Tendo desligado a televisão, Ademir levantou-se lentamente, num suspiro, e pôs-se a andar no seu passo estudado até a cozinha, passo lento, cauteloso, de gente que já viveu 79 anos e sabe que uma queda pode ser fatal. Passando pela sala empoada e repleta de relíquias - incluindo um resistente relógio de mesa que funcionava à corda, religiosamente, sem parar para nada além de limpeza e rápidas manutenções há pelo menos um século e meio - , chegou à cozinha. Bem equipada por mérito de sua falecida esposa, a cozinha da velha casa de seu Ademir não era usada em todo o seu potencial, e talvez nem fosse limpa na frequência que deveria. O solitário morador daquela casa se limitava a usar a cozinha para fazer café, sanduíches, raramente inventar alguma coisa de almoço, e, falando sério, odiava aquele cômodo, o qual não entendia muito, que achava desagradável, pouco útil e até infecto, e, sinceramente, mais que tudo, o lembrava de sua falecida esposa, que passava ali pelo menos metade do dia, quando viva, é claro.
Com um novo suspiro, Ademir abriu a despensa, vislumbrando um pacote de chás ordinários. Pegou-o, abriu, cheirou, bom, chá tem cheiro de chá, o que ele esperava encontrar?, tirou um saquinho, e, fechando a porta da despensa com estrépito e um resmungo, encaminhou-se à pia, para pegar uma panela e esquentar água para fazer a beberagem.
Eis que toca o telefone.
Seu Ademir, num rompante de impaciência - ou "rabugentice", como diria a simpática neta pela qual o avô não sentia lá grande simpatia, embora ela ignorasse o fato - , bateu com a panela na cuba da pia, contrafeito. Sem dúvida, era de novo Leandro, que porre, que chatice, já conversara o que tinha para conversar por enquanto, mas sem dúvida era de novo ele insistindo, e pior, forçando o combalido e apático seu Ademir a retornar à sala para atender o bendito telefone, ainda de fio, veja só.
- Alô - disse, com voz impossível de ser menos amistosa.
- Pai? Oi, pai, é Leandro. Desculpe ligar de novo...
- É, eu estava fazendo um chá - retrucou Ademir. - É ainda aquela história de eu morar com vocês?
- Não, veja - apressou-se o filho. - é o mesmo assunto, mas é que surgiu uma coisa diferente. Seu Osmar disse que está vindo morar aqui na rua nos próximos dias. Pensei que pudesse interessar ao senhor, quem sabe o senhor se anima a vir morar com...
- Osmar? Osmar, irmão de Botelho? Vai morar aí em sua rua? - havia algo de diferente na voz de Ademir.
- Sim, ele mesmo, Osmar irmão de Botelho. O senhor vê ele tão pouco, achei que sabendo disso, talvez... Sabe, pai, queria tanto que o senhor viesse. Ficar sozinho aí nessa casa é um perigo, além do mais não faz bem, o senhor vai só ficar lembrando de minha mãe...
- Sim, já sei seu argumento, não precisa dizer de novo. Essa de Osmar é que é nova. Bom, tudo bem, tá dado seu recado. Me deixe aqui um minutinho que eu tenho que tirar a água do fogo.
- Certo, pai, um abraço. Pense no assunto.
A água não estava no fogo ainda, diga-se. Desde que a esposa morrera, alguns meses antes, Ademir vinha constantemente sendo persuadido pelo filho a mudar-se, a fim de que tivesse um final de vida mais "seguro", "confortável", e ademais, "aí nessa casa você vai lembrar de minha mãe o tempo todo"... não cansavam de insistir. Aquela, ora, aquela era casa onde Ademir aprendera a viver, na qual estava acostumado a tudo. Mudar-se naquela idade mais pra onde? O destino é esse e pronto, pensava, morar sozinho até tem suas vantagens.
Mas e Osmar, irmão de Botelho? Era uma novidade para seu Ademir saber que Osmar, amigo de longa data, irmão de Botelho, outro amigo de longa data, esse já falecido, iria morar na mesma rua que o filho. Como Leandro teria descoberto esse fato? Não sabia, poderia até ser mentira, invenção para fazê-lo se mudar de uma vez. Osmar, que Ademir via tão pouco, na rua de Leandro? Seria excelente poder ver o velho amigo com frequência - visto que a atual andava em duas ou três vezes por ano - , quem sabe jogar um dominozinho, tomar uma cervejota descompromissada. Não sabia nem se Osmar ainda podia beber. Aliás, pensou seu Ademir, quem não pode beber sou eu, o médico vetou já há uns três anos.
Bom, pensou Ademir, sabe de uma?, vou ligar para Osmar, vou tirar essa dúvida agora, em todo caso é bom que falo com ele, tem meses que não ouço falar nele. Catou a agenda velha, forçou a vista para entender seus garranchos, achou o apontamento: "Osmar de Botelho", com o número do lado. Ligou.
- Alô - disse uma voz inexpressiva do outro lado.
- Alô, Osmar? - seu Ademir teve dúvidas, não reconhecia mais a voz do amigo.
- Sim, sou eu.
- Osmar, irmão de Botelho?
Bom: era, de fato, Osmar, irmão de Botelho. Os dois amigos desataram a conversar. Osmar tinha muitas novidades - esse amigo morreu, aquele está caduco, o filho havia terminado mestrado, mas em quê, ele não sabia - e Ademir viu-se absorvido pela conversa, tanto que, dez ou quinze minutos depois, desligou.
Opa. Não perguntara se Osmar, irmão de Botelho, iria de fato morar na rua de Leandro. Maldita velhice, pensou Ademir, estou ficando esquecido e maluco. Mas é por isso mesmo, pensou, é por isso mesmo que tinha de continuar morando em sua casa. Desse jeito só iria ficar mais desgostoso da vida, e pior, dar trabalho ao filho. Aliás, seu Ademir não gostava da nora, diga-se. Mudar-se pra quê? Nem adiantava saber se Osmar iria morar na rua de Leandro ou no inferno, ele, Ademir, seguiria morando ali, era o que queria, que idiotice fora vacilar na sua decisão por imaginar que estaria perto de Osmar. Quem, afinal, era Osmar no jogo do bicho, para ter essa relevância? Não havia amigo do peito no mundo, nem filho, que fizesse Ademir sair dali.
Resoluto, seu Ademir voltou à cozinha, decidido a preparar o chá. E rápido, pois a novela já ia começar.
Maravilha.
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