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Prosa de Quinta #6: O Começo


A imaginação do homem é 
o princípio do apocalipse 
[Lukas H. Santos]


Quatro esferas de fogo materializaram-se no ar, uma em cada canto do globo terrestre, atravessando a exosfera em alta velocidade. Se mantivessem a velocidade atual, em poucos minutos, elas atingiriam o solo e a onda produzida pelo impacto pulverizaria todos os seres vivos daquele planeta, contudo, ao penetrarem a troposfera, as esferas de fogo diminuíram o ritmo de queda e planaram sobre as coordenadas já preestabelecidas nas Antigas Escrituras: a primeira esfera de fogo caiu em algum lugar do continente africano e a segunda caiu um pouco mais para o leste; a terceira caiu ao noroeste de terras tropicais e a quarta caiu em uma região que batizaram de mundo livre. As esferas de fogo pousaram nas primeiras nações do ciclo apocalíptico. Evidentemente, moviam-se bem devagar. Não havia pressa, já que com o passar dos anos percorreriam todo o planeta Terra. 
Aos olhos humanos, totalmente invisíveis. 
Assim, despercebidas, transfiguraram-se. 
As chamas começaram a ganhar forma humana. 
Os quatro cavaleiros tinham chegado. 
Peste, Guerra, Fome e Morte. 
Era o começo do fim.

2

Trajando túnica branca e utilizando uma máscara de leão, o homem observou tudo a sua volta. Viu os animais, as montanhas, as floretas, os desertos e a variedade de povos que viviam naquele lugar. Ao Leste, percebeu a presença do Mar Vermelho e soube de imediato que aquelas terras pertenciam em tempos remotos ao Velho Mundo, o berço da humanidade. Reconheceu que por milhares de anos aqueles Homens tinham sofrido penosamente com a vivência em terras áridas, doenças terríveis e, principalmente, com a luta pela liberdade. Mas ele não sentia pena daqueles Homens, pois o terror verdadeiro iria começar agora. Puxou um arco de dentro da túnica branca. Esperou, fazendo mira, e atirou a flecha da Peste sobre o continente africano. Ele sorriu, satisfeito. Contudo, seu trabalho ainda não tinha terminado, havia mais flechas para serem lançadas pelo mundo.

3

Após caminhar pelo solo áspero daquela região por várias horas, a mulher chegou ao local correto. A grande túnica vermelho-sangue cobria todo o corpo. O capuz de bico protegia seus olhos e cabelos da violenta ventania que atingia aquela região — o vento parecia sussurrar algum tipo de aviso, premeditando a chegada da maior das batalhas. Naquela região houvera muitos conflitos das mais diversas origens, mas logo aconteceria o maior de todos. Num movimento rápido, a mulher puxou uma espada de dentro da túnica e, com euforia, a cravou no solo dando início a grande Guerra. 

4

Submerso em compridas vestes pretas, o pequeno homem andou em meio ao povo pelo Mercado. Sempre de olhos fechados, ele carregava uma balança de ouro. Sua presença naquele ambiente trouxe preços exorbitantes aos alimentos por vários dias — o colapso financeiro se abateu ali. Procedeu-se a injustiça e a justiça por intermédio do sangue. As pessoas brigavam pelos alimentos mais básicos. Elas gritavam e corriam, não queriam passar Fome. Foram dias terríveis e dramáticos, as pessoas matavam por uma mera cidra. Em meio à desordem, o pequeno homem ajoelhou-se e, finalmente, abriu os olhos. Ele estava satisfeito com o seu trabalho, em breve viajaria para outros lugares espalhando aquelas mesmas desgraças.

5

Translúcida, ela flutuava sobre os prédios. 
Seu olhar era acinzentado. 
Aparentava ser uma mulher alta. 
O corpo esguio estava em decomposição. 
Ela trajava uma longa túnica descolorida. Nas costas, como se fosse uma bolsa de viagem, trazia uma arcaica jarra de cerâmica. Todos a chamavam de Morte e sua tarefa era sempre esperar. Logo, espremendo os olhos, focalizou as grandes torres. As torres eram idênticas. E, como de costume, ela esperou, observando tudo com paciência.
Primeiro, houve um clarão ofuscante e uma explosão. 
Depois, gritos e pessoas correndo, caindo. 
Outra explosão. As labaredas devoravam as torres. 
Não demorou muito e a primeira torre desabou. 
Enquanto poeira e destroços flutuavam no ar, a Morte trabalhava. 

Comentários

  1. Ui!! É sempre bom ler histórias q mexem com nossa imaginação, a morte é um tema q me instiga muito, obrigada por nos presentear toda semana com belos textos. Na próxima semana quero comédia hein rsrs, forte abraço...

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    1. Estou recebendo até pedidos agora... Até a próxima quinta. Abraços literários.

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  2. Sempre tenho algo para aprender com os seus textos, Will. Isso porque leio com olhos de escritora ávida por aperfeiçoamento! Sempre! Além disso, sua escrita é firme e conduz muito bem cada cena, cada expectativa. Somos levados! Fiquei sentindo falta apenas de uma continuação, rs. Cadê o livro? :D

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    1. Fico honrado, Bluma. De certa forma, estamos vivendo a continuação rs

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  3. Hollywood esta perdendo um grande roteirista. Vamos torcer para que em breve venham a descobri-lo. Sempre gostei desse tema e adoro quando conseguem mescla-lo com essa nova realidade. Sinto que estamos realmente vivendo o "inicio do fim" rs, mas um lado meu ainda espera a "Navi-mãe" voltar pra me levar pra casa. Rs

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    1. Até hoje espero o resgate, Vini. Enquanto isso, resta-me entreter o mundo com essas historinhas... Até a próxima quinta.

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