Noite. Olhei sobre a sacada para as casas e prédios por algum tempo, a ponto de todos eles parecerem um enorme e lento pisca-pisca urbano, cuja árvore natalina era o breu noturno e as janelas, apagando-se e acendendo-se, de casa em casa, prédio em prédio, eram as lâmpadas, porém não tão coloridas como as que vemos no Natal; piscavam em branco e amarelo.
Madrugada, quase às duas, e a alma permanecia inquieta, o sono continuava sem vir e a cabeça, para variar, a repetir porquês. Numa mão uma caneca brinde da Copa cheia de café com leite, na outra um bloco de notas, pois esperava, para a noite em claro não se dar inteiramente por perdida, vomitar um pensamento ou dois, em prosa ou verso, que me rendesse um melhor olhar no espelho de mim mesmo e algum elogio, talvez, de qualquer leitor tão louco quanto eu.
Nada. Não saía nada. A caneca já vazia até caiu da sacada e perturbou uns dez cachorros da vizinhança. O relógio marcava a terceira hora do dia e... nada. Num golpe de desespero, vesti uma camisa qualquer, pus as sandálias, peguei minha vespa e saí pela rua; na cabeça, apenas uma boina italiana – meu crânio estava quente demais para meter-se num capacete.
Ver a paisagem ao meu redor passando rápido me trazia algum alívio; parecia que o mundo ia mais veloz do que meu pobre juízo e isso me confortava, como distrai qualquer sofredor ver alguém chorando mais alto que ele. Seguia numa via muito reta e, dado o horário, totalmente vazia; parecia não ter fim e não possuía em suas bordas outra paisagem senão arbustos, árvores, poucos postes de luz e desgastadas placas de trânsito.
Como parece uma lei universal o ditado que diz que "Quando a maré é de azar o urubu de baixo defeca no de cima", começou a chover muito forte e eu tive dificuldade para prosseguir com o meu passeio. Fui me aproximando do acostamento na esperança de encontrar, entre placas e vegetação, uma entrada à direita que me levasse a qualquer abrigo, pequeno que fosse, para conseguir esconder meu corpo do toró. Para a minha sorte, havia, a metros de mim, uma estradinha que dava num prédio largo e muito escuro.
Entrei na estrada de pedras que dava para o edifício, esse visivelmente antigo e sem um pingo de luz vindo de dentro. Não fossem as lâmpadas dos postes, teria passado direto e continuado com o meu vexame. Larguei minha vespa se molhando e fui me encolher no canto de uma porta que estava fechada e era recuada um metro para dentro do prédio; ela tinha a extremidade superior arredondada e o teto desse recuo seguia seu desenho. Como os pingos grossos e frios estavam em conluio com o vento e caíam com força e num ângulo de 45 graus, busquei o melhor lado do pequeno refúgio e lá resisti... digo, lá resistimos eu, o tempo eterno, a noite e todos os meus pensamentos que, para a minha “fortuna”, são à prova d'água.
Ainda estava escuro, muito escuro. Ainda chovia. Uma alma sequer não via passar por aquela rodovia à frente. Olhei novamente ao meu redor e só havia, do abrigo para fora, uma vegetação rasteira e falhada, com algumas máquinas velhas e enferrujadas sobre ela. Tinha também umas três ou quatro latas vazias de óleo, ervilha ou manteiga, as quais, recebendo os pingos de chuva, faziam uma melodia: tuk, tuk, tak, tik, tuk, tak, tak tak, tik ... e pela primeira vez na noite eu sorri.
A harmonia da Banda das Latas foi interrompida por um trovão aterrorizante. O trovão aterrorizante, por sua vez, foi interrompido por uma tosse seca vindo de um arbusto à minha frente, lado direito, detrás de um trator oxidado e destruído.
- Quem vem lá?, gritei curioso.
- Já me apresento - respondeu a voz.
Era uma voz feminina, talvez de uma senhora de setenta anos. Como a luz do poste não iluminava generosamente aquele lado, vi-a sair das sombras como se parte da própria noite ela fosse, destacando-se lentamente; veio usando uma capa - pensei - para se proteger da chuva e a empurrar outro vulto que só fui entender como uma bicicleta assim que a senhora já estava um pouco mais amparada pela luz amarela do poste.
Ela veio em minha direção sem pressa, como quem acha ter todo o tempo do mundo ou visando não me assustar, se é que eu me assustaria de alguma forma, dado o jeito como ia tão estranha a noite; não esperava mais nada tão novo e esquisito, senão o raiar do dia e o fim do aguaceiro. Ela veio, ficou a dois metros de distância do refúgio, sustentando a bicicleta em pé, contemplando o que dava dos céus, e ainda de costas para mim. A água batia em sua capa e parecia envernizá-la, dando um tom perolado ao traje. Eu a olhava, curioso, de cima a baixo, tentando calcular a probabilidade de tal aparição numa noite assim, em tais circunstâncias, ainda mais quando por se tratar de uma senhora com seu meio século e uns trocados, sozinha, com uma bicicleta aparentemente mais velha do que ela.
Enquanto eu seguia com minhas contas, ela baixou os olhos para a pista lá na frente e tornou a falar comigo, mas dessa vez como se tivesse visitado meu crânio previamente:
- Que noite, hein, amigo?! Não era esperada essa chuvarada, ao menos não pela moça do tempo da rádio. Mas, pensando bem, quem é a moça e quem é o homem perante a natureza, senão um mero ser que especula prepotentemente, não é mesmo? Primeiro, eles estudam, depois acham que já sabem demais sobre as coisas, trabalham, juntam dinheiro, compram um quadrado com teto e o chamam de lar, local inviolável e que os protege dos perigos da selva externa, e pensam também que todas as atitudes tomadas em prol da organização de si, de outros e do mundo vão gerar alguma ordem significativa no Todo, que é tão somente o Caos. Daí, magro rapaz, quando algo lhes foge do controle, creem ser tal fato uma anormalidade no pequeno, no ínfimo, insignificante padrão ou ordem que pensam ter enfiado no simples tecido do Acontecer das Coisas. O homem, inclusive você, neste momento, provavelmente esteja reclamando da falha da Meteorologia e xingando algum deus por a sorte não ter conspirado em seu favor, nem a favor do seu passeio, pelo visto. Se serve de consolo, sabe-se lá, ao menos nos encontramos e pudemos ter dois dedos de prosa em nosso choque de eventos.
Eu precisava de qualquer fuga da realidade naquela noite, mas quis a vida - ou esse tal Caos - me apresentar um ser que tanto destoava do contexto quanto jogava na minha cara tudo o que tentei, pelos quilômetros que percorri, deixar pelo caminho.
Vendo-me sem escolha e tentando ser grato pela companhia de alma viva naquelas horas frias ali, comigo, dei-lhe conversa:
- A senhora, a uma hora dessas, não tinha um lugar quente para estar e um sono gostoso para desfrutar em vez de sair por aí, de bicicleta, pelo nada? Digo, uma pessoa na sua idade, com o devido respeito, estaria acordando já já com as galinhas; a senhora preferiu passear e parar para falar sobre mecânica universal com um homem infeliz e encharcado. Esse 'Caos’, seu conhecido, parece ter lá suas artes.
- Ele sou eu... - disse ela e continuou: - É você, somos nós, é um motor que você, um dia, talvez, compreenderá melhor, quando seus olhos transcenderem o espaço tridimensional que ora vê.
E não parou por aí:
- Há tanto ainda para conhecer, meu jovem rapaz, e acredito que eu, inclusive, esteja aqui, neste exato momento, por uma razão das mais razoáveis.
Quando a senhora, por fim, terminou seu quase monólogo, respondi irônico e recobrando as mágoas que havia anestesiado no caminho:
- Já que a senhora sabe tanta coisa e acredita numa razão maior para estarmos nós dois, aqui, nesse breu no fim do mundo, preciso realmente perguntar: você trouxe aí, por acaso, na garupa dessa bicicleta ou nessa cachola cheia de verdades, a cura para a minha vida?
Ela, terminando pacientemente de me ouvir, virou, por fim, seu rosto para mim, e ele era de um branco infinito, com sombras também infinitas, inteiramente desprovido de carne e também de olhos, o qual sustentava uma mandíbula de puro cálcio que se movimentou e, sem pudores, me disse:
- Eu trouxe o veneno.

Witalo, eu me identifico muito com você. Seja pela maneira de escrever (me vejo bastante) ou pelo fato de você se encaixar mais no profundo do que no banal - mais no choque do que no riso. Existe boa trama sem drama, afinal? Rs! No entanto, apesar de ser "Narciso", eu acho bonito também o que não é meu espelho, claro! Mas o que é espelho, confesso: é sempre como um abraço, uma empatia, um reconhecimento.
ResponderExcluirParabéns pelo excelente texto! Adoro descrições de ambientes desolados, ruas, chuva. Também adoro tudo aquilo que reflete sobre o tempo ou sobre o quântico. :)