Solrac não tinha outro compromisso na vida senão o de levantar às cinco e meia da manhã, fazer café, colocá-lo na xícara e voltar para o quarto, abrir um discreto espaço entre as cortinas e espiar as janelas do prédio em frente. Rico por ter vendido um programa de computadores para uma empresa multimilionária, agora, aos seus vinte e dois anos, vivia do rendimento de aplicações e isto lhe bastava.
Seus olhos castanhos ficavam ainda mais claros com a tímida luz do sol atingindo-os, e neles se espelhavam as rotinas dos seus vizinhos, seu único deleite. Na solidão de Solrac, todas as pessoas observadas pela janela se tornavam objetos de sua admiração, dos quais assistia os costumes, vícios, brigas, preguiças, amores e solidões. Percebeu o rapaz que cada vida do outro lado dos vidros temperados parecia um programa de computador cujos algoritmos se repetiam incansavelmente: o homem do canto direito do quinto andar acordava às seis e saía às seis e vinte para correr, depois voltava, se arrumava e ia trabalhar, retornando à noite para ficar de frente à TV até dormir no sofá; a senhora do sétimo andar tomava chá às cinco e vivia perto do telefone, talvez esperando a ligação de alguém (que não ligava); o casal do oitavo andar tinha uma mania mecânica de brigar todas as sextas, e o marido sempre colocava as mãos na cabeça e depois ouvia-se um som de pneus cantando vindo do estacionamento do edifício.
Quando a cidade se calava e as janelas do prédio à frente iam se apagando, Solrac sentia uma dor no peito como a de uma criança deixada pelos pais no seu primeiro dia de aula. Deitava-se o moço, cobria seu corpo até a cintura e passava bom tempo fitando o teto branco do quarto, silencioso como a cidade à noite.
Nasceu mais um dia. Solrac levanta, tudo igual. Tudo igual até ouvir alguém bater na sua porta. Ele nunca esperava ninguém; não conhecia ninguém e seus parentes moravam a 1072km dele. Andou e parou perto da porta, como que duvidando da audição, e esperou para se certificar se as batidas eram mesmo em sua porta. Era. E não desistia.
- Solrac abriu a porta.
- Você tem açúcar?
- Tenho.
- Enche esta xícara para mim?
- Quem é você?
- Perdoe os meus modos. Meu nome é Eiree e eu não conheço ninguém aqui, então escolhi uma porta aleatoriamente e resolvi tentar a sorte. Você foi sorteado.
- Que sorte a minha… - ironizou Solrac, para si.
Conduzindo Eiree e a xícara de açúcar até a porta, Solrac permaneceu calado. Ao despachá-la, entretanto, não esperava receber algo que sequer lembrava mais do nome: afeto. Eiree abraçou-lhe simpática e carinhosamente, e nesse momento o olfato de Solrac pareceu explodir numa espécie de orgasmo, pois ele pôde sentir o perfume que exalava dos cabelos cacheados de Eiree, os quais tocavam seu rosto no instante do abraço.
Sem saber o que dizer, estático e atônito, Solrac esboçou um sorriso tímido e se despediu da menina. A porta foi fechada, o silêncio tornou a imperar na casa e o rapaz deitou-se, seguindo o mesmo ritual de sempre: olhar o teto. Diferentemente de outrora, Solrac tremia os cantos dos olhos de uma maneira estranha, como se um riso começasse a fervilhar lá no fundo de sua alma e estivesse a emergir, rompendo barreiras, pelos poros do seu semblante.
Dia raiou, tarde chegou, noite também, e Solrac já não observava mais, pela janela, as vidas do prédio vizinho; passava, agora, o tempo inteiro olhando pela fechadura da porta, imóvel, calado, tomando doses ansiosas de café, aguardando a perfumada hora em que Eiree fosse precisar de novo de açúcar, ou talvez de café, ou de vassoura, ou de qualquer coisa, e então lhe batesse à porta novamente.
E ela precisou.
Seus olhos castanhos ficavam ainda mais claros com a tímida luz do sol atingindo-os, e neles se espelhavam as rotinas dos seus vizinhos, seu único deleite. Na solidão de Solrac, todas as pessoas observadas pela janela se tornavam objetos de sua admiração, dos quais assistia os costumes, vícios, brigas, preguiças, amores e solidões. Percebeu o rapaz que cada vida do outro lado dos vidros temperados parecia um programa de computador cujos algoritmos se repetiam incansavelmente: o homem do canto direito do quinto andar acordava às seis e saía às seis e vinte para correr, depois voltava, se arrumava e ia trabalhar, retornando à noite para ficar de frente à TV até dormir no sofá; a senhora do sétimo andar tomava chá às cinco e vivia perto do telefone, talvez esperando a ligação de alguém (que não ligava); o casal do oitavo andar tinha uma mania mecânica de brigar todas as sextas, e o marido sempre colocava as mãos na cabeça e depois ouvia-se um som de pneus cantando vindo do estacionamento do edifício.
Quando a cidade se calava e as janelas do prédio à frente iam se apagando, Solrac sentia uma dor no peito como a de uma criança deixada pelos pais no seu primeiro dia de aula. Deitava-se o moço, cobria seu corpo até a cintura e passava bom tempo fitando o teto branco do quarto, silencioso como a cidade à noite.
Nasceu mais um dia. Solrac levanta, tudo igual. Tudo igual até ouvir alguém bater na sua porta. Ele nunca esperava ninguém; não conhecia ninguém e seus parentes moravam a 1072km dele. Andou e parou perto da porta, como que duvidando da audição, e esperou para se certificar se as batidas eram mesmo em sua porta. Era. E não desistia.
- Solrac abriu a porta.
- Você tem açúcar?
- Tenho.
- Enche esta xícara para mim?
- Quem é você?
- Perdoe os meus modos. Meu nome é Eiree e eu não conheço ninguém aqui, então escolhi uma porta aleatoriamente e resolvi tentar a sorte. Você foi sorteado.
- Que sorte a minha… - ironizou Solrac, para si.
Conduzindo Eiree e a xícara de açúcar até a porta, Solrac permaneceu calado. Ao despachá-la, entretanto, não esperava receber algo que sequer lembrava mais do nome: afeto. Eiree abraçou-lhe simpática e carinhosamente, e nesse momento o olfato de Solrac pareceu explodir numa espécie de orgasmo, pois ele pôde sentir o perfume que exalava dos cabelos cacheados de Eiree, os quais tocavam seu rosto no instante do abraço.
Sem saber o que dizer, estático e atônito, Solrac esboçou um sorriso tímido e se despediu da menina. A porta foi fechada, o silêncio tornou a imperar na casa e o rapaz deitou-se, seguindo o mesmo ritual de sempre: olhar o teto. Diferentemente de outrora, Solrac tremia os cantos dos olhos de uma maneira estranha, como se um riso começasse a fervilhar lá no fundo de sua alma e estivesse a emergir, rompendo barreiras, pelos poros do seu semblante.
Dia raiou, tarde chegou, noite também, e Solrac já não observava mais, pela janela, as vidas do prédio vizinho; passava, agora, o tempo inteiro olhando pela fechadura da porta, imóvel, calado, tomando doses ansiosas de café, aguardando a perfumada hora em que Eiree fosse precisar de novo de açúcar, ou talvez de café, ou de vassoura, ou de qualquer coisa, e então lhe batesse à porta novamente.
E ela precisou.
"Com açúcar e com afeto..." (Chico) Rs! - Como já lhe disse.
ResponderExcluirApenas enfatizando que adorei o texto. E que embora esteja na contramão do denso, não deixou de ser você - eu vi, sim, a sua essência na escrita. Arrisque sempre! :)
Adoro o apelo sensorial de sua escrita "aguardando a perfumada hora ..."
ResponderExcluirLindo, Carlos! Nesse mundo de portas fechadas e tanta gente atrás delas apenas esperando uma chance de encontro, você vem e faz uma escrita doce assim. Que suas histórias tenham sempre as portas abertas. Sua vida também. Cheiros. (Jana M.)
ResponderExcluir