I
A
luz apareceu por entre as nuvens e banhou, inesperada mas lentamente, a sala do
presidente, através de uma janela de caixilhos pequenos. Silveira, até então
distraído em sua cadeira, a cabeça apoiada numa mão cansada e pouco convicta,
olhou, com moderada surpresa, o banho dourado que invadiu sua sala, naquela
manhã nublada de janeiro. Suspirou, mudou de posição e conferiu o relógio, sem
realmente ver que horas eram. Que importava mais, àquela altura? Quando se está
no final de um mandato não renovado em virtude de uma derrota eleitoral, nada
tem realmente muita importância. Mal sabia a sua agenda, pensou Silveira, com
um risinho. Segundos depois, a porta se abriu, franqueando a passagem de uma
mulher alta, de feições equilibradas e sérias, chegando à meia-idade: Hilda,
sua secretária pessoal.
-
Senhor presidente – disse apenas, enquanto fechava a porta e avançava rumo à
mesa de Silveira.
-
Prossiga, Hilda.
-
Vim repassar com o senhor a agenda de hoje – disse, abrindo uma pasta de
aspecto opulento. – Logo mais, às dez e meia, o senhor tem uma reunião com Vasconcellos.
Depois, um almoço com os quatro estudantes campeões da Olimpíada Escolar do ano
passado, algo simples, reservado, com uma rápida aparição para a imprensa
depois. Às três e meia, o comitê de campanha vem fazer alguns acertos...
-
Comitê de campanha? – Silveira reagiu com desgosto. – Ainda isso? Pensei que
tínhamos terminado. Não tem nada pior do que conversar com o comitê de uma
campanha que já foi derrotada.
Hilda
parou, dando um meio-sorriso conciliatório.
-
Sei que não foi como queríamos, presidente, mas...
-
Pode parar de me chamar de presidente, até – disse Silveira, levantando-se e
pondo-se a andar sem rumo num passo lento. – Faltam só seis dias pra acabar
esse suplício. Fingir que governo, cumprir agenda, resolver problemas de uma
campanha derrotada... Não vejo a hora de entregar a faixa.
-
Pode parecer piada, Silveira, mas acho que o senhor deveria aproveitar o cargo
enquanto ainda está nele. Depois de tanta luta...
-
Você não sabe como é, Hilda – disse Silveira, balançando a cabeça. – Você, como
secretária, assistente pessoal, chefe de gabinete, ou o que você quiser ser
daqui pra frente, vai ter emprego com certeza no futuro, e vai ser mais ou
menos a mesma coisa que esse. Comigo não. Sou um morto político, com demissão
marcada, e sem volta. Governar agora não é o mesmo que há meses atrás. Não
posso iniciar um projeto, propor uma lei, iniciar um diálogo internacional,
procurar os líderes das bancadas da Câmara pra buscar um acordo sobre o que
quer que seja. Nada – enfatizou Silveira, lábios crispados, mãos na cintura,
olhar perdido pela janela. – Se eu tivesse mais quatro anos, o fim de meu
mandato seria tranquilo, e quem sabe eu estivesse passando o cargo a alguém do
meu partido. Mas assim? – o presidente voltou-se, abriu os braços e os deixou
cair. – Tenho 64 anos, estou cansado, ultrapassado, não sou figura benquista no
partido, dizem que não sei negociar, que meu apoio não conta muito. Estou
morto, Hilda, sou um morto político, daqui a seis dias só o que terei serão
cargos de segundo escalão em algum governo estadual, participações discretas
nas convenções do partido, entrevistas em revistas de segunda categoria. Não
vou disputar mais nada, não posso, não quero, não tenho cabeça mais pra isso,
não quero me acabar em meses de campanha pra virar um deputado do baixo-clero. Simplesmente
acabou.
Hilda
remexeu-se, desconfortável. Mordia o lábio inferior.
-
Diga, Hilda. Pode falar, está na cara que você quer dizer alguma coisa – disse
o presidente, sentando-se novamente.
-
Nada, senhor presidente... – Hilda tinha o olhar vago, fitando o chão, ou
talvez o infinito. – Sei que teremos tempo para despedidas, mas apesar de tudo,
gostaria de dizer que tem sido um prazer trabalhar com o senhor nesses anos.
Acho que o senhor fez muito, fez o que pôde... Acho que deve se orgulhar, em
vez de se perder nessas lamentações.
II
O último dia completo de mandato do presidente Silveira – ou seja, a véspera do dia no qual seria empossado o ambicioso e carismático jovem que encantara o país com seu discurso de conciliação e progresso – amanheceu tranquilo, ensolarado, glorioso. Silveira acordou muito cedo, levantando-se sem acordar a primeira-dama, e tomou um banho frio, sendo encontrado pela esposa recém-acordada já no final do café.
- Que energia – admirou-se a primeira-dama, estranhando a disposição do marido em acordar cedo e fazer as tarefas rapidamente, justamente no último dia regular de mandato. – O que é que há? Quer terminar o mandato de bem com a vida?
- Mais ou menos isso – disse Silveira, terminando um copo de suco. – Se minha carreira política vai acabar, tenho de fazer valer enquanto ainda estou nela. Já resolvi todos os detalhes da cerimônia, já fui a todos os eventos oficiais que tinha de ir, hoje vai ser um dia tranquilo, só assinar alguns papeis de sempre e me despedir formalmente da equipe.
- Não precisa do dia todo pra isso. Por que sair tão cedo?
- Como eu disse, quero aproveitar.
No carro oficial, olhando pela janela, Silveira prestava atenção na avenida como nunca antes. Viu ônibus, pessoas caminhando. Estudantes, trabalhadores, desempregados, aposentados. Gente comum, de carne e osso, que não fazia campanha nem tinha mandato. Conseguiria ser um deles? A pergunta pairava no ar, mas a resposta não tardaria. Em pouco mais de 24 horas, Silveira não seria mais o presidente e teria de tocar uma nova vida, por bem ou por mal. O presidente suspirou. Último dia de mandato. Sensação estranha, tida por poucos brasileiros.
Chegando no palácio, foi abordado pelo seu chefe de gabinete.
- Senhor presidente, conseguimos atender ao seu pedido. Selecionamos todos os projetos aguardando sanção presidencial, mesmo aqueles que o governo pediu renegociação, os projetos de decretos, medidas provisórias, enfim, tudo o que o senhor pode deferir de imediato. Estão na sua mesa.
Silveira agradeceu com um sorriso. Entrou em sua sala, deparando-se com uma grossa pilha de papeis. Lembrou-se, enquanto sentava à mesa, que coisas paradas são energia parada, como costumava dizer. Será que decretos, projetos de lei e medidas provisórias também contam? Pegou o primeiro documento da pilha.
“... dispõe sobre a criação de reservas indígenas no estado do Mato Grosso”. Oh, sim, que briga aquilo dera. A bancada ruralista foi firmemente contra a demarcação de novas reservas indígenas, e após muitas negociações, nada ainda fora feito. O partido de Silveira não era exatamente ruralista, mas, como bom fisiologista, flertava com aquele setor da política e recomendara mais alguns meses de negociações, e, claro, concessões aos latifundiários. Outro: “... cria datas oficiais no calendário”, nossa, quantas profissões ganhariam seu dia cativo no calendário oficial. Como um decreto inofensivo como esse nunca havia sido aprovado? Sequer desagradava a algum setor da política, era coisa meramente simbólica! “... autoriza a execução do Projeto de Habitação...” sim, lembrava-se desse, a empresa que vencera a licitação não era aquela que a equipe de governo desejava e o projeto ficou de ser “aprimorado” a fim de que a construtora “parceira” da base aliada tivesse nova chance de construir as tais casas populares. “... dispõe sobre o porte de armas de fogo...” apesar de contar com aprovação popular, a base aliada não quisera, e a plataforma do candidato eleito também não previa isso.
Silveira passou uma hora, duas, lendo a documentação. Depois, chamou sua equipe de redatores: já sabia o que fazer. No último dia de mandato, após um governo truncado, poucas realizações, oscilações de aprovação popular e parlamentar, e, sobretudo, depois de uma derrota não humilhante, porém dura, numa eleição que Silveira deveria ter vencido, o presidente tinha, finalmente, um rumo, um propósito, um último objetivo de governo. Se sua aposentadoria era inevitável, que pelo menos fosse um pouco mais tranquila.
- Pronto, senhor presidente, o texto está pronto e assinado – silêncio. – À tarde, o evento de despedida com a equipe é apenas às dezesseis horas, o senhor deve terminar o almoço no máximo às catorze. Há algo que queira encaixar nessas duas horas? Tem algumas pessoas que desejam ver o senhor...
- Não, Aragão, muito obrigado – disse Silveira, interrompendo o funcionário. – Vou voltar para casa. Acho que vale a pena tentar tirar uma soneca depois do almoço, há anos que não faço isso direito.
Aragão sorriu. Nunca vira o presidente de tão bom humor.
"...Pai, aparta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue."
ResponderExcluirImagino o alívio...
Excelente, para variar.
<3
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ResponderExcluir" Como um decreto inofensivo como esse nunca havia sido aprovado?
ResponderExcluirSequer desagradava a algum setor da política, era coisa meramente simbólica!" Não deixei de conter o riso, aqui! Acho que uma das coisas que o marketing político mais aproveita, são essas tais datas comemorativas. Eu mesma trabalhei numa agência onde tinha (uma das) ingratas tarefas de escrever essas frases. Socorro! Rs!
Excelente! Nostálgico, muito bem descrito e com toques de ironia. Como você é uma pessoa engajada na política, tem ainda bastante terreno pra escrever ótimos textos sobre isso, Lucca!