Ricardo
sentiu as gotas de chuva tocarem sua pele, mas, ao contrário dos transeuntes
que começaram a andar mais depressa em busca de um abrigo – ou a sacar
guarda-chuvas como se fossem armas, visto que a época chuvosa do ano já
ensejava seu uso constante – , não se levantou do banco em que estava, não
procurou se proteger, nada; limitou-se a dirigir um olhar torto para o céu de
chumbo, sem sequer erguer a cabeça. Não havia muito o que fazer, pensou. Tomar
chuva ou ficar seco já não fazia tanta diferença.
Levantou-se,
enfim, lentamente e depois de um suspiro, quando a chuva já caía francamente e
o vento arrastava folhas em torno de seus pés. O meio da praça agora estava
vazio, exceto por uma pessoa, abrigada num extenso guarda-chuva preto, que
parecia não ter pressa. Sem dar muita atenção a esse passante solitário,
Ricardo pôs-se a caminhar sem rumo, pensando vagamente em procurar um lugar
seco, afinal encharcar-se também não ajudaria em nada.
Seu
olhar perdido e seu pensamento vago foram detidos por uma surpresa: a chuva
havia parado em torno de si, e Ricardo percebeu que alguém encostara nele e o
cobrira com um guarda-chuva. Olhou, surpreso, para a pessoa que o protegera, e
deduziu que deveria ser o transeunte solitário que vira momentos antes e que
havia ficado às suas costas. Era um homem de feições sérias, talvez quarenta
anos, cabelos curtos, cuidadosamente cortados, barba feita e óculos grossos.
Tinha um meio-sorriso nos lábios.
-
Você vai ficar ensopado, meu amigo – disse, olhar fixo no rosto de Ricardo. –
Venha comigo aqui no guarda-chuva, vou te levar até a cobertura ali do outro
lado da praça.
-
Obrigado – respondeu Ricardo, recomeçando a caminhar. – Desculpe, mas estou um
pouco surpreso, não vejo pessoas dividindo guarda-chuvas com estranhos hoje em
dia – e deu um risinho.
-
Bom, eu estava passando, vi você assim, atordoado, largado na chuva, pensei que
não faria mal dar uma ajuda – respondeu o outro, olhando agora para o chão, o
passo tão firme quanto a mão que sustentava o guarda-chuva.
-
Veio a calhar. Eu ficaria encharcado mesmo. Qual é seu nome?
-
O pessoal me chama de Siqueira – respondeu, vago, ajeitando a gola da camisa, o
rosto mais sério do que antes.
-
Sou Ricardo. Obrigado por sua ajuda.
-
Deixe pra agradecer quando terminar. Ainda temos um trecho pela frente.
Em
silêncio, os dois homens prosseguiram pela chuva, chegando enfim a uma fileira
de lojas, com toldos e marquises. Siqueira fechou o guarda-chuva.
-
Posso agradecer agora? – disse Ricardo, com um sorriso tímido. – Aliás, posso
agradecer pagando um café. Estou precisando de um.
Siqueira
hesitou, lábios crispados.
-
Vamos – disse Ricardo. – Sei que o convite parece estranho, e é mesmo, mas tão
estranho quanto a ajuda que você me deu. – riu.
-
Tudo bem – aquiesceu Siqueira simplesmente, e sinalizou para seguirem adiante,
onde havia uma cafeteria simplória.
Os
dois homens entraram na cafeteria, procurando por uma mesa em absoluto
silêncio. Ricardo, cabelos molhados colados na testa, olhos preocupados no meio
de um rosto de medidas suaves, porém rechonchudo, e Siqueira, com olhar atento
e sério emoldurado por um rosto magro e anguloso que só o deixava mais formal.
Sentaram-se e pediram um expresso cada.
-
Sabe... – Ricardo tinha as mãos cruzadas sobre a mesa. - ... não sei se eu
devia estar contando isso, mas... Meu ar confuso lá na chuva não é à toa, mesmo
– o olhar se perdia entre os detalhes da mesa até estacar, imóvel, triste,
fixos no infinito. – estou assim porque minha esposa me deixou.
Siqueira
limitou-se a um arquear discreto e rápido de sobrancelhas.
-
Sinto muito – disse. – O que foi que houve, exatamente?
-
Ela cansou – Ricardo crispou os lábios. – Foram oito anos, e, de repente, ela
começou a se irritar facilmente... questionar coisas que nunca tinha feito
antes... Veio pra mim tem alguns dias e disse que havia cansado, que me
respeita, que aprendeu comigo, que só quer meu bem, mas que não pode continuar.
Assim, simplesmente.
-
Têm filhos?
-
Não... sempre deixávamos pra depois, aquele negócio de “ano que vem talvez as
coisas estejam melhores”, “agora não é o momento”, sabe como é? O tempo passou,
estávamos pensando, mas...
O
olhar de Siqueira pulava rapidamente de um ponto a outro, refletindo uma mente
acelerada que procurava o que dizer, sem encontrar. Enfim disse:
-
Sabe, não sou muito bom nessa questão afetiva. Nunca sei o que dizer...
-
Eu entendo. Também não sou muito bom, mas esse negócio me tem feito tão mal que
eu precisava conversar. Estou péssimo há dias, fico parando pra pensar nos
lugares mais aleatórios, tipo essa praça. Esqueci pagamentos que tinha de
fazer, eu me sinto assim, flutuando, como se nada fosse real, sabe? Nunca
imaginei que se minha mulher me deixasse isso ia acontecer, até brinquei com um
amigo meu antes dessa confusão toda começar, disse que tinha saudade de quando
curtia com ele quando era solteiro. Pois agora não tenho saudade de nada a não
ser de minha mulher. Minha ex-mulher, aliás – corrigiu-se, com um risinho
triste.
Os
cafés chegaram à mesa, provocando uma pequena interrupção na conversa. Enquanto
Ricardo acrescentava açúcar à beberagem, Siqueira assoprou rapidamente e sorveu
um gole, pousando a xícara e tentando agrupar as palavras:
-
Não sou bom nesses assuntos porque não tive um relacionamento como o seu, sabe?
– Ricardo olhava atentamente para ele. – Tive minha cota de paquera, de
transa... mas nunca tive uma relação realmente séria com ninguém. – tinha o
cenho franzido, achando-se esquisito por abrir sua vida a um estranho. – Tive
algumas paqueras que duraram alguns meses... Mas mesmo que fosse com uma menina
bonita, simpática, inteligente, sempre desconfiei na hora de dar um passo à
frente, sempre achei que elas não me entendiam direito, ou que eu não poderia
confiar nelas plenamente, ou que não daria certo uma vida a dois no futuro.
Sempre foi assim – arrependido de ter dito tanto, encobriu sua vergonha com um
novo gole no café, desviando o olhar.
-
Sei como é isso, vivi algumas situações assim antes de casar – disse Ricardo. –
incerteza, insegurança, você acha que não vai dar certo, mas se sente culpado
quando desiste, ou fica se perguntando como seria...
-
Você conhece minha situação, eu é que não conheço a sua. Não sei o que posso te
dizer.
-
Bom, não sei se essa merda que eu estou vivendo agora vai te tirar o ânimo em
arrumar alguém que seja sério, nem sei se você ainda tem essa expectativa, mas
não quero que seja assim. Foram oito anos muito bons, acho que valeu a pena ter
vivido isso, ainda que tenha terminado desse jeito tão estranho.
Siqueira
riu de canto de boca.
-
Agradeço sua preocupação, mas acho que já tenho todo tipo de referências, de
amigos, parentes... Casamentos felizes que terminaram de repente, casamentos
infelizes que começaram errado e terminaram rápido, casamentos que os
envolvidos não sabem se está sendo bom ou ruim durante anos... Tenho todo tipo
de visão sobre o tema – e riu novamente, um riso curto em meio a um semblante
sério, num esforço inconsciente e descomunal para não revelar mais fraquezas.
-
Bom, agora você conhece um cara que não sabe o que fazer, que tá na merda, mas
que não culpa a mulher que acabou com o casamento e valoriza o que viveu junto
a ela – Ricardo riu tristemente, refugiando-se no café.
-
Bom, bem, bem mesmo, ninguém está, não é mesmo? – Siqueira deu outro de seus
risos moderados e encostou a xícara na boca, virando-a de uma só vez. – Ninguém
está bem, Ricardo. Quem você acha que está bem às vezes é uma pessoa
angustiada, ou até está numa boa mas de repente acontece alguma coisa que põe
tudo a perder. – Silêncio. Siqueira procurava algo no bolso. – Você não é o
primeiro a ver alguma coisa desabar, a perder algo que adorava... e
infelizmente não vai ser o último. – depois de remexer o bolso, sacou, enfim,
uma cédula amarrotada. – Vou deixar o café pago...
-
Não, não – disse Ricardo, estendendo a mão para parar o gesto de Siqueira. – De
maneira nenhuma, quem paga aqui sou eu, estou retribuindo seu favor.
-
Tudo bem – disse Siqueira, guardando o dinheiro. – Eu agradeço...
-
Mas você já vai embora? Agora que a conversa começou a ficar boa, tem uma coisa
aí que você disse, que...
-
Desculpe – interrompeu Siqueira. – Mas eu acho que já falei demais. Não sou de
abrir minha vida, assim como não sou de filosofar e dar palpites na vida dos
outros, e acho que se eu continuar aqui, vou fazer tudo isso a ponto de me
arrepender amargamente – sorriu, ajeitando-se e pegando o guarda-chuva que
estava encostado num canto.
-
Mas por quê? Não é bom ter alguém com quem conversar?
Siqueira
levantou-se.
-
Tão bom quanto perigoso. Espero ter sido útil a você de alguma forma.
-
Ah, foi muito útil – disse Ricardo, sorrindo. – Já fez sua boa ação do dia,
Siqueira.
-
Fique bem, meu caro – disse Siqueira simplesmente, e deixou a cafeteria.
Ricardo
seguiu com seu café, pensativo, o término do casamento dividindo espaço com a
estranha figura que acabara de conhecer. Que mistérios se esconderiam sob o
rosto anguloso e quase impassível de Siqueira? Ricardo imaginou que talvez
aquele curioso personagem talvez guardasse mais sofrimentos do que ele próprio.
Lá fora, lutando contra a chuva e andando com passo firme, Siqueira mal olhava
para onde ia, com o pensamento a mil. Arrependia-se de ter dito tanto, mas
arrependia-se também de não ter ajudado tanto o sofrível sujeito que havia
conhecido. Um cabo de guerra se formava em sua mente, contrapondo seu jeito
sisudo, reservado e silencioso de ser com o que achava que deveria, ou o que
poderia, ter feito por aquele pobre homem.
Inexorável,
só mesmo a chuva, que descia violenta de nuvens cor de chumbo, e o sofrimento,
marca elementar da natureza humana.
Talvez o Siqueira estivesse ainda em pior estado que ele, mas, por empatia, abriu temporariamente mão da própria dor para olhar a do próximo, o qual, talvez, achava-se o maior sofredor do mundo... mas cada um tem suas maiores dores do mundo particulares.
ResponderExcluirExcelente, Lucca. E sigo aprendendo com vocês.
É muita honra reconhecer você e suas referências em seus personagens, você segue sendo preciso nas mensagens que quer passar ao leitor. Amo você.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirLucca, a gente sempre se deixa escapar quando o assunto é o papel. É como tentar conter uma torneia de água corrente, cujo fluído que escorre vem de nós mesmos - somos nós. Nesse caso, eu concordo com Dani, apesar de você e eu estarmos nos conhecendo melhor, agora. Não posso afirmar que vejo, mas assim como num insight, enxergo lapsos seus. Tanto na concha reservada, misteriosa e até cortante do Siqueira; como na pureza, melancolia romântica e contemplações do Ricardo. (E essa interação personagem/ nós mesmos, na verdade, é muito bonita!).
ResponderExcluirParabéns! Excelente, reflexivo e aconchegante texto.
* O comentário de Witalo também foi na veia!