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Arremesso na Sexta #8: Pascoal e Aroeira

- Já está gravando?

- Sim, deputado. Bom, primeiramente devo agradecer ao senhor, deputado Aroeira, por me receber hoje. Como eu informei ao senhor, é uma entrevista informal, podemos conversar normalmente.

- Bom, se a ideia é essa, posso te chamar de Pascoal, então?

- Claro que pode, deputado. Gostaria de começar perguntando sobre o projeto de lei que o senhor tem apoiado, sobre...

- Um momento. Desculpe interromper, mas bom, se é uma conversa informal, acho que não tem problema, é que eu queria perguntar uma coisa primeiro.

- Habitualmente, eu faço as perguntas, deputado, mas...

- É, mas não é uma conversa informal? Então. É coisa simples, Pascoal, eu sempre tive essa curiosidade: você é sobrinho, filho, neto daquele outro Pascoal, que foi secretário de infraestrutura uns quatro governos atrás? O que morreu de ataque cardíaco? Percebi a semelhança no nome, você até parece um pouco fisicamente.

- Bom, sim, era meu tio.

- Nossa, que coisa! Matou minha curiosidade. Que coisa interessante, não? O tio dedica décadas à vida pública, ocupou vários postos no executivo estadual, o sobrinho vira repórter político. É de família? Vá, não precisa rir, responda, rapaz. É veia de família, isso da política?

- Desculpe o riso, deputado, mas parece que eu é que estou sendo entrevistado. Sim, acho que minha família tem uma ligação com política. Podemos voltar à minha pergunta?

- Olhe, Pascoal, poder voltar, nós até podemos, mas se a pergunta é sobre o projeto de lei, não sei se eu tenho mais o que responder. Já falei muito sobre isso, dei declarações, dei outras entrevistas. Estou de saco cheio, na verdade. Falar tantas vezes sobre a mesma coisa é um porre!

- Deputado, lembro ao senhor que essa conversa está sendo gravada; as palavras que o senhor disser eu vou usar.

- Mas você vai publicar essa parte que eu te perguntei algo sobre você?

- Acredito que o editor não vá aprovar, mas...

- Bom, então o conteúdo da entrevista não vai ser integral! Se o jornal pode cortar o que não interessa a ele, posso cortar o que não interessa a mim. Sabe, eu tive uns problemas com jornais há um tempo, você deve, inclusive, saber disso, e agora mudei minha atitude em entrevistas: eu também gravo tudo.

- Essa... o senhor está gravando nossa entrevista também? Agora?

- Sim, estou gravando tudo, e digo a você: só autorizo a publicação dessa entrevista se for integral. Ou melhor, do meu jeito. Se você não cortar o que eu quiser, mas cortar o que interessar a vocês, vou processar o jornal, vocês não podem mudar o conteúdo.

- Mas deputado, será justamente o conteúdo integral de sua fala o que vamos publicar, o senhor não pode nos processar por isso! E se publicarmos integralmente, vai aparecer também a ameaça do senhor. Ter no jornal uma pergunta do senhor sobre mim não é nada demais se comparado à possibilidade de publicar um deputado falando palavrão e ameaçando um repórter!

- Há! Você estava certo até dizer isso. Se você for publicar a entrevista integralmente agora, a sanha do seu jornal por escândalos vai ficar bem evidente. Não acho que você tenha se portado de forma profissional agora. O que me diz? Nada? Pois é, garoto, agora você não pode publicar integralmente porque vai pegar mal, e nem cortar só o que não interessa porque eu não vou permitir. Nós vamos continuar essa entrevista e só vai sair no jornal o que for conversado daqui pra frente, entendeu? Até agora não houve conversa, não existiu, esqueça.

- Bom... Bom, acho que é isso mesmo. Então vamos recomeçar...

- Recomece, mas sem falar daquele projeto de lei, veja bem. Vá lá, inicie sua entrevista, pergunte. Que atrapalhação você com essas anotações. Pule o assunto, vá, pergunte, homem!

- Eu não sei se podemos continuar dessa maneira. O senhor destruiu a proposta da entrevista, acho que...

- Você é mole demais. Estou aqui, numa boa, posso responder sobre qualquer outra coisa. Só por conta daquele entrevero e de termos que pular o assunto do projeto de lei, você se perdeu, está falando em destruição da proposta... Que conversa é essa? Você é formado?

- Como? O senhor está me ofendendo...

- Não, quem me ofende aqui é você, garoto. Eu dedico um horário da minha agenda a esta entrevista, você se recusa a cortar uma pequena parte da minha fala, toma o revés, se desarticula e quer cancelar a entrevista, e eu fico aqui a ver navios? Você me ofende, Pascoal!

- Eu não havia pensado assim, mas veja, o senhor há de convir que...

- Hei de convir que você destruiu a proposta desta entrevista, agiu de forma antiprofissional, me ofendeu, deixou gravado algo que não deveria, se atrapalhou... Enfim, você fez um péssimo papel aqui hoje. Não sabia que sua forma de fazer jornalismo era tão amadora.

- Realmente temos de parar depois disso...

- Sim, realmente temos, que bom que você desligou o gravador, finalmente, hein? Bom, eu não desliguei o meu, vá-se embora de uma vez e torça pra isso não cair em mãos erradas. “Pascoal, uma estrela em ascensão”... que palhaçada. Sinceramente...

- Bom, deputado, já vou indo, desculpe a confusão...

- Vá, Pascoal, aprenda mais um pouquinho e depois me procure, quem sabe eu consiga um horário pra uma entrevista decente, se você for capaz. E tem mais uma coisa.

- O quê?

- Seu tio era campeão em fraudar licitações. Sugiro que seja sua próxima pauta.

Comentários

  1. Socorro esse texto viu? esse jogo de manipulação feito é quase revoltante! Senti eu mesma vontade de pular para dentro da tela e defender o jornalista, mas já não sei se seria prudente defendê-lo! Muito bom!

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  2. Esse era um verdadeiro ladrão de mentes... fez o rapaz acreditar que era um merda, sendo que o main shit era ele, pra variar.
    Valeu a leitura, master.

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  3. Gostei muito do conto feito todo no diálogo! Gosto desse estilo! Espero que Pascoal dê a volta por cima e consiga em um outro conto deixar o deputado Aroeira sem argumentos...

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  4. SENSACIONAL! Sen-sa-cio-nal.
    Lucca, a personalidade antagônica dos personagens foi construída de forma perfeita. Convence muito! A fala manipuladora e cínica do deputado; o constrangimento de Pascoal; a reversão de papéis - embora errônea, sabemos. Menino... Jogou duro, viu? Favoritei esse, aí!

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  5. Ps.: Joga esse conto em alguma coletânea, concurso literário, script pra filme! Na boa. Rs!

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