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Prosa de Quinta #7: Relatos de uma sobrevivente


A água de boa qualidade é como a saúde ou 
a liberdade: só tem valor quando acaba.
João Guimarães Rosa

1

O computador de pulso emitiu um aviso:

Núcleo de Refugiados (Parque do Ibirapuera, SP) 
Desativado em 2062. Possibilidade de Água: 0% 
Risco de Morte neste Ambiente: 62% 

Ela analisou os dados e sentiu os joelhos fraquejarem. 
— Não vou ceder agora — murmurou Verônica. 
Como não havia nada ali, deveria continuar a andar. 
Mas, antes de partir, ela precisava fazer uma coisa. 
Juro que serei rápida, prometeu a si ao visualizar uma tempestade de areia envolvendo os decrépitos edifícios no horizonte. Arriscou-se a umedecer os lábios e a boca para facilitar a articulação das palavras, mas não conseguiu. O clima seco e quente também não ajudava em nada. 
Essa mensagem, como todas as outras, não poderia conotar, de maneira alguma, esperança. Ela cega, cria expectativas irracionais, e o mundo atual não necessita de alienados. Não há volta para o que foi feito neste lugar. A verdade é que Pandora fechou o receptáculo na hora certa e poupou os homens deste mal terrível, ajuizava Verônica toda vez antes de ativar o moderno dispositivo de gravação resistente às condições climáticas, apelidado de Survive. Ironicamente, nos dias atuais, a vida útil da bateria do Survive ultrapassava a humana. 
Por fim, ligou o gravador. 


— Oi, não sei quem é você nem de onde veio, mas, caso tenha encontrado isso, quer dizer que não sou a única e posso desabafar com alguém. Essa pode ser minha última mensagem gravada, posso morrer amanhã ou daqui a uma hora. Então, por favor, escute-a como se fosse meu epitáfio. Espero que esteja dando valor aos seus últimos dias... ou horas. Não há volta para o que aconteceu aqui. Meu padrasto dizia que nós só aprendemos a dar valor a alguma coisa quando a perdemos. Sei que é clichê, mas o desgraçado estava certo. Há 24 horas consumi minha última garrafinha de suor e urina reciclada. Os purificadores de líquidos, utilizados na Estação Espacial Internacional desde 2008 e comercializados por milícias numa versão mais prática, salvaram muita gente de uma morte prematura. Se estiver com muita sede basta procurar dentro das antigas bases das milícias, mas tenha cuidado, às vezes não é seguro usá-los, pois são protegidos por armadilhas militares. Há alguns anos, as mulheres e os homens mais fortes iam para a coleta furtiva, poucos voltavam de lá. O Brasil não é mais como era décadas atrás. É bem provável que só eu ainda chame este lugar de Brasil. Para o resto, que vive aqui, não tem nome nenhum, é só uma terra sem lei, habitada por algumas dezenas de comunidades dispersas. Foi o que restou de nós. Meu padrasto, antes de falecer por desidratação, contava histórias de como toda essa desventura começou. Construir algo demora e, às vezes, o indivíduo necessita de talento ou de mãos fortes, mas destruir algo é a coisa mais fácil do mundo. Nós destruímos sem pensar nas consequências. Fomos acostumados a acreditar que somos especiais e donos de tudo, e que os recursos do planeta estariam sempre a nossa disposição. Queira ou não, somos uma espécie de idiotas narcisistas. Cavamos nossa própria cova. Somos os responsáveis por tudo isso, e as histórias do meu padrasto sempre confirmaram meus pensamentos. Droga... Se o mormaço não me sufocar agora, eu conseguirei falar do passado. Devagar, mas vou... 
Verônica tossiu algumas vezes. 


— O passado é a âncora da vida humana neste planeta e sua função é deixar nossos pés no chão enquanto nossa mente avalia o próximo passo a ser dado. Se não quer cometer erros, basta jogar a âncora e olhar para trás. Aquilo que deu certo no passado poderia ser melhorado e, desta forma, as catástrofes sociais evitadas. Infelizmente, ninguém gosta de fazer isso, pois teme perder tempo em tais análises. E hoje, ironicamente, tempo é o que menos temos. Meu padrasto contou que foi no ano de 2025 que os pilares da sociedade começaram a definhar. Era um problema atrás do outro. Líderes do antigo governo do Estado de São Paulo advertiram que se alguém extrapolasse 55 litros de consumo por mês, o abastecimento seria cortado automaticamente. Quatro anos depois, a metrópole paulista começava a ser abastecida por água dessalinizada, que vinha de Santos, uma das grandes cidades do litoral do estado. Outros estados do país também apostaram nesse método engenhoso e revolucionário. Os gastos com o processo chegaram a quase 250 milhões de reais por mês aos cofres dos governos estaduais e, tão logo, sobrecarregou o bolso do cidadão. Inúmeras passeatas e revoltas eclodiram e destruíram os aparelhamentos de dessalinização. Em 2033, o governo levava um soco no estômago. Com todos os reservatórios secos e os valores para o processo de dessalinização em níveis exorbitantes, o abastecimento de água foi reorganizado pelas milícias. Os filiados ao novo sistema deveriam pagar semanalmente pelo serviço. Os milicianos foram espertos, o produto de valor não era mais a droga e nem a TV a cabo... Era a água. 
Ela começou a respirar devagar. 
O calor sufocava seu corpo. 


— O governo paulista não apoiou o novo sistema e solicitou interversão direta do Presidente da República. Bem, depois disso, as coisas só foram piorando. Em 2035, as ações federais não causaram resultados satisfatórios e a população se dividiu. Os filmes futuristas frisavam que o Brasil seria o palco da Terceira Guerra Mundial, por causa das suas riquezas em recursos hídricos. Nenhum cineasta teve coragem de imaginar que os próprios habitantes matariam seus irmãos de pátria por mais um litro d'água, antes mesmo das torneiras e bicas pelo mundo titubearem um racionamento. Que ironia, não? O poder da milícia acendeu e bases administrativas foram construídas pelo território brasileiro, próximo a nascente de rios. Os ricos aliaram-se às milícias para continuar usufruindo de mordomias e os pobres refugiaram-se no colo do governo. Naquela época, meu padrasto era assessor do Presidente da República e ficamos do lado do governo. Eu ainda era uma menina, não entendia muito bem as coisas. Mudávamos de lugar constantemente até o fatídico dia: o assassinato do Presidente. A investigação do crime revelou que meu padrasto era um espião da milícia e o único culpado. Por ironia da vida, o desgraçado morreu de desidratação antes de uma retaliação do governo. E, daquele momento em diante, eu tive que me afastar de tudo. A corda costuma arrebentar sempre do lado mais fraco, não? Fugi, receando ser acusada, e sobrevivi. No ano de 2045, campos de guerra circundavam os pequenos mananciais e o território brasileiro foi desmembrado, oficialmente, em dois grandes blocos: o Governo Democrático do Norte (GDN) e o Regime Ditatorial do Sul (RDS). 

5

Houve um silêncio demorado. 
Estou morrendo? 
Ainda não. 
Ao recuperar o fôlego, Verônica voltou a falar. 
— O Norte, com base na antiga liderança democrática, protegia as reservas que possuía, amparava aqueles que o procuraram antes da segregação e buscava alternativas para sanar o problema da crescente falta d’água; o Sul, profundamente influenciado pelas lideranças milicianas, tentava solapar as fronteiras para dominar os poucos olhos-d'água do antigo rio Amazonas (uma das últimas reservas a expirar) e contrabandeava purificadores de líquidos para os grupos neutros por preços altíssimos. Milhões morreram em combate ou, simplesmente, de sede. Nesses últimos dias, por onde passo, na caça por água, vejo cadáveres apodrecendo nas ruas das antigas metrópoles, nas estradas... É o que restou do sangrento combate. Meu padrasto dizia que houve um momento em que as pessoas perderam a fé. Ninguém matava mais em nome de um deus, mas sim por um gole d’água. Por volta de 2050, a falta d’água já ditava a política e o cotidiano por todo o planeta e, para o Brasil, não havia escapatória da sentença final, simbolizada pelo solo áspero e seco por todos os lugares da velha Pindorama — Acabou tudo! —, indicando que a antiga República Federativa do Brasil sofreria mais uma divisão em dois grandes blocos. Não mais por questão política, era uma divisão entre mortos e sobreviventes. Voltamos a ser caçadores e, claro, caça também. Há pequenos grupos nômades altamente perigosos por aí, cuidado com as velhas casas de doces no meio do nada. Não culpe seus pais pelo o que ocorreu neste lugar, nem eles sabiam o que estavam fazendo. Foi só agora, com a sede, que nós aprendemos a agir com cautela e a dar valor a cada segundo de vida. Devo continuar vagando por aí. Não sei por quanto tempo ficarei viva, afinal estou com sede... Mas, eu, Verônica, continuarei em busca da minha sobrevivência e espero que você também continue com a sua busca, seja ela qual for. 
Verônica desativou o Survive e, após amarrá-lo a um tronco de árvore desidratado pelo tempo, vestiu um capuz. A tempestade de areia estava vindo rápido. Ela precisava correr. E, tão logo, tentar sobreviver. 

Comentários

  1. Estava com saudade de seus contos! Não nos deixe mais uma semana sem eles! Esse conto me inspirou!

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  2. Parabéns! Esse relato, ainda que fictício, nos levar a refletir sobre o que estamos fazendo dos nossos bens naturais.

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  3. Parabéns pelo conto, há tempo que não lia coisas que me fizesse arrepiar diversas vezes, e é com muita clareza que relata algo que possa ser o futuro da humanidade. Muito bom mesmo, espero que continue com essas histórias incríveis!

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  4. Wil, meu querido q saudade de seus textos, q bom q voltou, e voltou com um conto belíssimo hein, mais uma veronica imbatível, esse conto nos serve de alerta, ótmo para trabalhar em sala de aula hein... Bjs

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  5. Adoro distopias e essa, particularmente, me deixou arrepiada e até emocionada, gostei muito. Esse conto está mais para um grande alerta à humanidade, chegou a me deixar com medo, maravilhoso!

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  6. Fantástico, Will! Adoro distopias, embora essa tenha soado extremamente real. Torço, sinceramente, para que você esteja transformando esses contros (ou ao menos algum deles) em livro. Incríveis, incríveis...

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