Pular para o conteúdo principal

Sábado Cinza-Azulado #2: Noite Sem Luz



Parecia o meio da noite quando acordei. Nenhum som de rua, de cães, de gatos, de manga caindo no telhado; era um silêncio tipo esses que a pessoa deve experimentar quando morre. Ao meu redor, um escuro tão escuro que parecia matéria. “Deve ter faltado luz”, pensei, e parecia ter acontecido com a vila inteira. Era pequena, dessas de beira de estrada, a vila onde eu morava, e quando havia algum problema na subestação de energia, o que acontecia às vezes, voltávamos aos velhos tempos dos candeeiros, velas e causos de assombração contados nos passeios, salas e quartos.

Tentei levantar da cama e ir procurar uma vela, mas uma força contrária à minha fazia-me permanecer deitado; pensei ser a preguiça, então mais uma vez forcei o corpo para fora do leito e, com esforço descomunal e tateando aquele escuro palpável, fiquei de pé. Saí andando pelo recinto, fazendo uso apenas do tato, que era o único sentido útil na ocasião. A casa parecia ter ficado mais larga e os móveis, antes com textura de madeira lixada e envernizada, tinham uma aspereza de cimento ou pedra sem polir. Cheguei a duvidar do meu único sentido que funcionava, mas era quem me guiava, sozinho, pelo breu. O silêncio era tanto e a ausência de luz era tamanha, que seria capaz de ouvir uma formiga destroçar um grão de açúcar a metros de mim e enxergaria um vaga-lume na montanha do lado oposto da estrada.

Segui tateando os móveis, e eles não pareciam ter fim. Pensei andar em círculos. Continuei a caminhar, dessa vez deixando uma parte do que vestia e calçava pelo caminho, para o caso de estar mesmo rodando perdido. Pareceu dar certo, visto que, ao deixar camisa, calção, um pé e depois o outro das sandálias, fiquei completamente nu e descalço, não me esbarrei com nenhuma dessas peças depois de tê-las deixado no chão, e seguia. Precisava apenas achar o armário com as velas, e isso não demoraria mais. Entretanto, tateando quinas e tábuas frias e porosas, não achei o que buscava, continuando no escuro. Nesse momento, um medo tamanho tomou conta de mim, pois me via perdido no meu próprio lar, duvidando se realmente o que acontecia era real ou se eu, de repente, não havia acordado cego e surdo por alguma paga pelos pecados cometidos no correr dos meus poucos anos; acreditava em karma e, nessa noite, passei a acreditar e a temê-lo como nunca antes.

Se pouco fiquei perdido, fiquei um quarto de dia, ainda que parecesse eterna aquela noite. Nunca havia antes imaginado o terror que é não poder enxergar nem ouvir absolutamente nada. O tato, que ia aguçando gradativamente, permitiu-me sentir um frio de terra orvalhada no chão; pobre de mim, que meu último sentido parecia tão louco quanto eu, pois meu chão era feito de tacos de madeira. Lembrando-me das preces que fazia quando criança toda vez em que acordava no meio da noite achando ter um espírito no quarto, comecei a rezar, pedindo a Deus direção. Não sabia se rezava com a boca ou com a voz da mente, pois pouco parecia fazer diferença diante do contexto. Jurei a Deus nunca mais seguir um caminho torto sequer se Ele me pusesse, ao menos, em direção ao meu bendito armário que guardavam as velas. Só as velas importavam, só poder enxergar novamente já seria renascer das cinzas. Queria me desprender daquela escuridão a qualquer custo.

Deus parece ter ouvido a minha desesperada prece pois, quando senti minhas lágrimas sorverem do meu corpo, enquanto cobriam meu rosto e meu peito, todo o pouco calor que restava, avistei, através do verniz lacrimoso sobre os olhos, uma singela luz que parecia estar atrás de uma figura humana parada, a uns cem metros de mim. Aquilo foi como ver a Deus! Eu enxergava! Uma mera luz borrada em eclipse total com um corpo inerte, em pé, mas era uma luz e era um corpo. Eu via. Jesus, eu via! Corri como pude, com os braços sempre a 45 graus à frente, buscando tocar nalgum móvel e evitar esbarrões. De vez em quando as quinas e laterais de uma peça retangular eu sentia contra os dedos, de vez em quando parecia correr num corredor vazio. Por fim, a dois metros da luz, parei.

Ao chegar perto da figura humana em contraluz, percebi que se tratava não de uma pessoa, mas de uma estátua: a de uma mulher com a cabeça voltada para o chão. Nesse momento, percebi que minha audição também não havia se perdido, pois pude ouvir como que um murmuro bem baixinho do mesmo lado onde a luz estava. Curioso e decerto assustado, porém feliz, rodeei a imagem pela esquerda e percebi haver uma pessoa, uma pessoa que chorava bem baixinho e dizia coisas como quem as dizia para alguém que não estava ali, tão baixo falava. Pareceu-me alguém conhecida, mas os olhos ainda marejados e com a visão turva me impediram de identificá-la. Fui me aproximando dela enquanto esfregava os olhos, na intenção de saber o que se passava, pensando em confortá-la e me confortar também, pois parecíamos os dois perdidos. Fiquei lado a lado com ela, fitando-lhe firmemente o rosto e ainda esfregando meus olhos. Por fim, quando eles secaram, consegui enxergar claramente e me alegrei, pois era a minha Inocência, a minha amada que havia viajado para lecionar Português na cidade. Alegrei-me porque ela havia voltado antes do tempo e chegou em hora de muita precisão.

Esquecendo um pouco de mim e tentando imaginar a razão pela qual chorava meu amor, perguntei-lhe o motivo do choro e se havia ela também se perdido na noite sem luz. Ela, sem me dar nenhuma atenção, permanecia chorando e olhando para a direção da única fonte de luz que presente: uma vela. Eu, que o desespero arrebatava novamente, resolvi tirar os olhos dela e perceber para onde, o que ou a quem era direcionado seu pranto. Então, fincando o olhar para onde mirava Inocência, pude ver de frente a estátua, de um mármore branco que parecia bem novo, cujos pés jaziam sobre um retângulo também alvo de mármore, de uns 50 cm de altura. Era uma estátua que sustentava um semblante triste, com o rosto pendido para o chão e as mãos apertadas contra o peito. Entre seus pés de mármore e a grande peça geométrica de meio metro fixada no solo, enxerguei (ao mesmo tempo em que não pude mais sentir o chão debaixo dos meus pés) algumas palavras em baixo-relevo no mármore, as quais diziam: “José Laurindo Ariza ☼1977 — †2012”.

Eu via a minha última cama.

Comentários

  1. Muito sensível, emocionalmente e sensorialmente! Você tem talento! :)

    ResponderExcluir
  2. A riqueza e a intensidade dos detalhes nos coloca ali, seguindo os passos do sr Ariza... Fantástico!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prosa de Quinta #2: Algumas Cartas Não Devem Ser Abertas

Ela acreditava em anjos e, porque  acreditava, eles existiam [Clarice Lispector]. 1 A chaleira apitou, tirando Daniela de um devaneio. As mãos, vestidas em luvas de cozinha, ergueram um envelope de 114 x 162 mm. O vapor atingiu o fecho. Vinte segundos depois, com toda a cautela possível, uma pequena lâmina foi passada por baixo da aba do envelope, partindo o lacre amolecido. — Voilà ! — disse, retirando a carta. Salvador, Bahia, 5 de maio de 1993. Elsa, Será que jamais percebeu minha indiferença pelos seus sentimentos e aflições? Imagino que tenha contratado um detetive (que deve ter sido caro) para descobrir minha localização e enviar aquela carta patética. Nela você diz que ficou doente e só minha presença poderia te acalmar ou te salvar. Pelo amor de Deus, Elsa, és louca de fato ou está ensaiando para entrar num sanatório? Eu voltar? Acorde! Jamais gostei de você. Fiquei ao seu lado por simples interesse. Suas amigas bem que tentaram te avisar, mas voc...

Prosa de Quinta #1: A Última Noite

Dizem por aí que o maior fardo que uma mulher  pode carregar é o conhecimento futuro da solidão. 1 Bartolomeu bateu na porta. Ele esperou mais alguns segundos e bateu outra vez. De repente, em sua mente, a ficha caiu. Foi tão estranho, tão perturbador perceber que depois daquela noite jamais bateria naquela porta novamente que, na terceira vez que bateu, fez isso com suavidade. — Bartô? — indagou uma voz familiar. Ela já deveria estar esperando por ele. Como sempre, ele tinha telefonado antes de ir e, naquela noite, aproveitou para antecipar o motivo do fim do relacionamento pelo telefone.  — Sou eu. A porta foi aberta bem devagar.  — Você está bem, Verônica? — Sim... Entre, Bartô. 2 Ele entrou. Verônica trajava uma camisola-lingerie preta de seda pura. O tecido parecia abraçar seu corpo de curvas suaves. Ela foi até um canto da sala de estar, abriu uma garrafa de vinho tinto e encheu uma taça. — Estou com sede, encha mais. — Vá com ...

Babado de Segunda #2: A mulher gorda

Era mais uma nostálgica tarde de domingo, não tinha amigos nem para onde sair. Deitada no sofá, movimentava o controle remoto em busca de alguma programação que lhe agradasse. Suada, impaciente, coberta de preguiça, levantava-se apenas para tomar água e pegar alguma coisa para comer. A casa simples, pequena, morava sozinha, a geladeira repleta de guloseimas, há anos prometia-se um regime e as segundas sempre começaria uma caminhada.  A programação dominical da TV aberta permitia-lhe apenas programas pejorativos, a grande maioria exibindo belas mulheres de corpos esculturais, mostrando lingeries sensuais e micro biquínis em praias. Aquilo era nauseante, torturante, precisava mudar de canal, não poderia maltratar-se tanto assim. Em um súbito ato de revolta, apertou o controle remoto com força o que fez com que mudasse de canal, decidiu então assistir aquele filme, envolver-se mergulhada na história de amor do jovem casal, desejou ser a mocinha a beijar o galã. No int...