou voltando atrás? - Rubens virou-se para o irmão repentinamente, encarando-o. - Depois de tanta coisa, será que ganhei experiência, como você costuma dizer? Ou só fiz apanhar no lombo à toa? O que eu fiz pra merecer tanta coisa, logo eu, que não faço mal a ninguém, eu que não faço nada sem nota fiscal.
- Sempre evoluindo - a voz de Hermes era tranquilizadora, porém firme, certeira, segura. - Tudo que acontece de ruim com a gente também é bom, porque é evolução.
- Ha. Fácil para você dizer isso, logo você que tem um casamento maravilhoso e acertou na carreira desde o dia que colocou o pé na faculdade. Logo você, que...
- Não me julgue - interrompeu Hermes, firmemente. - Você não sabe de muita coisa.
Silêncio. O vento pareceu aumentar de intensidade, ficando mais frio à medida em que o sol declinava mais.
- Desculpe - disse Rubens. - Não posso te julgar nem quero te ofender.
- Tudo bem, meu irmão.
- Mas eu realmente estou muito cansado.
O silêncio permaneceu; Hermes não tinha muito mais o que dizer. Suspirou, resignado. Já tivera conversas parecidas antes, mas a cada vez, parecia que o desgosto de Rubens crescia, e quem poderia culpá-lo?
- Está vendo aquela igreja ali? - perguntou Rubens, apontando para uma igrejinha numa rua lateral da avenida, um pouco afastada da massa de prédios.
- Acho que fui a um batizado ali uma vez.
- Aquela igreja - disse Rubens, brandindo o dedo enquanto formulava uma frase, reunindo sentimentos diversos. - Aquela igreja, como toda igreja, tem sinos. Em determinados momentos, os sinos tocam, sempre, sem falhar, sempre os sinos tocam, ou dobram, como se diz, os sinos dobram. Sempre, chovendo ou fazendo sol, em toda igreja do mundo, tem esses sinos tocando, ou dobrando.
- Sim, e...?
- Por quê? - Rubens gesticulou, espalmando as mãos, subindo o tom. - Por quê esses benditos sinos dobram? Ou por quem? Por quem os sinos dobram, Hermes? Por que e por quem estamos todos aqui, dobrando e fazendo barulho, faça chuva ou faça sol?
- Você falou o nome de um livro agora. "Por quem os sinos dobram". Mas...
- Foda-se, nunca li esse livro, Hermes! - Rubens movia-se, inquieto, com o olhar voltando sempre à igreja. - Por que diabos as igrejas seguem tocando esses sinos, e porque nós todos, mas principalmente eu, gente como eu, se parece com esses sinos, metal apanhando, resistindo, mas fazendo barulho, dobrando, porém sem sair do mesmo eixo. É impressionante, estou pensando nisso tudo agora, mas somos que nem esses malditos sinos!
Hermes tinha um meio sorriso no rosto, mas permaneceu calado, olhando para o irmão.
- E outra - prosseguiu Rubens, o cenho franzido. - Os sinos não sabem o porquê de serem sinos, de estarem ali, dobrando todo dia e toda hora, fazendo sempre o mesmo barulho e se mexerem, mas sem sair do mesmo eixo, ou seja, de estarem fazendo as mesmas coisas no mesmo lugar e provavelmente sofrendo do mesmo jeito. Se tudo é assim, precisamos saber o porquê! Saber por que, por quem, como.
Ainda calado, Hermes sorria, acompanhando a fala do irmão com pequenos grunhidos e gestos faciais.
- Por quem os sinos dobram, Hermes?
- Não espere que eu responda à sua pergunta, meu irmão.
- Não esperava mesmo. Não uma resposta direta, pelo menos.
Hermes riu com gosto, e Rubens, sem perceber, começou a rir também. O sol já estava quase sumindo e as luzes dos apartamentos começavam a acender, enchendo o panorama de pálidos pontos de luz.
Às vezes, o que buscamos não é a resposta para as perguntas sem resposta da vida, mas sim o caminho que se faz entre quem pergunta e quem para para ouvir a pergunta. =)
ResponderExcluirUm ouvido, mesmo sem resposta, é um abraço confortável.
Excelente texto, para variar.