O dia estava sereno como nunca. Mesmo ali, sentado numa cadeira no corredor de um Café, podia ver e sentir a calmaria da rua que, apesar de fazer parte do inferno natural de um centro metropolitano, me incomodava muito menos que antes. “Antes” leia-se “um dias atrás”. Desconhecia a razão de não mais me perturbar tanto aquela torrente urbana que efervescia além da porta do Café. Conseguia extrair harmonia na desordem entre carros, ônibus, gentes, motos, gentes nas motos, nos carros e nos ônibus, cachorros mulambentos se esquivando de pernas indiferentes e estátuas cheias de fezes de pombo. Até o homem pentecostal com microfone imponente parecia cantar um louvor para a minha solitude.
Curioso e agora procurando entender a razão de uma paz tão nova, buscava refazer “de cabeça” meu caminho até essa constante de serenidade. Atrapalhando-me com a confusão dos pensamentos, contudo, puxei a caneta do bolso e comecei a criar uma linha de eventos no guardanapo roto. Nada se encaixava! Tudo parecia fazer sentido, mas faltava uma coisa, talvez uma única coisa que pudesse unir aquele emaranhado de ideias e me apresentar um dossiê perfeito. Essa única coisa eu não achava.
Sem perceber, pois a noção de tempo também havia ido embora, senti como se tivesse saltado das 14h para as 18h. Era verão e o sol ainda se exibia antes de cair no horizonte; aquele ar morno típico do final de dia aquecia meu peito como o afago de um chocolate quente descendo goela abaixo numa tarde de maio. O ritmo frenético do centro agora estava adornado por uma luz avermelhada e o céu, como aquarela e baunilha, cobria o palco urbano feito teto de capela italiana. Em que xícara estava não lembro. Ao contrário de antes, não sentia atacar a ansiedade ao beber café; tive a certeza de que aquele sumo preto e quente servia de manto para o luto da tristeza, ele e tudo mais, inclusive o jornal brega de 50₵, a TV com chiado e qualquer outra coisa ao redor, porque era dentro de mim o céu. Tornei-me meu próprio Nirvana.
Pensando em retornar para casa, pus as mãos nos bolsos e não encontrei as chaves. Pensei que não haveria problemas, pois podia pular o muro mais uma vez. Percebi, logo após não ter encontrado o meu chaveiro, que não lembrava sequer do meu endereço, e se sequer tinha mesmo um. Notei que estranhamente não recordava de muita coisa, nem mesmo do meu nome; ele parecia estar na ponta da língua, mas de lá se recusava a sair. Entretanto, permaneci inabalável.
Quis sair dali e vadiar um pouco. Sondei o lugar em busca do garçom; ele estava atendendo um casal de idosos na parte externa do café, num pedaço reservado da praça para os clientes. Acenei com uma mão e ele me viu. Ele, ao desviar-se de uma mesa à sua frente, removeu a única barreira entre mim e aquela visão, uma imagem muito estranha que perfurou, como nada naquele dia havia conseguido, minha redoma intransponível de paraíso. O último gole do café pareceu querer retornar à xícara e eu senti a dor que aquela figura ostentava nos ombros e nos olhos castanhos. Era um homem na casa dos trinta anos, curvado, maltrapilho, trazendo nas costas uma trouxa horrorosa e sobre a cabeça um curativo grosseiro, muito sujo, o qual denunciava haver sob ele um ferimento deveras grave. O garçom desistiu de me perguntar em que poderia ser útil, deu de ombros e foi atender outras pessoas. Eu, vidrado naquele andarilho, não conseguia enxergar sequer um palmo distante da cena. Via-o andar cambaleante, equilibrando-se entre soluços e lamentos. Na mão esquerda umas folhas grampeadas, as quais parecia consultar, às vezes, antes de lançar seus versos aos ventos; na mão direita uma garrafa de vodka pela metade, a qual sacudia menos que seu dono infeliz.
Não satisfeito em olhá-lo pela porta, saí à praça e de pé continuei a contemplar sua sina. Doando-lhe melhor minha audição, pude decorar uma estrofe que ele parecia usar como mantra entre um poema e outro, entre um soluço e outro, entre um palavrão e outro: “Meu coração, esse motor sem freio,/ Que se abastece de uma sede ardida,/ Espera um dia, em coração alheio,/ Achar a justa rotação da vida…” Conheço vagamente o conceito de empatia, mas creio ter me doído com a dor daquele ser. Eu já nem lembrava o doce gosto de paz que havia sentido minutos atrás; aquele homem me roubou o súbito equilíbrio que tanto demorara para chegar – e nem teve tempo de desfazer as malas em meu espírito -. Estava despedaçado como ele, sentindo-me como o sangue que saiu de sua cabeça, espalhou-se e encharcou seu curativo.
Magneticamente atraído, fui andando devagar até ficar a dois metros atrás de sua trouxa imunda. Por mais que estivesse em frangalhos, não exalava cheiro ruim nenhum; o que ficava para trás era um aroma mais que abstrato, pois eu não o sentia com as narinas, mas com o coração: era cheiro de incompletude, de saudade. Tinha certo aroma de desespero, mas também de uma beleza montada sobre a tristeza.
Segui esse homem por cerca de um quilômetro e percebi que chegava um momento em que ele voltava para o início do seu repertório e tornava a repeti-lo, sempre os mesmos poemas, sempre aquela estrofe mantra e também um lamento. Porém, passado um tempo grande, o homem infeliz cismou de falar, entre soluços e choro, uma palavra difícil de entender, pois ele a dizia de maneira reticente. Desesperado em razão da sensação de que eu tinha o dever de saber o que ele falava, passei para o seu lado direito e comecei a caminhar consigo, ignorando se ele notaria ou não a minha presença. “Ras…’ic’… ão!... Ras…’ugh’... ão!...”, foi o que pude ouvir. Aquele balbuciar difícil da palavra estrondava meu ser como se fosse uma marreta de borracheiro. Senti ânsia de vômito, senti não me bastar. Senti-me incompleto de tal modo que procurei em seus olhos uma resposta para aquilo. Ele, que parecia jazer abissalmente mergulhado dentro de si, conseguiu emergir e me enxergar ali, junto dele, talvez tão miserável quanto ele, e então arregalou os olhos.
Espantado e estranhamente mais feliz – ou menos descontente –, ele olhou em meus olhos e soluçante falou: “Ras…’ic’...são! … Ras…’ic’, é você?” Eu não sabia se era eu. Eu não sabia quem eu era! Dei-me conta disso naquele instante, porque a única peça que faltava para fechar o puzzle era essa 'coisa’ que só ele soube me dizer. Sem ele e sem essa peça eu não conheceria, nem de longe, meu endereço, meu norte, as chaves das fechaduras e meu nome.
Recobrando, aturdido, a memória, senti, talvez, a mesma adrenalina de uma pessoa que, sem paraquedas, é lançada um avião; um gelo me paralisou de fora para dentro, e de dentro para fora uma explosão de lembranças sobre casa, nome e vida me dava milhões de choques. Desenrolando o curativo podre sobre a cabeça, o bêbado deixou à mostra e às moscas aquele buraco feito de dentro para fora, o qual tinha uma força de atração muito forte sobre mim: tragou-me, como fazem os trituradores gigantes de automóveis velhos e como uma lâmpada mágica faz para recolher seu gênio. Eu, atônito, tentava entender o que acontecia enquanto me espremia e adentrava seu crânio.
Tornamos a caminhar juntos por quilômetros, cidades e continentes, um tentando aparar os excessos do outro, como se ambos fôssemos jardineiro e jardim. Eu, Razão, era um frustrado fugitivo; ele era todas as outras partes de Nós, era o antigo lar que eu pensara outrora ser minha prisão. Nunca mais nos soltamos, mesmo com a certeza de que eu quase nunca seria consultado numa casa onde os ouvidos são surdos para o que é racional e totalmente dispostos para as febres das paixões.

Uau! Uau! Uau! Final surpreendente, tocante, mexeu comigo!
ResponderExcluirCarlos, gostei demais! Não tive como não lembrar do tipo de história de Olhos de Cão Azul, um dos livros que mais amo, de García Márquez, e pensei em Ítalo Calvino...acabei ficando saudosa de ler O cavaleiro inexistente. Parabéns! cheiro (Jana M.)
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