I
Amir chegara cansado do trabalho e então sentou-se na poltrona de forro arrebentado.
Estirou os braços até os sapatos e os removeu como quem retira bolas de ferro dos pés. Coçou os tornozelos sob as meias surradas e então entregou as costas ao recosto do assento. Olhando para o telhado, lamentava a própria rotina. Era só mais um final de dia.
Na mesa, onde sentava-se sozinho para comer, encheu uma xícara – já sem alça – de café, depois encheu o café com muito leite em pó, daí encheu o café esbranquiçado de bolacha seca, quebrou-a com uma colher e comeu.
Na companhia apenas de vãos calados e adornados por móveis esquecidos, das paredes descascadas, às quais prometia reparo, mas não hoje, e do silêncio de uma casa morta, o qual parecia palpável e estranhamente vivo, Amir permanecia calado. Ainda debruçado sobre a mesa, separava a correspondência entre contas, panfletos dos Testemunhas de Jeová e cartas de parentes, as quais sempre deixava para responder depois, quando tivesse tempo:
— Hoje não. Depois respondo –, dizia.
— Talvez responda –, retrucava sua companheira, que o observava da quina da parede da cozinha enquanto cutucava as unhas.
II
Surdo aos sutis conselhos que a vida lhe dava, vindos daquela voz quase imperceptível que todos nós ouvimos em sussurros metafísicos, Amir se mantinha firme em seu inconsciente comprometimento em ser um autômato homem: acordava, pegava o trem na Calçada, descia em Paripe, então, ao entardecer, fazia o mesmo trajeto de volta ao seu quadrado, o qual tinha por obrigação, e com sucesso, o dever de mantê-lo a salvo de uma leve e esquecida coisa chamada Vida.
Sentado no batente da porta, Amir ia lá no horizonte com seus pensamentos. Enrolava uma pacaia e observava as pessoas indo e vindo pela rua, umas a caminho da igreja, outras indo ao colégio, algumas indo namorar, mãos dadas, ajeitados, e ele até pensou em tentar alguma coisa, como ir à academia ou caminhar na Ribeira, mas logo abortou o pensamento, deixando-o para outro dia:
— Hoje não, que estou cansado. No sábado, talvez.
— É, talvez –, respondeu-lhe a companheira, mas ele nem notou.
Pacaia na boca, fumaça no pulmão e uma sensação de preenchimento instantâneo. Uma leve tosse. O homem lembra que não vai ao médico há 5 anos, limite propriamente estabelecido, e pensa que poderia fazer isso na próxima sexta, mas lhe vem uma preguiça absurda e sua cabeça lhe cobra tantas pendências que ele logo desiste da ideia:
— Isso espera mais um pouco. Em setembro, talvez, eu dê uma chegada no médico.
— Sim, talvez em setembro –, ironizava a voz da moça, que ria com o canto da boca que também sustentava uma pacaia.
III
Domingo, um dia bonito, e Amir levanta às 10 h, bota Paralamas do Sucesso no toca-discos e se entrega à poltrona; janelas ainda fechadas, a porta trancada, e o único intruso em seu lar é a luz solar que entra pelas frestas de uma janela e deixa seu rostro poeticamente listrado de trevas e sol e deixa também seus olhos castanhos mais claros, os quais miravam, estáticos, uma parede aleatória da sala enquanto o homem pensava nos credores do mês, fazia contas, e achava que as coisas iam folgar um pouco, pois já chegaria dezembro. Ouvindo Amir pensar alto todas estas coisas, sua companheira, deitada de barriga para cima num tapete sem cuidados, olhava para o telhado e cantarolava entre muxoxos:
— Taaal~veeez, Amir, taaaal~veeez~zeis~zeis.
Ainda vidrado na parede, mas com a cabeça longe, o homem agora dava espaço a outro pensamento: Inês, a mulher mais bonita que já havia visto em toda a sua insossa vida. Inês, sua colega de trabalho, olhos pretos como a noite, de sorriso gentil e saias no joelho que deixavam suas panturrilhas tão formosas… Inês, solteira, sem filhos, na casa dos trinta, assim como ele, que gostava de bingo em asilos, de colecionar azulejos e cantarolar bossa-nova nos corredores da repartição. Inês, seu ideal de amor-perfeito, cuja mão pensava em pedir todos os dias, para a qual sempre comprava uma rosa de um vendedor no trem – e no trem mesmo deixava-, mas a quem nunca rendera uma palavra sequer fora dos usuais “Bom dia” e “Boa noite”. Mas, dessa vez, talvez por causa da luz primaveril que lhe aquecera os olhos castanhos numa manhã de domingo, Amir havia tomado coragem e falaria com Inês, e isso seria amanhã, com quase certeza.
— Amanhã, Inês! –, disse o homem, entre suspiros e em bom som.
— Talvez, talvez –, gargalhou a mulher, sem um pingo de ciúmes.
IV
Mais uma manhã, fazia sol, os trens banhavam a atmosfera do bairro com sons de ferro sobre ferro. No corredor da repartição, Inês fazia cópias de algum formulário.
— Bom dia, Inês.
— Oi, bom dia! –, respondeu a moça.
— Eu sei que nunca nos falamos, então resolvi quebrar o gelo hoje.
— Ah, tudo bem –, respondeu Inês e observou:
— Não tem algo de estranho hoje aqui não? Parece que está faltando alguma coisa… ou alguém.
— Eu não sei. O que seria?
— Hum… não “o quê”, mas “quem”. Acho que é aquele rapaz da contabilidade, o Amir. Eu trabalho aqui há dez anos e nunca o vi faltar ou se atrasar para o serviço –, questionou, verdadeiramente preocupada.
— É, não o vi hoje também. Será que morreu? –, brincou perversamente, achando que seria engraçado, porém Inês prontamente fechou o semblante, mas outra pessoa, também perversa, que pegara a conversa pela metade, no corredor, cortou o diálogo entre os dois e arrematou, displicentemente:
— Talvez –, e seguiu pelo corredor com seu garrafão de água mineral sobre o ombro.
Na casa da esquina da Travessa Monteiro Lobato, catando seus pertences, os quais cabiam debaixo de sua própria capa preta, a companheira ajeitou-se, tomou Amir pela mão, este em estado meio catatônico, e ambos seguiram pela porta e portão, atravessando-os sem que eles estivessem abertos. Lá na esquina da Leonino Mariz, junto com a poeira que o vento e a lama seca produziam, os dois se esvaíram no ar.

O mago do Twist!
ResponderExcluirPobre Amir, morto em vida...
Um homem natimorto.
ExcluirA eterna procrastinação, Wiltalo genial !!!!!!!!!!
ResponderExcluir"... embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu."
ExcluirSarah Westphal Batista da Silva
Velho, velho, muito bom! Acho que foi um dos que eu mais gostei! E o final foi muito bem elaborado pq o leitor realmente acredita que ele finalmente pode estar falando com ela e depois no diálogo o cara entra falando "talvez" como resposta final... ficou muito bem colocado... Olha, parabéns! Você realmente tem uma vocação pra reinventar a morte...
ResponderExcluirTalveeez, DanDan, talvez~zez~zez...rs
ExcluirObrigado. <3
Rapaz! Esse texto está genial. Parece pouco, assim, escrevendo - com letra após letra, vírgula e ponto. Mas a minha vontade era a de estar com um megafone, dizendo: esse texto está genial! Meu favorito, seu, Witalo! Embora tenha gostado muito da suavidade do anterior também.
ResponderExcluirAcho incrível a sua tenacidade para escrever sobre a morte. Na verdade, para escrever sobre releituras a respeito dela. E a sua finesse em guiar o leitor para uma outra percepção quando a sua intenção é a de dar um arremate totalmente imprevisível, é muito apurada. Isso é Literatura (com L maiúsculo), meu amigo.
Fantástico!
Excelente. Todos temos que avaliar o quão temos essa procrastinação do Amir. O dizer "te amo", "fiquei com saudades", "que bom te ver"... para familiares e pessoas queridas. Amir não está só.
ResponderExcluirVários Amires por aí (posso até estar incluso neste time).
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