Estavam eles quatro à mesa: Val, França, Beto e Lopes. Deles, só Val já fora preso, só França fumava, só Beto não bebia e só Lopes cheirava um pó de vez em quando – mas os quatro jogavam. E regularmente: aquela era a famosa mesa de quinta, que, inapelavelmente, em todas as quintas-feiras – exceto feriados e vésperas de feriados, e olhe lá – reunia, havia nove anos, os mesmos amigos, que, sentados em torno de uma regimental mesa de massaranduba forrada com feltro verde, faziam a única coisa que os unia: jogar pôquer.
França tirou o cigarro da boca num gesto expressivo, exalando ostensivamente a fumaça, logo antes de sua vez de apostar. Ninguém o repreendia: ele era o anfitrião, e anos antes, respondendo a uma queixa de Val, que era o menos chegado a cigarro, respondera em tom cortante que a casa era dele e nela faria o que quisesse. Daí em diante, nunca mais ninguém reclamou do cigarro. França cobriu a aposta de Beto sem dizer palavra.
— Que silêncio — disse Lopes, com um sorriso de canto de boca. — Parece que estão com medo. Essa mesa é silenciosa, mas nem tanto.
França grunhiu, sem tirar os olhos da mesa: com certeza, era arte de Lopes para distrair os jogadores. A mão dele deveria estar uma merda, mas como ele não era de refugar, também pagou, e a vez chegou enfim a Beto, que, com um muxoxo, jogou as cartas na mesa.
— Eu estou com medo mesmo — disse. — Não vem uma mão boa e estou perdendo muito dinheiro com blefe. Joguem vocês essa.
Virou-se mais uma carta e Val decidiu deixar as cartas de lado também, arqueando expressivamente as sobrancelhas. Embora fizesse as vezes de ex-presidiário durão, Val era apenas um dono de mercadinho decadente que ficara alguns dias na cadeia por conta de uma briga de bar onde acertara dois ou três murros num sujeito que, descobriu-se depois, era promotor. Coisas do passado, de antes da formação da mesa de quinta. Val coçou a cabeça e olhou para Beto, que, já fora da rodada, bebia água com gás.
— Você se acha o porreta, né? — perguntou, ameaçador. — Bebendo água com gás como se fosse gim-tônica, Martini seco ou sei lá o quê. Já não basta não beber, tem que agir assim, como se fosse superior?
— Eu te fiz alguma coisa, meu camarada? — Beto fechou a cara. — Você está perdendo dinheiro e está chateado, isso sim, fique na sua com seu uísque e me deixe com minha água com gás, que é melhor.
França não tirava os olhos do jogo.
II
Uma hora depois – num horário onde só quem costuma estar acordado são corujas e plantonistas – , Lopes perdera uma soma razoável de dinheiro, e com ela, seu sorriso sarcástico; Beto recuperara parte do que havia perdido e seguia quieto, “imitando França”, dizia ele, concentrado no jogo e sem se dignar olhar para Val, com quem estava chateado, que por sua vez seguia perdendo dinheiro e já havia provocado também Lopes. E França, bom, França não tirava os olhos do jogo – e nem o cigarro da boca.
— Vê mais uísque pra gente aí, Lopes — disse França, secamente.
Lopes, suspirando, pegou do chão a garrafa de uísque que trouxera. Reabasteceu os copos de Val, França e dele próprio, mas não olhou na cara de Beto, que, com seu hábito abstêmio arrogante, não mereceria tal atenção. Não que Lopes tivesse qualquer coisa contra Beto, mas essa repulsa ao álcool com esse ar pedante realmente irritavam muito. Talvez Val pensasse o mesmo, talvez fosse só efeito do dinheiro que perdia na mesa; talvez Beto não gostasse de Val também, e talvez nenhum deles ficasse agradado com o jeito sisudo de França, que, por motivos insondáveis, era o anfitrião, então poderia ditar as regras.
— Por que a gente faz sempre o pôquer de quinta na casa de França? — perguntou Beto.
Val lançou um olhar enviesado ao infinito, Lopes tentou articular alguma fala, mas França cortou, secamente:
— Se não for aqui eu não vou.
— Que arrogância, França — disse Lopes. — Estou farto disso. Fica jogando de cara fechada, cortando qualquer coisa que dizemos e ditando regras...
— Você acha que eu gosto de seu jeito? — disse França, alterando ligeiramente a voz. — Você fica aí com essa cara descarada, esse seu jeito sarcástico, blefando só pra me ver perder. Tô sabendo.
— Não sei se tem a ver isso... — ia dizendo Beto.
— Para com isso, porra! — era Val. — Já chega! Você fica aí bebendo sua merda de sua aguinha com gás na maior arrogância, agora vem contestar França? Você é muito metido a besta...
— Contestar França? — disse Lopes, mais indignado que o próprio França. — E quando você destratou ele aqui, na casa dele, na frente de todo mundo, por causa do cigarro? Cala a boca, rapaz!
Instalada a confusão: Beto já virara suas atenções de novo para Val, que se ocupava em bater boca a plenos pulmões com Lopes, que concordava com ele em achar Beto arrogante, mas que achava que França deveria ser mais respeitado, embora o achasse mais arrogante do que Beto, que também não gostava muito de França, que achava Lopes um dissimulado provocador.
Após um ou dois minutos de discussão, França bateu na mesa com força, silenciando os demais.
— Acabou por hoje. Todo mundo pra fora.
Os outros três se levantaram. Quando França dizia que havia acabado, não havia recurso, choro nem vela: a todos, restaria acumular argumentos para usar na discussão da quinta seguinte, tão certa quanto a própria reunião.

Quando até briga vira rotina.
ResponderExcluirMassa!