I
Ao acordar, o primeiro gesto de Carol foi, como sempre, tatear em busca dos óculos, que achou sem demora e colocou no rosto num gesto preguiçoso. Eram óculos de acetato preto, com hastes grossas e lentes arredondadas, uma moldura adequada e instigante para o rosto da moça, rechonchudo, de olhos vivazes, bochechas salientes e boca de lábios grossos e sorriso fácil. Tomando coragem, a moça levantou-se, colocando seus noventa e sete quilos sobre suas pernas grossas e seus pés tamanho 39. Andou lentamente até o banheiro, como de costume.
Ao olhar-se no espelho pela primeira vez no dia, o primeiro gesto que ocorreu a Carol foi pegar no cabelo. Sua mão direita deslizou pela sua nuca, chegando aos cabelos curtos e ondulados, habitualmente arrumados de maneira impecável, mas não naquele momento, de manhã cedo. Após alguns segundos em silêncio, fitando seu próprio rosto intrigado no espelho, Carol dirigiu-se ao vaso, levantando a tampa e sentando, enterrando o rosto nas mãos a título de resignação.
Banho? Morno, como sempre. Sabonete ordinário, xampu nem tanto. Toalha macia, gestos descuidados, perfume padrão. Expressão resignada e pensativa. Calça batida, mas bem passada. Sapatos justos, caminhar firme, não sem alguma ginga.
— Bom dia, seu Antunes — disse Carol, com um sorriso, ao senhorzinho da banca em frente à casa
Ao acordar, o primeiro gesto de Carol foi, como sempre, tatear em busca dos óculos, que achou sem demora e colocou no rosto num gesto preguiçoso. Eram óculos de acetato preto, com hastes grossas e lentes arredondadas, uma moldura adequada e instigante para o rosto da moça, rechonchudo, de olhos vivazes, bochechas salientes e boca de lábios grossos e sorriso fácil. Tomando coragem, a moça levantou-se, colocando seus noventa e sete quilos sobre suas pernas grossas e seus pés tamanho 39. Andou lentamente até o banheiro, como de costume.
Ao olhar-se no espelho pela primeira vez no dia, o primeiro gesto que ocorreu a Carol foi pegar no cabelo. Sua mão direita deslizou pela sua nuca, chegando aos cabelos curtos e ondulados, habitualmente arrumados de maneira impecável, mas não naquele momento, de manhã cedo. Após alguns segundos em silêncio, fitando seu próprio rosto intrigado no espelho, Carol dirigiu-se ao vaso, levantando a tampa e sentando, enterrando o rosto nas mãos a título de resignação.
Banho? Morno, como sempre. Sabonete ordinário, xampu nem tanto. Toalha macia, gestos descuidados, perfume padrão. Expressão resignada e pensativa. Calça batida, mas bem passada. Sapatos justos, caminhar firme, não sem alguma ginga.
— Bom dia, seu Antunes — disse Carol, com um sorriso, ao senhorzinho da banca em frente à casa
— Bom dia, minha filha. Como vai? Tá bonita!
— Vou bem — respondeu ela, sorrindo e tirando discretamente uma mecha de cabelo de cima da orelha. — Tem café?
— Tem sim. — O velho voltou-se para dentro da banca a fim de pegar a beberagem, enquanto Carol encostava no balcão.
— Vou bem — respondeu ela, sorrindo e tirando discretamente uma mecha de cabelo de cima da orelha. — Tem café?
— Tem sim. — O velho voltou-se para dentro da banca a fim de pegar a beberagem, enquanto Carol encostava no balcão.
— Gostei de sua apresentação sexta-feira — disse ele, enchendo um copo de café. — Por que não vira cantora de uma vez, minha filha? Oportunidade você consegue. Esse trabalho seu, esse que você está... não é pra você. Você canta tão bem, Carol.
— Não tenho como ser só cantora agora — respondeu Carol, com um meio sorriso que morria num canto de boca crispado em frustração. — É complicado. Lá na repartição pelo menos consigo tirar um dinheiro. Hoje morar sozinha não é barato...
— Não tenho como ser só cantora agora — respondeu Carol, com um meio sorriso que morria num canto de boca crispado em frustração. — É complicado. Lá na repartição pelo menos consigo tirar um dinheiro. Hoje morar sozinha não é barato...
— Isso é verdade. — Enquanto Carol sorvia o primeiro gole do café forte, Antunes prosseguiu: — Você é uma guerreira, minha filha. Trabalhando, estudando e ainda cantando nas horas vagas.
— A gente faz o que pode — disse a moça, com o sorriso aberto, dessa vez sem ressalvas.
II
A repartição não era o pior lugar do mundo, pensou Carol, arrumando papeis. Tudo bem que não era para sempre, visto que ela não era servidora concursada, mas melhor que não fosse: forçosamente, teria de buscar outros caminhos dentro de um ano, que era o tempo que faltava para findar seu contrato. Quem sabe o que havia para ela no futuro?
O olhar, vivo e atento, ia de um documento a outro, fazendo as revisões que lhe foram solicitadas. A tarefa de auxiliar administrativa podia ser ocasionalmente maçante, mas não era especialmente difícil, e em alguns momentos ensinava coisa ou outra. Carol ajeitou os óculos no rosto ao sentir a vista doer. Percebeu que estavam sujos e os tirou a fim de, meticulosamente, limpá-los no algodão da camisa.
— Oi, Carol! — disse uma voz masculina, jovial mas nem tanto.
— Mariano! — respondeu ela, virando-se rapidamente para olhar o colega, o cabelo curto balançando serelepe e o sorriso reaparecendo. — Tudo bom?
— Tudo bem — respondeu o outro, com ar cansado, sentando-se em outra estação de trabalho. — Ou nem tanto. Não dormi direito.
— Eu procuro dormir direito. Senão fico acabada o dia todo — disse Carol com um risinho, os olhos apertados de volta aos papeis.
— Tenho de melhorar isso. Sou muito desorganizado com meus horários.
— Percebi. Pelo horário que chegou hoje... — riu novamente, lampeira.
III
Não era confortável fazer faculdade à noite, especialmente sendo uma das poucas mulheres num curso tipicamente masculino, repleto de gente maçante e cansada da labuta diária. O que não tinha de agradável, o estudo tinha de necessário.
Gente maçante e cansada? Eu estou inclusa nesse grupo, pensou Carol, com um riso mental que não se traduziu em nada alegre em seu rosto. A feição oscilava de atenta a enfadonha, o sono que ia e vinha atrapalhava a mente a absorver o assunto de uma aula especialmente tediosa. As anotações estavam confusas. Que horas eram? Carol olhou no seu sóbrio relógio de ponteiros e percebeu que só restavam vinte minutos para o fim do dia de aulas. Glória, pensou, logo estarei em casa.
Quando o tempo finalmente findou, Carol juntou suas coisas, levantou-se e saiu sem demora, evitando perder tempo. Cada segundo que perdesse após o fim da aula reduzia suas chances de pegar o ônibus no horário certo, o que não só tornaria a jornada mais perigosa, como a faria chegar em casa mais tarde e perder minutos preciosos de sono.
Chegando ao ponto de ônibus, viu uma das poucas colegas mulheres da turma, Margarida. Ela era uns dez anos mais velha e não era de muita conversa. Protocolarmente, trocaram um boa-noite. Ficariam no silêncio, esperando cada qual seu ônibus? Carol não tinha muito ânimo para falar, mas, para sua surpresa, foi Margarida que puxou conversa.
— Cansativo hoje, não?
— Verdade — concordou Carol, numa aquiescência elétrica, surpresa com o contato repentino da colega. — Cansativo mesmo. Se esse diploma não fosse importante...
— ... você já teria abandonado o curso há muito tempo. Eu também — disse Margarida, fazendo bico. — É duro, mas preciso ter um curso superior. Sabe, o tempo passou rápido demais pra mim.
Carol lançou um olhar intrigado à colega, curiosa.
— É, as coisas aconteceram depressa — prosseguiu Margarida. — Um emprego aqui, outro ali, uma doença na família, casamento, filhos... de repente você percebe que está com 34 anos, maltratada como se tivesse dez a mais, ganhando pouco, morando num apartamento que mal dá pra espirrar, sem um curso superior e cheia de problemas. — Pausa. — Não sou de falar muito, você sabe... Mas às vezes... Às vezes isso me vem à mente.
Carol crispou os lábios, sem saber o que dizer, buscando apresentar uma expressão solidária.
IV
Dentes cuidadosamente escovados, despertador programado para o horário habitual, torneiras fechadas, luzes apagadas. Após checar tudo isso mentalmente, Carol deitou-se, finalmente, em sua cama, solitária como de costume. Envolta em lençóis aconchegantes, foi acometida, como de costume, por pensamentos diversos e preocupantes. O que faria quando o contrato de trabalho acabasse? Viveria da música? Falando nisso... esquecera de ensaiar a música nova do repertório. E também de pendências em algumas matérias da faculdade. Conseguiria se formar? Como seria bom dividir o apartamento com alguém que amasse... os pensamentos eram mais ou menos os mesmos sempre, todos os dias, com pequenas variações apenas. Preocupações cotidianas de uma vida simultaneamente otimista e resignada, feliz e solitária.
Não, pensou Carol, hoje não. Tenho de dormir, não preciso pensar nisso tudo agora.
Decisão tomada, adormeceu em poucos minutos, extenuada que estava. O corpo iniciou seu descanso, preparando-se para repetir tudo no dia seguinte. A semana estava apenas começando.
II
A repartição não era o pior lugar do mundo, pensou Carol, arrumando papeis. Tudo bem que não era para sempre, visto que ela não era servidora concursada, mas melhor que não fosse: forçosamente, teria de buscar outros caminhos dentro de um ano, que era o tempo que faltava para findar seu contrato. Quem sabe o que havia para ela no futuro?
O olhar, vivo e atento, ia de um documento a outro, fazendo as revisões que lhe foram solicitadas. A tarefa de auxiliar administrativa podia ser ocasionalmente maçante, mas não era especialmente difícil, e em alguns momentos ensinava coisa ou outra. Carol ajeitou os óculos no rosto ao sentir a vista doer. Percebeu que estavam sujos e os tirou a fim de, meticulosamente, limpá-los no algodão da camisa.
— Oi, Carol! — disse uma voz masculina, jovial mas nem tanto.
— Mariano! — respondeu ela, virando-se rapidamente para olhar o colega, o cabelo curto balançando serelepe e o sorriso reaparecendo. — Tudo bom?
— Tudo bem — respondeu o outro, com ar cansado, sentando-se em outra estação de trabalho. — Ou nem tanto. Não dormi direito.
— Eu procuro dormir direito. Senão fico acabada o dia todo — disse Carol com um risinho, os olhos apertados de volta aos papeis.
— Tenho de melhorar isso. Sou muito desorganizado com meus horários.
— Percebi. Pelo horário que chegou hoje... — riu novamente, lampeira.
III
Não era confortável fazer faculdade à noite, especialmente sendo uma das poucas mulheres num curso tipicamente masculino, repleto de gente maçante e cansada da labuta diária. O que não tinha de agradável, o estudo tinha de necessário.
Gente maçante e cansada? Eu estou inclusa nesse grupo, pensou Carol, com um riso mental que não se traduziu em nada alegre em seu rosto. A feição oscilava de atenta a enfadonha, o sono que ia e vinha atrapalhava a mente a absorver o assunto de uma aula especialmente tediosa. As anotações estavam confusas. Que horas eram? Carol olhou no seu sóbrio relógio de ponteiros e percebeu que só restavam vinte minutos para o fim do dia de aulas. Glória, pensou, logo estarei em casa.
Quando o tempo finalmente findou, Carol juntou suas coisas, levantou-se e saiu sem demora, evitando perder tempo. Cada segundo que perdesse após o fim da aula reduzia suas chances de pegar o ônibus no horário certo, o que não só tornaria a jornada mais perigosa, como a faria chegar em casa mais tarde e perder minutos preciosos de sono.
Chegando ao ponto de ônibus, viu uma das poucas colegas mulheres da turma, Margarida. Ela era uns dez anos mais velha e não era de muita conversa. Protocolarmente, trocaram um boa-noite. Ficariam no silêncio, esperando cada qual seu ônibus? Carol não tinha muito ânimo para falar, mas, para sua surpresa, foi Margarida que puxou conversa.
— Cansativo hoje, não?
— Verdade — concordou Carol, numa aquiescência elétrica, surpresa com o contato repentino da colega. — Cansativo mesmo. Se esse diploma não fosse importante...
— ... você já teria abandonado o curso há muito tempo. Eu também — disse Margarida, fazendo bico. — É duro, mas preciso ter um curso superior. Sabe, o tempo passou rápido demais pra mim.
Carol lançou um olhar intrigado à colega, curiosa.
— É, as coisas aconteceram depressa — prosseguiu Margarida. — Um emprego aqui, outro ali, uma doença na família, casamento, filhos... de repente você percebe que está com 34 anos, maltratada como se tivesse dez a mais, ganhando pouco, morando num apartamento que mal dá pra espirrar, sem um curso superior e cheia de problemas. — Pausa. — Não sou de falar muito, você sabe... Mas às vezes... Às vezes isso me vem à mente.
Carol crispou os lábios, sem saber o que dizer, buscando apresentar uma expressão solidária.
IV
Dentes cuidadosamente escovados, despertador programado para o horário habitual, torneiras fechadas, luzes apagadas. Após checar tudo isso mentalmente, Carol deitou-se, finalmente, em sua cama, solitária como de costume. Envolta em lençóis aconchegantes, foi acometida, como de costume, por pensamentos diversos e preocupantes. O que faria quando o contrato de trabalho acabasse? Viveria da música? Falando nisso... esquecera de ensaiar a música nova do repertório. E também de pendências em algumas matérias da faculdade. Conseguiria se formar? Como seria bom dividir o apartamento com alguém que amasse... os pensamentos eram mais ou menos os mesmos sempre, todos os dias, com pequenas variações apenas. Preocupações cotidianas de uma vida simultaneamente otimista e resignada, feliz e solitária.
Não, pensou Carol, hoje não. Tenho de dormir, não preciso pensar nisso tudo agora.
Decisão tomada, adormeceu em poucos minutos, extenuada que estava. O corpo iniciou seu descanso, preparando-se para repetir tudo no dia seguinte. A semana estava apenas começando.

E a velha mecânica cansada do cotidiano segue...
ResponderExcluirÓtimo texto, mano.