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Sábado Cinza-Azulado #1: 1986


O sol do meio-dia coroava imponente o céu da cidade quando Eloi saiu pelo portão do colégio rumo à sua casa. Nos postes do caminho, alto-falantes entoavam hits de 86 e competiam com a música urbana tão organizada em sua desorganização.

Eloi descia a ladeira da Central, seus olhos lá no horizonte, mirando a Cidade Baixa e sua igreja dos Mares, os navios e o mar, os quais pareciam tão calados à distância; invejou-os, queria estar ali, longe, também calado e indiferente às aflições pessoais e ao barulho ensurdecedor e ecoante da voz de Helena a lhe dizer “Não!” com toda a naturalidade do mundo, como se tivesse negado um biscoito e não um amor.

Ninguém nos alto-falantes cantava a dor de Eloi, mas, ainda assim, ele se consolava com o que podia colher das músicas feitas para outros Elois com outras dores de certa forma semelhantes. Às vezes se perdia tanto ao acompanhar emocionado as canções que, sem perceber, estava a poucos metros da porta de casa.

Na pacata Rua do Meio, num quarto bem fechado e inimigo de luzes que não a da sua lâmpada GE amarela, Eloi tirou os sapatos, jogou a mochila no chão e se entregou à cama. Olhava para o teto como quem assiste a uma retrospectiva de TV, e seu peito se inchava a cada suspiro que dava. 

Pensava em Helena, sua vizinha, sua colega de sala, a menina mais bonita do bairro, a personificação da musa romântica dos poetas malditos; na cabeça do pobre rapaz, tudo isto era verdade, sua verdade particularmente universal.

Cansado dos loops infinitos da mente, sempre em torno de uma mesma coisa, cansado de virar os lados do disco e remoer a dor repetidas vezes, o rapaz resolveu sair pra rua, respirar, ver os amigos, comprar o pão do final da tarde. Entretanto, como um carma de dez vidas, ao virar a primeira esquina, viu sua Helena, com cabelos dançando ao vento e seu sorriso de canto a canto do rosto, no banco do carona de um Puma vermelho conversível de Max, o cara mais rico do colégio, cuja carona era competida entre as meninas mais populares e bonitas de lá também. 

Como quem toma um soco no estômago e finge não ter doído para sair como o forte da história, Eloi seguiu seu caminho até a padaria. Por três vezes o atendente teve que lhe perguntar para que ele ouvisse e respondesse “Sim, são dez pães de sal”. Zé, seu amigo, que passava pela frente da padaria, avistou-o e lhe perguntou se iria à festa mais tarde.

“Que festa, cara? Não tô sabendo não!”, respondeu Eloi.

“Ué, vai ser na casa de Camila. Vou passar na sua casa e a gente vai junto”, disse o amigo.

Sem norte, sem cabeça, Eloi pôde apenas consentir com a cabeça e seguiu de volta pra casa.

Era aniversário de Camila, a melhor amiga de Helena, que morava em uma das melhores e mais espaçosas casas do bairro, o que fazia de lá o local ideal para festas. Todos iriam, era uma certeza, e Eloi resolveu ir também.

Em casa, Eloi sentou-se no concreto que beirava o telhado e esperou o resto da tarde morrer no horizonte, perto dos invejados e silenciosos navios na Baía de Todos os Santos. Ele pensava, suspirava, chorava uns pares de lágrimas e tornava a pensar de novo, enquanto a dramática cena do sunset ia chegando ao fim e a noite se apresentava, trazendo consigo o breu furado por estrelas.

Sem condições de ter pensado sequer no presente para Camila, Eloi olhou para todos os cantos do quarto e procurou algo que pudesse agradá-la. De tudo que pôde ver, puxou um LP do RPM muito estimado e resolveu levá-lo para a aniversariante. Tomou banho, perfumou-se, meteu um jeans e uma camisa de botão e esperou o Zé na porta. 

Seguiram.

Quanta gente na festa. As duas primeiras horas já haviam passado e praticamente toda a juventude do bairro e da turma estava lá. Helena não estava e Eloi não sabia se isso era bom ou ruim. Num canto, parado, tomava guaraná e assistia toda a mecânica inerente a um evento socado de adolescentes. Não tinha ânimo para simpatias e para sequer estar ali, mas algo lhe dizia para estar.

A música parou, alguém puxou um microfone e chamou a atenção de todo mundo: “Gente, para tudo! Agora a gente vai ouvir um presente que ganhei do Eloi. Valeu, Eloi! Amei!”, disse Camila e pôs o vinil para tocar. O rapaz conseguiu dar um sorriso de canto de boca quando percebeu que não só a menina, mas todo mundo da festa curtiu o som e começou a dançar.

O disco já tocava Estação do Inferno quando aquele anjo pálido surgiu por entre a multidão: Helena, o ser sobre o qual caía tão perfeitamente a cor preta como em mais ninguém cairia. Logo depois dela, Max, arrumado como sempre, atraindo os olhares mais cotados para si. Eloi não soube pesar a presença da moça como boa ou ruim; doía como socos na alma, de fato, vê-la tão perto e acompanhada por outra pessoa, mas tê-la refletida nas íris era como drogar-se com algo forte, pouco se importando com a ressaca logo após.

“Fera, de longe eu consegui ver você vidrado em Helena. Não desiste não? Ela tá com o Max, o cara entre os caras”, disse Zé com tom brincalhão.

“Zé, essa mulher é tudo o que eu queria”, respondeu Eloi.

“Deixa no 'queria' mesmo, cara, e não queira mais. Ela não é para você”, falou o amigo.

“Queria pagar para ver, irmão. Acho que vou aproveitar qualquer vacilo daquele mauricinho e vou chegar nela e me declarar”, insistiu Eloi.

“Bom, como amigo eu cumpri minha parte. Olha o tanto de garota ao redor, cara. Te encontro lá no meio da galera”, tentou animá-lo o amigo.

Eloi continuou isolado, a cabeça fervilhando, e algo lhe dizia que o certo a fazer era chegar nela e tirar aquele nó da garganta. Tomou fôlego, ajeitou a roupa, mexeu nos cabelos, puxou da memória os versinhos que havia feito para ela e, aproveitando que Max tinha ido flertar sorrateiramente com uma garota na cozinha, foi falar com Helena:

“Helena, oi!”

“E aí, Eloi. Não tinha visto você.”

“Eu cheguei agora.”

“Ahan...”

“Helena, preciso te falar uma coisa.”

“Não precisa. Seu olhar já diz demais, Eloi. E se for o que eu tô pensando…”

“Espera eu terminar.”

Eloi olhou nos olhos de Helena com a coragem recauchutada e lhe recitou um poema que lhe escrevera há dois anos, mas nunca o havia mostrado. Nele o rapaz se entregava por inteiro a um amor idealizado com ela, colocando-a como a letra N da sua pueril bússola.

Em resposta, com a preocupação de quem retruca um convite de vendedor de porta de loja, Helena respondeu:

“É bem bonitinho ele, mas a resposta continua sendo 'Não'. Desculpa.”

Max chegou logo depois, abraçou Helena pelos ombros e olhou desdenhoso para o pobre amante. Puxando a moça para um canto escuro da casa, deu as costas a Eloi, que ficou no mesmo lugar, tentando digerir o desfecho da conversa. Resolveu, então, sair andando sem ser percebido e seguiu até seu lar, e pareceu que a madrugada se compadeceu dele ao não permitir que sequer um grilo cantasse enquanto ele não desaparecesse no horizonte.

No quarto, camisa quase toda desabotoada, ainda calçado, Eloi chorava a perda de quem nunca teve. Abraçado ao escuro, sentia-se o cara mais miserável da Terra e xingava a voz que sempre lhe dizia “Vá!”, entendendo agora que o coração tem menos juízo que a razão.

Enxugou o rosto, levantou para tirar os sapatos e ligou o rádio; queria dormir ouvindo o programa noturno que costumava embalar as suas noites de amante perdido.

“Continue com a gente aqui na Noite dos Enamorados. Estarei com vocês até as cinco com os sucessos românticos nacionais e internacionais”, disse o radialista e continuou:

“E agora com vocês um lançamento que vai falar alto aos seus corações”, e rodou a faixa.

Eloi ouviu-a compenetrado, pois parecia que, finalmente, aquele seu distraído sonho havia se realizado, mas isso já não parecia tão bom quanto pensava que seria.

Ao final da canção, o radialista tornou a falar e concluiu:

“Vocês acabaram de ouvir a novíssima música 'A Vida Não Presta', do Léo Jaime. Espero que tenham gostado.”

Comentários

  1. Onde se lê Jaime nas primeiras linhas, favor ler Eloi. Bug.

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  2. Esse texto é aquele que você torce para ter continuação ! Bem gostoso de lê !

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  3. Na vida eu sou o Eloi. Haaha, vou ler o restante.

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