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Prosa de Quinta #5: O Caso do Bastardo



Chorar sobre as desgraças passadas 
é a maneira mais segura de atrair outras.

William Shakespeare

1

Quando Diana Donati entrou no pequeno quarto de Melina Lermen, acompanhada pelo motorista daquela família abastada, a Sra. Lermen ainda chorava e Dieteze, a governanta, com os olhos em um porta-retrato sobre o criado-mudo, parecia aflita. O motorista pigarreou para chamar a atenção das ocupantes do quarto, mas só a Sra. Lermen, sentada na peseira da cama, com os cabelos grisalhos revolvidos e a maquiagem borrada pelas lágrimas, virou-se na direção da porta.

— Graças a Deus — disse, indo até Donati.

Com o QI acima da média, Diana Donati, de 31 anos, era uma mulher geniosa, mas brilhante. Neta de imigrantes italianos, trabalhava como colunista freelancer de um jornal local e, na maior parte do tempo, consultora particular. Por possuir memória fotográfica, costumava escutar seus clientes atentamente, determinando que nenhum detalhe fosse ocultado durante o depoimento, e, então, ao organizar as informações num ângulo apropriado, mostrava-lhes aquilo que não conseguiam enxergar. No entanto, quando o transtorno do cliente não podia ser resolvido em seu bucólico escritório, situado no Edifício Eldorado, zona oeste de São Paulo, era preciso sair e analisar os detalhes com os próprios olhos a fim de encontrar a ordem no aparente caos.

2

— Há doze anos — começou a dizer, chorosa, a Sra. Lermen —, após a morte de Peter, meu marido, num trágico acidente de carro, ali na esquina, prometi a mim mesma que iria proteger minha filha do mundo lá fora e não mediria esforços para isso, afinal, dinheiro não faltaria. Ela iria crescer aqui, dentro de casa, sempre sob a minha proteção e nada aconteceria. Mas, hoje, por volta da hora do jantar, às 18h50, quando me deparei com este quarto vazio, a janela arrombada e um bilhete sobre a cama exigindo que a polícia não fosse avisada, fiquei desesperada. Ela só tem treze anos... Não podia ficar inerte, entende? Ouvi falar muito bem de seus serviços, por isso, mandei o motorista buscá-la imediatamente. Por favor, ajude-me!

Segurando o bilhete, Donati assentiu e, por alguns instantes, permaneceu quieta, analisando os objetos e móveis que adornavam o seco quarto de Melina Lermen. Per l’amore di Dio, resmungou, censurando a decoração. Foi até a janela, buscando ar fresco, e viu toda a grama do jardim podada e o imenso muro com cerca elétrica que circundava a propriedade. — Um belo jardim, pelo menos — disse, saindo de perto da janela. E, revigorada, começou a vasculhar o recinto. Havia obras de Agatha Christie e livros didáticos numa escrivaninha de mogno, uma cronologia de atividades colada na parede, um guarda-roupa e aquilo... Como uma raposa prestes a atacar, peregrinou até o criado-mudo, agarrou o porta-retrato e, com os olhos cerrados, compreendeu o pavor de Dieteze.

— Nas últimas cinco horas, alguém telefonou para combinar o resgaste de Melina Lermen? — questionou Donati, mas o silêncio instalou-se no apertado recinto. Ela olhou para a fotografia de novo e refletiu: Oh, non è uno sequestro comune. E averiguou — Fala alemão, Sra. Lermen?

— Sou brasileira — disse ela. — Peter, sim, era alemão.

— Dieteze fala alemão, não é?

— Sim. Ela era a secretária do meu marido, na Alemanha. Quando Peter veio para o Brasil, trouxe-a consigo. Hoje em dia Dieteze cuida da organização da casa e, junto com o Sr. Rubder, da educação de Melina... Mas o que isso tem a ver com minha filha?

Donati retirou a fotografia da família Lermen do porta-retrato e colocou sob a luz. A Sra. Lermen levou a mão a boca. A palavra RACHE tinha sido escrita acima da cabeça de Peter com tinta vermelha.

— O que significa, detetive?

— Vingança — respondeu, pausadamente.

— Eu não entendo — disse ela, pálida.

— O passado — Dieteze começou a falar — é uma maldição, Sra. Lermen. Ele era muito jovem para compreender as consequências do que tinha feito. Pensou somente no futuro dele e negligenciou duas vidas, deixando-as definhar na Alemanha. Um dia Deus iria puni-lo. Eu só não imaginava que a maldição cairia sobre os ombros da sua filha.

— Que absurdo, Dieteze — revidou a Sra. Lermen.

Donati deu um pulo, murmurando algo em italiano.

— Fiz o meu dever de casa, Sra. Lermen — puxando algumas páginas dobradas do bolso. — Enquanto seu motorista contava-me tudo o que queria saber sobre o desaparecimento de Melina Lermen, solicitei a um amigo para fazer uma pesquisa sobre os Lermen, que li durante a vinda para cá, e, em todas as informações encontradas, havia sempre menção ao misterioso passado do patriarca desta família, visitante frequente de “casas noturnas”. Já dizia a música: sexo, drogas e rock and roll. Órfã e único dono do império Lermen, o mundo era mesmo pequeno. Presumo que, no auge da juventude, Peter teve um filho com uma meretriz e, para não haver extorsão, deixou seu país à surdina e construiu uma nova vida no Brasil.

— Mas isso é um absurdo — a Sra. Lermen gaguejava.

— Uma vida sem muitos holofotes, diga-se de passagem — continuou Donati. — Peter sempre foi escorregadio diante de jornalistas, até falecer... (Quem imaginaria que haveria mais de uma vítima com um forte vínculo com a Alemanha no trágico acidente de carro?) E virar manchete global. Casou cinco vezes, fora as amantes. Nada de filhos, ora, um homem precisa de herdeiros. Ah, os traumas do passado. Curiosamente, a senhora foi a última esposa, e a única a ter tido um filho com ele. Por favor, eu não ficaria surpresa se alguém aqui me disser que a Melina Lermen é filha do motorista ou que foi uma gravidez indesejada, qualquer uma das alternativas deixaria Peter tão atormentado com os ecos do passado que uma hora ou outra esqueceria de dar a seta no cruzamento e...

Atônita, a Sra. Lermen engoliu em seco.

— Desculpe — Donati sorriu, afetuosa. — Estamos aqui por causa do desaparecimento de Melina Lermen, então não me interessa o tititi dos corredores deste lugar que mais parece uma prisão norueguesa do que um lar. Voltemos para a ideia do possível bastardo...

— Sim... O bastardo é o responsável — afirmou Dieteze.

— Peter não falava do passado — conseguiu dizer Sra. Lermen.

— Alguém estranho entrou na casa? — indagou Donati.

— O pai do Sr. Rubder veio aqui — revelou o motorista.

— Sr. Rubder... Rubder... — repetia Donati, olhando para a escrivaninha de mogno. Indo até lá, localizou um caderno de anotações da aluna Melina. E falou para si: — Como não reparei antes?

A Sra. Lermen interveio.

— Pelo amor de Deus, um homem velho e gordo, Detetive! — O motorista ruborizou-se e ela continuou: — Foi uma visita rápida. Eu sei que foi a primeira vez que ele apareceu aqui, mas sendo tão velho e pesado só mesmo com um bom motivo para sair andando por aí. Às 18h ele trouxe um recado do filho adoentado e alguns livros. Disse-me que Rubder ficaria indisponível por alguns dias, deixou os livros com Melina e se foi.

— Ele entrou no quarto para entregar os livros, Sra. Lermen?

— Sim, afinal, Melina raramente saía do quarto.

— Entendo. Então, ele foi o último a vê-la?

— Sim, já que só entrei no quarto às 18h50.

— O pai do Sr. Rubder é alemão?

— Acho que sim.

Os olhos de Donati brilhavam.

— E o jardineiro, Sra. Lermen?

— Já tinha saído. E o que isso importa?

Donati aproximou-se da parede e explicou:

— No cronograma de atividades da sua filha há uma pausa de quase uma hora do Momento de Leitura por causa do jardineiro. Das 17h50 às 18h30. O barulho do cortador de grama deve ser insuportável, não?

— Um pouco — disse a Sra. Lermen.

— Pois bem, acho que já sei o que aconteceu aqui.

3

Diana Donati, procurando algo pequeno e fácil de ser escondido, introduziu a mão no interior do travesseiro, mas não achou nada. Na cabeceira da cama, nada. E, embaixo do colchão, encontrou o que buscava.

— Meninas e diários — disse o motorista, nostálgico.

— Sua filha faz o mesmo?

— Sim, detetive. Ela costuma guardar...

Sra. Lermen o fuzilou com o olhar.

— Quero dizer... digo, a minha filha com minha esposa Bárbara.

— Tudo bem — disse Donati, sorridente.

Dieteze, Sra. Lermen e o motorista aproximaram-se.

— Isso não é um diário, evidentemente. É uma agenda telefônica que, claro, também pode guardar segredos, anotados sempre na letra X — comentou Donati, abrindo a agenda na letra indicada e encontrando o desenho de um arcabouço metálico e, ao lado de um coração, uma anotação: RUBDER-BRUDER. — Recomendo ligar para polícia agora, Sra. Lermen — sugeriu. — A polícia vai encontrar sua filha na casa do Sr. Rubder.

— Hã? O Sr. Rubder? Como? Ele sequestrou...

4

— Tudo isso é uma farsa, Sra. Lermen. O Sr. Rubder é apenas um mero joguete da sua filha — Donati começou a explicar. — Parece que Melina queria fugir desse mundo horrível ao qual a mãe a subjugou, idealizando com maestria o próprio sequestro. Acredito que as obras literárias aguçaram a criatividade... Ela só precisava de um cúmplice: o bastardo. Não compreendem? É só somar um e um. O Sr. Rubder deve ter aparecido logo após a morte de Peter, não? O trágico acidente de carro foi notícia internacional, afinal, um dos envolvidos tinha sido selecionado para substituir uma grande atriz alemã numa famosa peça de teatro. A notícia despertou a atenção de alguém que, ainda criança, ouvia a mãe balbuciar o nome Peter Lermen, o pai desaparecido. Ele veio ao Brasil saber mais sobre o pai e, com o tempo, ficou ciente que Peter tinha deixado uma filha, Melina... sua irmã. Rubder, sem revelar sua identidade, aproximou-se da família Lermen e viu como Melina era tratada pela mãe, uma criatura paranoica com segurança, então, ofereceu-se como tutor — Donati apontou para a cronologia —, assim poderia cuidar da sua irmã e saber mais sobre o pai. Se o Sr. Rubder quisesse fazer algum mal já teria feito há muito tempo e, caso quisesse, não se apresentaria com esse nome falso... O nome dele é a chave, chave que ele entregava todos os dias para Melina, ela só precisava vislumbrar a porta para poder usá-la. Então, coloquem as séries de TV e os best-sellers de lado, atualmente poucas pessoas resolvem optar pela vingança. Primeiro, porque a vingança é uma coisa cara. Segundo, e é o mais importante, a maioria das pessoas quer amar e ser amada.

Boquiaberto, o trio encarava Donati.

— As anotações da própria Melina confirmam o que estou querendo dizer. Nesta página da agenda telefônica, vejam isto: Rubder é um anagrama da palavra alemã BRUDER, que significa IRMÃO. Afiada em alemão e instintiva, Melina percebeu isso e, colocando-o contra a parede, notou que o pai e ele tinham traços em comum. No fim, Rubder contou tudo o que sabia e foi nesse momento que Melina viu a chance para executar a tão sonhada fuga. Até eu fugiria, olha a cor dessas paredes, olha o tamanho desse quarto, olha a vida de vocês... Com certeza, um irmão teria piedade e a ajudaria. Eles só precisavam de tempo para produzir os materiais do show. Então, com tudo esquematizado, o bastardo, transfigurado em velho, tendo embaixo do grande sobretudo um arcabouço metálico, entra na residência dos Lermen dizendo ser o pai do Sr. Rubder. Melina, no quarto, aproveitando o barulho do cortador de grama, simula o arrombamento e escreve o bilhete de sequestro... Gesù, Maria, Giuseppe! Que mãe não reconhece a escrita da própria filha? — Donati confrontou a caligrafia com a da agenda e com o caderno de anotações. — Tudo indica que Melina Lermen já contava com isso, caso contrário, seria a caligrafia do Sr. Rubder aqui. Então, o bastardo entra no quarto, entrega os livros e, um ou dois minutos depois, sai... e Melina com ele.

— E a palavra na fotografia? — indagou Dieteze, perplexa.

— Ideia de Melina — disse Donati, confrontando a caligrafia de novo — Esperta essa menina. Tão esperta que forçou Dieteze a seguir um caminho de sombras. Caso continuasse na luz, você reconheceria a caligrafia. A palavra RACHE a cegou. Não se culpe, o passado tem um efeito enorme sobre todos nós. E aí está: o motivo do sequestro seria vingança. As suspeitas deveriam ficar no filho bastardo de Peter, teoricamente, ainda na Alemanha, ou seja, ela queria afogar todos nas mágoas do passado. Melina Lermen pensou em tudo, na verdade, quase tudo. Só não pensou que Diana Donati poderia ser chamada.

— Meu Deus — conseguiu dizer Sra. Lermen.

Donati entregou um cartão de visita a ela.

— No cartão há duas sequências de números. O primeiro é o da minha conta bancária para depósito do valor dos meus serviços de consultoria e o segundo é o telefone de um amigo psicólogo que vai ficar contente em receber mãe e filha em seu consultório. Tenha uma boa-noite, Sra. Lermen.

Comentários

  1. Mais um enredo excelente e sofisticado, aprendi significado de nomes que nem passavam por minha humilde imaginação, sua criatividade sempre me surpreende, és um ótimo observador dos conflitos da vida. Vc tá me viciado nesse negócio hein, já acordo na quinta pensando nessa publicação, bjss

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    1. Sempre bom ter você por aqui, Eli. Até a próxima quinta. Abraços literários.

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  2. Eu não teria pensado num quarto disso. hahaha

    "O passado tem um efeito enorme sobre todos nós"

    Congrats.

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    1. Deixe que Donati pense em tudo, Witalo. Apresente um grão de areia e ela talvez diga a origem... é um monstro. Ela é a fusão dos meus detetives favoritos: Poirot, Holmes e Miss Marple hahaha

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  3. Hahaha quantas reviravoltas, que criatividade! Massa!

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    1. Há outros casos ainda mais surreais... Eu já nem tenho mais controle sobre Diana Donati, ela anda e fala por si. É quase uma psicografia: "resolvi um caso, escreva, vou ditar pra você, Wil" hahaha

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  4. quero ler mais casos de Donati, por favor

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