I
Peralta. Rangel Peralta, ao seu dispor. Investigador particular? Não, isso é muito batido, sou jornalista freelancer, jogador de pôquer, apostador esportivo e cronista independente. Muita coisa? Espere só até me conhecer melhor, boneca. E não, meu sobrenome não é Rangel, é meu nome mesmo, sou Rangel Peralta, é um nome forte, forte como eu na profissão, na escrita e na elegância. Espere só, neném, um dia quem sabe você ande de braços dados comigo, eu com minha camisa de botões pareados, o cabelo jogado para trás e o perfume incendiando o ambiente. Não tenha ciúmes: eu atraio olhares. Peso? Bom, não estouro balança, mas também não preciso correr de braços abertos sob o chuveiro pra conseguir me molhar. Idade? Digamos que meu time de botão era o Bahia de 98. Signo? Não ligo para signos, boneca, meu signo é a confiança, a competência e o hálito sempre fresco. Espere só até me conhecer melhor.
Você pode perguntar sobre o que escrevo enquanto cronista. Bom, minha habilidade com as letras não poderia ser usada de uma única forma. Eu escrevo, garota, escrevo bem, e acho que as pessoas merecem me ler, se não for num freelance de jornal, na prosa, na crônica, mas bom, nem só de crônicas literárias vive o ser humano, sou cronista esportivo e político também. O que mais? Bebida? Assim, assim, socialmente, ou pra degustar algo de qualidade. Se eu fumo? Preferiria contrabandear cigarros a fumá-los. Drogas? A vida já tem tantas, para que vou usar mais? Claro, experimentar todo mundo experimenta alguma coisa. Minha vida é um livro aberto, mas tem algumas páginas coladas. O livro de todo mundo tem páginas coladas, ou borrões, ou rasuras. Às vezes está sem capa, mas não sou tão descuidado assim. Honesto com uma dose de mistério, sério com um riso de canto, elegante mas autêntico, esse sou eu, Peralta, Rangel Peralta. E não pense que sou convencido. Sou verdadeiro, franco, opino sobre mim sem frescura. Não sou de cerimônia. Só o protocolo habitual, claro, que tipo de selvagem vive sem protocolo? Assim é Rangel Peralta, cosmopolita, culto e polivalente, ao seu dispor, garota.
II
Acordei numa manhã chuvosa tateando em busca do celular que tocava. Estava perdido, desorientado, saíra de um sono ainda profundo, aninhado nas cobertas, para uma manhã enregelante – considerando o clima tropical como parâmetro – e um turbilhão de pensamentos e uma vista enevoada, aquela coisa estranha e desagradável que todo mundo sente quando acorda de supetão. Bom, enfim, peguei o bendito telefone e o atendi, com uma voz medonha e a mente atrapalhada:
— Alô?
— Ave Maria, Rangel, que voz horrível, eu sabia que você estava dormindo ainda! Venha logo!
— Quem... É Paula? – um lampejo de compreensão passou por minha cabeça.
— Claro que é, abestalhado! Esqueceu que você marcou comigo hoje dez horas? Venha logo, moço!
Enquanto me arrastava da cama para um confortável, porém nada revigorante banho quente, fui lembrando os detalhes. Eu prometera a Paula que ajudaria a arrumar a casa dela naquele dia – um sábado – , e tinha de ser com horário marcado pois à noite ela viajaria para uma reunião de negócios em Belo Horizonte, onde passaria vários dias. Era isso. O que não fazemos por nossos amigos e amigas?
Ao sair de casa, usando calça e casaco igualmente surrados e com um aristocrático guarda-chuva para a eventualidade quase certeira de voltar a chover, lembrei-me do sonho que tivera. Eu me apresentava como Rangel Peralta, ao seu dispor, jornalista, cronista, apostador, jogador de pôquer, elegante, seguro e galanteador. Quem era esse? Ri sozinho ao recordar os detalhes do sonho. O Peralta-ao-seu-dispor usava uma alinhada camisa de botões pareados, exalava perfume caro, tinha cabelos engomados puxados para trás, era formado em Jornalismo, ganhava dinheiro com pôquer e apostas esportivas, manejava com destreza a pena com a qual escrevia reportagens e crônicas e encantava as garotas com um jeito meio brega, meio enigmático, meio culto. Em nada parecia com o homem do sonho: era estudante de Letras, nem imaginava mexer com texto jornalístico, trabalhava como auxiliar administrativo de uma empresa ordinária, tinha alergia a perfume e meu parâmetro máximo de elegância eram camisas polo puídas que tinha no armário. Pôquer joguei algumas vezes, nunca a dinheiro. Galanteador? Só quando inspirado.
O ônibus espirrava água para todos os lados numa avenida quase deserta, destruindo as poças até então tranquilizadas pela cessação temporária da chuva. Paula me ligara de novo, eu estava atrasado, mas enfim, o que fazer? Paula era uma pessoa ótima, mas com vocação para a chatice em momentos inesperados – ou inadequados. Mas nada pude fazer a não ser aprender a lidar com ela, assim como ela aprendera a lidar comigo: lá se iam sete anos de amizade, mais que um terço das nossas vidas. O tempo ou afasta as pessoas, ou as adapta umas às outras.
Cheguei, enfim, com 52 minutos de atraso, ao apartamento de Paula. Ela me recebeu pouco satisfeita, porém com aquela indignação faceira, em parte exagerada, coisa de amiga velha de guerra. Usava uma camisa de algodão folgada, mas nem tanto, e tinha os cabelos revoltos. Mais longos do que eu me lembrava, diga-se.
— Atrasado, como sempre — disse, dando-me um beijo protocolar na bochecha. — Venha, temos muita coisa pra fazer, ainda vou ter que arrumar minha mala pra viajar depois, não peguei uma peça de roupa ainda — fechou a porta, rindo.
Começamos a trabalhar. Ela precisava limpar a casa, separar coisas para jogar fora – estava num de seus rompantes de “desapego”, a fim de se livrar de “peso morto” – achar algo que ela havia perdido, e, sobretudo, deixar tudo organizado para a tal viagem. Era uma viagem importante: dona de uma microempresa de marketing digital, Paula havia emplacado duas campanhas seguidas de muito sucesso e fora chamada para uma reunião com o CEO de uma agência de Belo Horizonte, que tinha interesse em absorver sua empresa, seus clientes e seus serviços, empregando-a na gestão de uma gorda carteira de clientes. Obviamente ela iria morar lá se o negócio fosse bem sucedido. Será que eu a desejava sucesso?
Abstrações à parte, trabalhamos duro, entre conversas amenas e brincadeiras, por umas duas horas, até interrompermos o labor para almoçarmos. Paula acendeu o fogo e nele colocou uma panela com arroz, outra com feijão e uma frigideira onde passaria uns bifes. Pus-me a observá-la, visto que em matéria de cozinha ela tinha muito mais gabarito do que eu. Não evitei um riso de canto com seus movimentos descuidados, despojados, o cabelo balançando de lá pra cá e os sons cotidianos que ela fazia com a boca enquanto trabalhava. Olhou para trás e me viu a fitá-la.
— O que é, rapaz? Nunca viu uma mulher cozinhando?
— A graça é justamente ver esta mulher cozinhando. Sou seu fã, Paulinha – respondi, com expressão moderada, mas sincera.
Ela riu e voltou ao trabalho, mexendo nos bifes que ardiam em meio à cebola, na frigideira. Paula era uma grande amiga, daquelas que a gente tem intimidade e confia, sem frescura, sem pretensão, que admira sem pedir nada em troca. Convenhamos, ela incentivava isso: nunca fora arrogante, nem formal, nem desonesta. Fornecera, durante sete anos, um abastecimento de amizade que eu acreditava também ter fornecido a ela.
— O cara de BH me adiantou a proposta por e-mail — disse ela, mordendo o lábio, subitamente mais séria, interrompendo meus devaneios.
— E aí? — meu cenho estava franzido.
— É uma proposta muito boa. Ele vai me oferecer um bom dinheiro pela empresa, vou administrar uma boa carteira de clientes e meu salário vai ser maior que meu faturamento médio com a empresa atual. Acho que não vou ter como recusar — arrematou, olhando-me de canto.
Fiz uma expressão qualquer de aquiescência, mas não sabia o que dizer. Procurei evitar o assunto durante o almoço e o restante da tarde. Desejei-lhe boa viagem e boa sorte ao final de nosso árduo sábado laboral, e fui-me embora pensativo, com o guarda-chuva fechado debaixo do braço.
III
Fui ter notícias de Paula só na terça-feira seguinte, quando, após um dia desgastante de trabalho e estudo, recebi uma mensagem dela dizendo que aceitara a proposta, após acertar alguns detalhes. A primeira coisa em que pensei foi em como esses mangangões do mundo empresarial são diretos, agem rápido e não medem esforços para conseguirem o que querem. Numa perspectiva sinistra, evidentemente, com o rancor escorrendo de leve pelo canto da boca. Parabenizei-a em seguida, protocolarmente, pedi mais notícias também protocolarmente e decidi que o melhor mesmo era tomar um banho. Ela me informou que voltaria a Salvador em pouco tempo para “ajeitar a vida”, juntar a bagagem e partiria cerca de uma semana depois, para morar lá em Belo Horizonte, e, se o projeto não desse certo, o pior que poderia acontecer seria seu retorno dentro de alguns meses, mais experiente e com muito mais dinheiro do que saíra. O pior?
Em meus devaneios, lembrei do Rangel Peralta do sonho, o multifacetado e decidido galanteador brega, um autêntico garanhão de alcova que vendia seu peixe com frases tão arrogantes quanto divertidas e não se importava em não conseguir o que queria, pois queria muita coisa e algo sempre acabaria saindo do seu jeito. O Rangel Peralta que deixava claro o importante e fazia mistério por charme, em contraposição ao Rangel Peralta de bom humor moderado e que costumava esconder o essencial, este charlatão que vos escreve. O que aquele Rangel diria a Paula?
Fiquei com essa pergunta na cabeça enquanto os dias passaram, Paula voltou a Salvador e me convidou para um bota-fora no domingo seguinte. Era uma mudança-relâmpago, amigos e familiares que nem sabiam que ela recebera uma proposta foram surpreendidos com a notícia da mudança para Belo Horizonte, outros imaginavam que seria coisa para semanas ou meses adiante. Pois é, mas assim é a vida, os ventos sopraram e ela organizou – muito mal organizado, diga-se – um bota-fora em seu apartamento, no qual não fiquei à vontade em meio a tanta gente e tanta bagunça. Reencontrei alguns amigos em comum, ri, bebi, comi, mas a melancolia da partida repentina e iminente de Paula me dominou naquela tarde a ponto de eu não conseguir falar com ela direito. Ao ir embora, despedi-me como de costume, talvez o abraço tenha demorado um pouco mais, senti a tristeza em seu semblante também. Bom, estava feito, adeus, a vida segue, quem sabe não nos vemos em alguns meses.
Quem passou a me ver com mais frequência, por outro lado, foi Rangel Peralta, não eu mesmo, mas aquele. O engomado e descolado jornalista-cronista-apostador surgiu em sonhos, sussurrou em meu ouvido, deu-me conselhos, aprontou das suas. Caricato, mítico, tomou forma, virou meu companheiro, e semanas depois, já era parte de mim. A quem achava que me conhecia, só pude responder: espere até me conhecer melhor, neném. Rangel Peralta, ao seu dispor.

"...Quando não há ninguém a vista
ResponderExcluirNuma multidão noturna solitária
Bem, eu espero muito tempo
Por minha vibração de amor
Eu danço comigo mesmo..."
Dançando Comigo Mesmo
The Donnas
Obrigado pelo texto.